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BINGE DRINKING: o abismo disfarçado de festa

Para quem já cansou de acordar no fundo do poço com gosto de arrependimento na boca.

Era pra ser só uma comemoração.

Um copo. Dois. Três.

“Hoje eu mereço”, você pensou.

E quando piscou, já era amanhã, e o chão te chamava de volta.

O tal do binge drinking parece, à primeira vista, um excesso pontual. Algo episódico. Uma farra aqui, outra ali. Mas por trás da cortina de fumaça — e do gelo no copo — mora um comportamento perigoso, normalizado, socialmente aceito e, muitas vezes, celebrado. O que parece apenas uma noite exagerada pode ser, na verdade, o início ou a manutenção de um ciclo silencioso de sofrimento. A aparência de excepcionalidade costuma enganar: a festa termina, as fotos ficam, as histórias são contadas em tom de humor, mas o corpo, a mente e as relações registram aquilo de outro modo. É nesse contraste entre a leveza social do episódio e a gravidade íntima de suas consequências que o binge drinking se instala como um problema contemporâneo relevante, persistente e, por isso mesmo, urgente de ser pensado.

Este texto é um convite para quem já se viu nesse lugar — ou ainda está nele. Para quem deseja compreender, nomear, e talvez começar a sair. Porque o binge drinking não é apenas “beber demais”. Ele é, muitas vezes, o retrato de uma cultura que romantiza a autodestruição quando ela vem embalada em música alta, risos, celebrações e uma falsa ideia de liberdade.

 

O QUE É BINGE DRINKING, AFINAL?

Em termos clínicos, o binge drinking — ou consumo episódico excessivo — é definido como a ingestão de cinco ou mais doses para homens e quatro ou mais para mulheres em cerca de duas horas. Mas, para além da definição técnica, é importante traduzir isso para a vida concreta. Trata-se daquela noite que deveria terminar em relaxamento e termina em apagão. Da festa que começa como celebração e termina em esquecimento. Da conversa que você não lembra, da mensagem enviada no impulso, do arrependimento que chega antes mesmo do café da manhã.

O ponto central não é a frequência, mas a intensidade. Essa distinção é decisiva e ainda muito mal compreendida. Existe uma ideia bastante difundida de que o problema com o álcool só existe quando o consumo é diário, visível e associado a uma deterioração evidente da vida. O binge drinking desmonta essa ilusão. É perfeitamente possível beber apenas aos finais de semana e, ainda assim, estar dentro de um padrão de alto risco, tanto físico quanto psíquico. A intensidade machuca, e muitas vezes machuca justamente porque vem mascarada de evento isolado.

Os dados reforçam isso. No Brasil, o consumo abusivo de álcool segue como um problema expressivo. Houve aumento importante da prevalência nas capitais brasileiras, passando de 15,7% para 20,8% entre 2006 e 2023. Esse crescimento não pode ser tratado como um detalhe estatístico: ele revela que não estamos diante de um comportamento marginal ou restrito a grupos específicos, mas de um padrão persistente na vida social brasileira.

Mais do que isso, o binge drinking carrega riscos imediatos que muitas vezes superam a percepção que as pessoas têm dele. Em uma única noite, aumentam significativamente as chances de intoxicação aguda, apagões, acidentes automobilísticos, quedas, violência, comportamentos impulsivos e até coma alcoólico. É por isso que, embora não seja um consumo diário, ele não pode ser tratado como algo “menos grave” por definição.

 

É TÃO PERIGOSO QUANTO QUEM BEBE TODO DIA?

Essa é uma pergunta importante — e frequentemente mal respondida.

Os riscos não são idênticos, mas isso não significa que um seja necessariamente “menos sério” que o outro.

Quem bebe todos os dias tende a estar mais exposto a danos cumulativos e crônicos: doenças hepáticas, hipertensão, alterações cardiovasculares, maior risco de câncer, comprometimento cognitivo progressivo e dependência estabelecida. É o desgaste lento, contínuo e muitas vezes silencioso do organismo.

Já o binge drinking carrega um outro tipo de risco: o dano agudo.

O risco imediato.

A perda súbita de controle.

Em muitos casos, o perigo daquela noite pode ser até maior do ponto de vista emergencial. Uma única noite de consumo excessivo pode resultar em apagão, intoxicação grave, acidentes, brigas, relações sexuais sem proteção, exposição social intensa e colapsos emocionais importantes no dia seguinte.

O erro está em pensar que, por não ser diário, ele é “mais leve”.

Não é.

São padrões de risco diferentes.

E o binge repetido pode, sim, evoluir para dependência ao longo do tempo.

 

O MITO DE QUE ISSO É “COISA DE JOVEM”

Durante muito tempo, o binge drinking foi quase exclusivamente associado à juventude. A imagem é conhecida: festas universitárias, baladas, formaturas, viagens, finais de semana intensos. De fato, os jovens continuam sendo um grupo importante dentro desse padrão, especialmente entre 18 e 24 anos, e os dados seguem mostrando prevalência significativa nessa faixa etária.

Mas essa imagem, sozinha, já não dá conta da realidade.

Hoje, o binge drinking não é apenas um comportamento juvenil. Ele envelheceu junto com as gerações. Os dados mais recentes mostram crescimento relevante nas faixas de 35 a 44 anos e 55 a 64 anos. Isso muda radicalmente a leitura do problema. Não estamos falando apenas da impulsividade associada à juventude, mas também de adultos plenamente inseridos na vida profissional, familiar e social. Pessoas entre 35 e 55 anos, muitas vezes com carreira consolidada, responsabilidades familiares e uma rotina marcada por altos níveis de exigência.

Nessa fase da vida, o binge drinking muda de cenário e de narrativa. Sai da festa universitária e entra no happy hour corporativo. Sai da balada e vai para o jantar entre amigos. Sai do improviso juvenil e passa a fazer parte do ritual da vida adulta. A bebida deixa de ser percebida como rebeldia e passa a ser legitimada como merecimento.

“Depois da semana que tive, eu mereço.”

“É só uma forma de relaxar.”

“Todo mundo faz isso.”

É justamente nesse momento que ele se torna ainda mais invisível.

Porque o excesso passa a se esconder atrás da funcionalidade.

 

O CORPO SENTE, A MENTE ESCONDE

Na superfície, parece tudo sob controle. Você sorri, conversa, trabalha, mantém compromissos e segue funcionando. Mas o organismo vive outra história.

Durante um episódio de binge drinking, há um pico abrupto de dopamina, neurotransmissor associado ao prazer, à recompensa e à motivação. O cérebro interpreta isso como alívio, euforia e sensação de escape. O problema é que essa subida é artificial, intensa e curta. O que vem depois é a queda.

Ansiedade, irritabilidade, tristeza, insônia, culpa e a conhecida ressaca moral são parte desse movimento neuroquímico. O sofrimento do dia seguinte não é apenas psíquico; ele tem base fisiológica e cerebral. E é justamente essa queda que alimenta o ciclo, porque o cérebro começa a associar o sofrimento subsequente à necessidade de novo consumo.

Forma-se um circuito devastador: estresse, bebida, alívio, queda, culpa, nova vontade de beber.

O problema, muitas vezes, não é a festa.

É o padrão que se instala.

 

O QUE ESTÁ SENDO ANESTESIADO?

Essa talvez seja a pergunta mais importante de todo o artigo.

Quase nunca se bebe apenas pelo sabor ou pelo prazer da bebida. O álcool entra como função emocional e existencial. Ele passa a servir para algo. Aliviar, silenciar, esquecer, pertencer, suportar.

Muita gente não bebe pelo prazer da bebida.

Bebe pelo alívio que acredita que ela oferece.

E essa diferença é decisiva.

Porque, quando a função do álcool deixa de ser recreativa e passa a ser regulatória, o risco aumenta consideravelmente. O binge drinking, nesse sentido, é menos sobre festa e mais sobre fuga.

Fuga do cansaço.

Da ansiedade.

Da solidão.

Do trauma.

Da sensação de inadequação.

Da dor que ainda não encontrou linguagem.

O álcool, então, deixa de ser apenas substância e passa a ocupar o lugar de resposta automática diante do sofrimento.

 

O QUE EXISTE DEPOIS DO BINGE DRINKING?

Existe presença.

Existe memória.

Existe manhã.

Existe dignidade.

Existe a possibilidade de viver sem precisar desaparecer de si.

Porque, no fundo, a sobriedade não é apenas ausência de álcool. É presença radical na própria vida.

É acordar e lembrar.

É sentir sem precisar anestesiar.

É descobrir que a liberdade não está em poder beber até perder o controle.

A liberdade está em não precisar disso para suportar a própria existência.


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

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