Sabe aquela sensação de usar um sapato velho?
Ele já está todo gasto, fazendo tropeçar, mas a gente continua usando porque “é confortável”. Não faz bem para os pés, e nem é mais tão bonito — mas, mesmo assim, a gente insiste.
Pois é, muita gente vive a relação com a bebida exatamente assim. O álcool, que começou como curiosidade, depois pareceu solução para relaxar, se soltar ou esquecer problemas, vira uma espécie de “zona segura” — mesmo quando já não traz segurança nenhuma.
É aquela cervejinha no fim do expediente, o vinho pra acompanhar o jantar, a caipirinha no churrasco. Tudo muito “normal”, até que a gente percebe que o normal tá pesando. Que o preço tá ficando caro. Que o corpo reclama, a cabeça cobra, e o coração — ah, o coração — sente aquele vazio sem nome depois. E mesmo assim, por que é tão difícil mudar? Por que a gente se prende a uma vida que já não serve mais?
A resposta passa tanto pela neurociência quanto pela filosofia. O cérebro humano é construído para buscar previsibilidade e repetição. Quando uma experiência gera alívio imediato, mesmo que temporário, o cérebro registra aquilo como algo importante para a sobrevivência. O álcool atua justamente nos circuitos de recompensa, especialmente envolvendo dopamina, produzindo relaxamento rápido e redução momentânea da ansiedade. O problema é que o cérebro aprende rápido demais. Com o tempo, aquilo que parecia escolha vira automatismo. E o que parecia liberdade começa a funcionar como prisão silenciosa.
A FALSA PROMESSA DO ALÍVIO IMEDIATO
O álcool é mestre em vender alívio rápido.
Tá triste? Bebe.
Tá feliz? Bebe.
Tá entediado? Bebe.
Tá ansioso? Bebe.
É uma solução “de prateleira” para qualquer emoção desconfortável. Mas o problema é que esse alívio é de curtíssima duração. É tipo apagar um incêndio jogando gasolina: parece que resolve, mas no fundo só piora tudo. E o cérebro aprende a associar a bebida a esse falso alívio. Cada vez que você toma aquele gole pra “esquecer um pouco”, o cérebro registra: “isso aqui ajuda”. E pede de novo na próxima vez.
A neurociência mostra que, com o uso frequente, o cérebro passa a reduzir sua sensibilidade natural ao prazer. Aquilo que antes dava satisfação — conversar, descansar, ouvir música, caminhar, sentir presença — parece perder intensidade. Não porque a vida tenha ficado necessariamente sem graça, mas porque o sistema de recompensa foi sendo condicionado a estímulos mais rápidos e intensos. É uma das razões pelas quais tantas pessoas em processo de sobriedade relatam tédio, vazio ou estranheza nos primeiros meses sem álcool.
E talvez exista algo ainda mais contemporâneo nisso tudo. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han fala sobre uma sociedade do excesso: excesso de estímulos, desempenho, informação, comparação e anestesia emocional. Vivemos pressionados a produzir, performar, sorrir, aguentar. Nesse cenário, o álcool muitas vezes aparece como um botão de desligar. Não necessariamente porque a pessoa queira “festa”, mas porque deseja silêncio interno por algumas horas.
Só que o excesso não desaparece. Ele volta depois — muitas vezes mais pesado.
A ZONA DE CONFORTO QUE VIRA PRISÃO
A tal da “zona de conforto” é, na real, só confortável porque é conhecida. Não necessariamente porque é boa. Mudar dá medo. Mesmo que a situação atual esteja ruim, pelo menos você sabe o que esperar dela. Sair disso é entrar no território desconhecido — e o cérebro, que adora economizar energia e evitar ameaças, faz de tudo para impedir mudanças bruscas.
Então, a gente vai empurrando. Justificando.
“Ah, eu bebo socialmente.”
“Ah, mas todo mundo bebe.”
“Ah, eu não sou alcoólatra.”
Enquanto isso, a vida vai ficando cada vez mais apertada. Menos disposição. Mais irritação. Menos sonhos. Mais ressaca — física, emocional, existencial.
O filósofo Martin Heidegger falava sobre como o ser humano frequentemente vive mergulhado no “impessoal”, fazendo o que “todo mundo faz”, repetindo hábitos sem realmente se perguntar se aquela vida ainda faz sentido. Talvez exista algo disso na relação automática com a bebida. Em muitos contextos, beber não é nem mais escolha consciente; é quase um roteiro social já pronto. A pessoa bebe porque sempre bebeu, porque todos bebem, porque não sabe exatamente quem seria sem aquilo.
E, no fundo, ela sabe. Sabe que não está funcionando mais. Sabe que merece mais do que uma anestesia temporária.
O LUTO DA VIDA ANTIGA
É importante reconhecer: mudar a relação com o álcool é também viver um luto. Você está se despedindo de uma versão sua que acreditou, por muito tempo, que a bebida fazia parte da alegria, do relaxamento, da socialização. E dá medo, sim. Dá tristeza, também.
Para pensadores como Søren Kierkegaard e Jean-Paul Sartre, existir envolve angústia justamente porque liberdade exige escolha. E escolher uma vida nova implica abandonar versões antigas de si mesmo. Não existe transformação sem desconforto. Não existe autenticidade sem atravessar alguma insegurança.
Mas é justamente nesse espaço — entre a despedida e o novo começo — que algo verdadeiro pode nascer. É aí que a pessoa começa a construir uma vida menos anestesiada e mais presente. Uma vida em que sentir deixa de ser ameaça e volta a ser experiência humana.
PEQUENAS SAÍDAS DO CICLO
Aqui vão algumas ideias práticas pra começar a sair dessa zona desconfortável:
Questione suas crenças: será que a bebida é realmente necessária para relaxar? Para se divertir? Para se conectar com os outros? Muitas vezes, o que existe é um condicionamento emocional e social repetido por anos.
Observe seus gatilhos: que momentos ou emoções mais te levam a querer beber? Tristeza? Estresse? Solidão? Tédio? A neurociência mostra que reconhecer padrões é um passo importante para enfraquecer respostas automáticas do cérebro.
Experimente novas fontes de prazer: troque o “beber pra relaxar” por experiências que devolvam presença ao corpo e ao cotidiano — um banho demorado, uma caminhada sem pressa, música, leitura, silêncio, natureza, exercício físico ou encontros que não girem em torno do álcool.
Não se cobre perfeição: recaídas não anulam o processo. Mudanças profundas raramente acontecem de maneira linear.
Celebre as pequenas vitórias: Cada decisão consciente. Cada momento em que você percebe que consegue sentir prazer, descanso ou conexão sem precisar se anestesiar.
A LIBERDADE MORA FORA DA ZONA DE CONFORTO
O que parece desconfortável no começo — dizer não para o copo, encarar um sábado à noite sóbrio, lidar de frente com emoções antes anestesiadas — é justamente o que pode abrir espaço para uma liberdade que muita gente já nem lembra mais como é.
Liberdade para estar presente. Para sentir de verdade. Para criar histórias, novas conexões, novos prazeres.
Talvez a verdadeira “zona de conforto” não seja aquela onde nada muda, mas aquela onde a vida finalmente volta a caber dentro de você sem precisar de anestesia.
Você merece muito mais do que o conforto desconfortável que te segura no mesmo lugar. Merece uma vida inteira, vibrante, de verdade. E ela começa com um passo. Depois outro. Depois outro. Tudo no seu tempo. Mas em direção a uma vida que não precise ser apagada para ser suportada, e sim vivida.
EXERCÍCIO PRÁTICO: COMO SE O ÁLCOOL NÃO EXISTISSE
Quando surgir a vontade de beber, faça um exercício mental simples: Imagine que o álcool simplesmente não existe. Não pode comprar. Não tem em casa. Não é uma opção.
Então pergunte a si mesmo: “O que eu realmente preciso agora?”
Talvez a resposta seja:
descanso.
silêncio.
coragem.
acolhimento.
presença.
diversão.
desligar a mente.
chorar.
pertencimento.
O ponto do exercício é perceber que, muitas vezes, a bebida não é o verdadeiro desejo. Ela é apenas a resposta automática que você aprendeu a dar para algum desconforto. E entender isso muda muita coisa.
Rafa Pessato
Embriague-se de si
rafapessato.eu












