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O CUSTO DO ÁLCOOL. Alívio rápido e sofrimento lento, contínuo e crescente

Há um tipo de conta que não fecha no fim do mês, não porque falte matemática, mas porque sobra negação. O álcool é mestre nisso: ele simplifica o agora e complica o depois. Ele oferece um alívio imediato — rápido, acessível, socialmente aceito — enquanto instala, em silêncio, um processo contínuo de cobrança que não respeita prazos, nem limites, nem boa vontade. O custo do álcool não é apenas aquilo que sai da carteira; é, sobretudo, aquilo que escorre da vida sem que se perceba de imediato. E é por isso que ele é tão difícil de ser reconhecido: porque sua fatura não vem com descrição detalhada.

“Às vezes chega sexta-feira, eu com 600 conto na carteira acho que não é suficiente.” A frase, aparentemente banal, carrega uma lógica inteira de funcionamento. Não se trata apenas de dinheiro insuficiente, mas de uma expectativa inflada, de uma necessidade que cresceu ao longo dos anos. Quem escreveu isso também relatou duas décadas de consumo e um gasto médio de dois mil reais por mês — mais do que um salário-mínimo. O dinheiro é dele, evidentemente. A liberdade individual inclui o direito de gastar como quiser. Mas liberdade não é ausência de consequência; é convivência com elas. E quando algo começa a incomodar, quando a própria pessoa percebe um excesso, já não se trata apenas de escolha — trata-se de relação.

A filosofia existencialista, especialmente em autores como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, insiste em um ponto incômodo: somos responsáveis por aquilo que fazemos com o que fizeram de nós. Não escolhemos todas as condições, mas escolhemos, continuamente, como respondemos a elas. O álcool, nesse contexto, pode funcionar como fuga — não no sentido simplista de covardia, mas como estratégia concreta de lidar com a angústia. E a angústia, para o existencialismo, não é um defeito: é um dado da existência. Fugir dela, porém, tem um preço.

Esse preço começa pelo corpo, passa pela mente e se estende ao tempo. Porque o álcool não cobra à vista; ele parcela em experiências. Uma ressaca nunca é só uma ressaca. São horas improdutivas, relações negligenciadas, decisões adiadas, irritabilidade, culpa difusa. Quando alguém diz que teve quatro ressacas no mês, não são apenas quatro eventos isolados — é um acúmulo. E aqui entra uma analogia econômica poderosa: os juros compostos. No álcool, os danos também se acumulam sobre danos. Cada episódio não começa do zero; ele se soma ao anterior, criando uma curva ascendente de prejuízo físico e emocional.

Na economia, existe o conceito de custo de oportunidade: tudo aquilo que se deixa de ganhar ao escolher uma coisa em detrimento de outra. Aplicado ao álcool, esse conceito ganha uma dimensão quase impossível de mensurar. Quantas oportunidades foram perdidas ao longo de anos de consumo? Não apenas oportunidades financeiras — investimentos não feitos, dinheiro não guardado — mas oportunidades existenciais: relações que poderiam ter sido aprofundadas, projetos iniciados, saúde preservada, energia direcionada para algo que constrói em vez de apenas aliviar.

E aqui está um ponto crucial: o álcool não é caro apenas pelo que custa, mas pelo que substitui. Ele ocupa espaço. Espaço de tempo, de atenção, de disposição. Ele reorganiza a vida ao redor de si. Sexta-feira deixa de ser apenas o fim da semana e passa a ser um evento central. O dinheiro na carteira deixa de ser um recurso e passa a ser um meio para sustentar um padrão. E, aos poucos, sem grandes rupturas visíveis, a vida vai sendo calibrada para comportar o consumo.

O problema não é apenas o preço — é o valor atribuído. O alcoolista, muitas vezes, percebe um valor enorme no ato de beber: relaxamento, pertencimento, alívio, recompensa. E esses valores são reais no curto prazo. Negá-los seria desonesto. O ponto é que esse valor percebido não inclui, de forma consciente, os custos embutidos. E é aqui que a conta se distorce. Porque o que se paga não é só o produto; são os gastos indiretos: transporte, comida impulsiva, decisões tomadas sob efeito, conflitos gerados, produtividade reduzida. E, ainda assim, isso tudo é apenas a superfície.

O custo mais profundo é subjetivo. É a relação que se estabelece consigo mesmo. O existencialismo contemporâneo, em autores como Byung-Chul Han, aponta para uma sociedade do excesso — não apenas de consumo, mas de estímulo, de desempenho, de exigência. Nesse cenário, o álcool surge como uma ferramenta de regulação emocional: ele desliga, anestesia, simplifica. Mas essa simplificação cobra seu preço na complexidade da vida real. Porque aquilo que é evitado não desaparece; retorna, frequentemente, mais intenso.

Há também um componente de temporalidade que não pode ser ignorado. A economia pensa no longo prazo. E a existência também deveria. Ainda que a vida seja finita — como lembraria Martin Heidegger ao falar do ser-para-a-morte —, ela é suficientemente longa para que padrões se consolidem. O que se repete hoje se torna tendência amanhã. E, a partir de certa idade, especialmente após os 40, a margem de recuperação diminui. O corpo responde menos, a saúde cobra mais, o tempo parece mais escasso.

Isso não é um convite à culpa. Culpa paralisa, envergonha, reduz a capacidade de ação. Muitos que param de beber relatam esse momento: fazem as contas, percebem o dinheiro gasto, o tempo perdido, e se sentem “burros”, envergonhados. Mas essa leitura, embora compreensível, não ajuda. O objetivo de olhar para o custo do álcool não é punir o passado, mas esclarecer o presente. É transformar uma relação implícita em algo visível.

Porque, no fim, a pergunta central não é “quanto você gasta com álcool?”, mas “o que o álcool está custando na sua vida?”. E essa resposta não cabe em planilhas. Ela envolve saúde, relações, autoestima, tempo, possibilidades. Envolve aquilo que poderia ter sido e aquilo que ainda pode ser. O dinheiro, nesse contexto, é apenas um indicador — importante, mas insuficiente.

Existe uma ideia recorrente no existencialismo: a de autenticidade. Viver de forma autêntica não significa viver sem dor, mas viver sem autoengano. Significa olhar para as próprias escolhas com clareza, reconhecer suas consequências e, a partir disso, decidir. O álcool, quando problemático, frequentemente se sustenta em pequenas distorções: “eu mereço”, “é só hoje”, “não é tão grave”. E, isoladamente, nenhuma dessas frases parece absurda. O problema é o conjunto, a repetição, o padrão.

Olhar para o custo do álcool é, portanto, um exercício de lucidez. Não para moralizar, mas para compreender. Não para proibir, mas para escolher com mais consciência. Porque toda escolha implica renúncia — e o custo de oportunidade está sempre presente, mesmo quando não é calculado.

Talvez o ponto mais importante seja este: o álcool promete aliviar a vida, mas, quando se torna central, começa a reduzi-la. Ele não tira apenas dinheiro; ele tira possibilidades. E isso, diferente de uma conta bancária, não pode ser recuperado com um depósito.

A pergunta permanece, incômoda e necessária: qual é o custo do álcool na sua vida? E, mais importante, você está disposto a continuar pagando?


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu


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