O trabalho não cria alcoolistas. Nenhum cargo, nenhum uniforme, nenhum crachá tem esse poder isoladamente. Mas há algo mais sutil — e mais perigoso — acontecendo no modo como trabalhamos hoje. O trabalho contemporâneo não apenas organiza o tempo; ele organiza a forma como sentimos, ou, mais precisamente, como deixamos de sentir. E quando emoções não encontram linguagem, elas encontram saída. Muitas vezes, líquida.
Existe um deslocamento importante que raramente entra na conversa. Quando se pergunta se determinadas profissões favorecem o alcoolismo, ainda estamos olhando para a superfície. O que sustenta o consumo não é a função em si, mas o conjunto de exigências invisíveis que a acompanham: a necessidade de manter performance constante, a impossibilidade de demonstrar fragilidade, a pressão contínua por resultado e a ausência quase estrutural de espaços legítimos de elaboração emocional. Nesse cenário, o álcool deixa de ser apenas uma substância e passa a funcionar como tecnologia informal de regulação psíquica.
O TRABALHO COMO REGULADOR EMOCIONAL
O trabalho moderno exige um tipo específico de funcionamento: alta entrega com baixa expressão emocional. Espera-se que o indivíduo suporte, resolva, entregue, responda, adapte-se — tudo isso sem colapsar, sem hesitar e, sobretudo, sem expor o que essa exigência produz internamente. Não há tempo, nem linguagem, nem incentivo para processar o impacto subjetivo da rotina. O resultado é previsível: o que não pode ser elaborado precisa ser amortecido.
É nesse ponto que o álcool entra, não como excesso descontrolado desde o início, mas como ajuste fino. Um recurso aparentemente funcional para reduzir a tensão acumulada, desacelerar o corpo, silenciar o ruído interno. E funciona — pelo menos no curto prazo. Essa eficácia inicial é o que sustenta o ciclo. Não se trata de falta de informação sobre os riscos, mas de ausência de alternativas igualmente acessíveis para lidar com o que o trabalho produz.
O QUE OS DADOS REVELAM — E O QUE ESCAPA
Segundo a Organização Mundial da Saúde, o uso nocivo de álcool continua associado a mais de 3 milhões de mortes por ano, com impacto significativo justamente na população em idade produtiva. A Organização Internacional do Trabalho relaciona o consumo a quedas de produtividade, aumento de acidentes, absenteísmo e presenteísmo — este último talvez o mais emblemático do nosso tempo: estar fisicamente presente, mas funcionalmente comprometido.
Mas os dados, embora importantes, têm um limite claro. Eles descrevem consequências, não significados. Mostram o impacto do álcool no trabalho, mas raramente investigam o papel do trabalho no consumo. Quando essa inversão não é feita, o fenômeno permanece incompleto. O álcool aparece como problema individual dentro de sistemas que, muitas vezes, contribuem ativamente para sua manutenção.
A CULTURA DO “AGUENTAR”
Há uma ética silenciosa atravessando diferentes setores: a valorização da resistência. Não se trata apenas de trabalhar muito, mas de suportar muito — emocionalmente, cognitivamente, fisicamente. O cansaço é normalizado, a sobrecarga é esperada e a exaustão passa a ser quase um marcador de comprometimento. Nesse contexto, parar não é visto como cuidado, mas como falha.
O problema é que o corpo não negocia indefinidamente. Ele acumula. E quando não há vias legítimas de descarga — conversa, pausa real, elaboração — surgem vias substitutas. O álcool, nesse cenário, não aparece como desvio, mas como continuidade lógica. Ele permite que o indivíduo siga funcionando, ainda que a um custo crescente.
HAPPY HOUR: RITUAL DE PERTENCIMENTO
O chamado happy hour merece um olhar menos ingênuo. Mais do que lazer, ele opera como um dispositivo social de regulação coletiva. É ali que a tensão acumulada encontra permissão para emergir — ainda que mediada pela bebida. Reclamar, rir, relaxar: tudo isso se torna mais aceitável quando acompanhado de álcool.
Há também uma dimensão de pertencimento. Beber junto reforça vínculos, dilui hierarquias momentaneamente e cria uma sensação de inclusão. Recusar, por outro lado, pode significar afastar-se. Não explicitamente, mas de forma sutil. Assim, o consumo deixa de ser apenas escolha individual e passa a ser, em alguma medida, prática relacional.
O ALCOOLISMO QUE NÃO INTERROMPE — E POR ISSO PERMANECE
Um dos aspectos mais complexos do alcoolismo ligado ao trabalho é sua capacidade de coexistir com desempenho. Trata-se do chamado funcionamento preservado: o indivíduo continua entregando, participando, produzindo. O consumo se concentra fora do horário formal ou em brechas invisíveis. Não há colapso imediato, não há ruptura evidente.
Essa ausência de ruptura dificulta o reconhecimento. Para o ambiente, não há problema aparente. Para o indivíduo, há a sensação de controle. Mas o custo se acumula internamente — no corpo, no sono, na saúde mental, nas relações. Quando finalmente se torna visível, o padrão já está consolidado.
ENTRE RESPONSABILIDADE E CONTEXTO
Há uma tensão inevitável nessa discussão. De um lado, o ambiente de trabalho como fator de risco real, com suas exigências e culturas específicas. De outro, a responsabilidade individual, que não pode ser completamente deslocada para fora. Reduzir o problema a uma dessas dimensões empobrece a análise.
O alcoolismo não nasce do trabalho, mas também não é independente dele. Ele se forma na intersecção entre história pessoal, vulnerabilidades e contexto. O ambiente pode intensificar, facilitar, normalizar. Mas a relação com o álcool também envolve escolhas, ainda que condicionadas, e possibilidades de mudança, ainda que difíceis.
A PERGUNTA QUE IMPORTA
Talvez a pergunta mais útil não seja se o trabalho causou o consumo. Mas sim: o álcool se tornou uma forma de suportar a rotina? Se a resposta for sim, há algo relevante a ser observado — não como julgamento, mas como ponto de partida.
Porque quando o álcool assume função, ele deixa de ser apenas hábito. E funções podem ser substituídas, desde que identificadas. Isso exige um movimento menos voltado à culpa e mais à compreensão: o que exatamente está sendo regulado? Ansiedade, exaustão, vazio, pressão? Nomear isso não resolve imediatamente, mas abre espaço para outras formas de lidar.
SEM SOLUÇÕES SIMPLES
O trabalho não vai, no curto prazo, se reorganizar para se tornar emocionalmente sustentável. As estruturas que o sustentam — produtividade, competitividade, desempenho contínuo — permanecem ativas. Isso significa que esperar uma mudança externa como condição para mudar a relação com o álcool tende a prolongar o problema.
Por outro lado, a mudança individual também não é trivial. Ela implica revisar padrões, construir novas estratégias de enfrentamento e, muitas vezes, confrontar aspectos desconfortáveis da própria experiência. Não é rápido, nem linear. Mas é possível.
O QUE FICA
O ponto central talvez seja este: o álcool não entra por acaso. Ele ocupa um espaço. E, no contexto do trabalho contemporâneo, esse espaço costuma estar relacionado àquilo que não pode ser dito, sentido ou interrompido.
Enquanto a discussão continuar focada apenas em setores, cargos ou estatísticas, o essencial seguirá à margem: o uso do álcool como resposta ao modo como se vive e se trabalha.
E isso não se resolve apenas mudando de profissão.
Rafa Pessato
Embriague-se de si












