Às vezes a gente sente fome de algo doce, fome de alguma coisa gostosa, fome de algo que não se sabe exatamente o quê. Abre a geladeira, fecha a geladeira, olha o armário, belisca qualquer coisa e continua com a mesma sensação estranha: não era aquilo.
Com a sede acontece o mesmo.
Existe uma sede que não é exatamente sede. Uma sede que nenhuma água do mundo consegue saciar. Ela aparece como inquietação, como falta de lugar dentro do próprio corpo, como vontade de sair de si sem saber para onde ir. E, para muita gente, o álcool entra aí. Não apenas como bebida, mas como resposta rápida para uma pergunta que a pessoa ainda nem conseguiu formular.
No começo, a bebida gelada também “descia redondo” para mim. Havia aquela sensação de: “nossa, era isso que eu precisava”. O corpo relaxava, a cabeça desacelerava, o mundo parecia menos áspero, as pessoas menos ameaçadoras, a vida menos pesada. Por alguns instantes, a sede parecia resolvida.
Até não resolver mais.
Porque chega um ponto em que o álcool já não entrega o que prometia. Ou entrega por menos tempo. Ou cobra caro demais. A bebida que antes parecia abrir portas começa a fechar possibilidades. O que parecia alívio vira repetição. O que parecia escolha começa a ganhar a forma de necessidade. E aquela sede inicial, que podia ser de descanso, de afeto, de coragem, de silêncio, de sentido ou de pertencimento, continua lá. Só que agora mais funda.
E então vem a pergunta: o que fazer quando se tira o álcool e sobra a sede?
No meu processo de abstinência, nessa tentativa de compreender o que me atravessava, eu fiz um movimento que pode parecer contraintuitivo: em vez de preencher tudo depressa, comecei a esvaziar. Armários, gavetas, objetos, compromissos, ruídos, expectativas, certas versões de mim mesma que eu já não sustentava. Para alguns, isso poderia parecer perda. Para mim, foi um caminho natural de retorno. Não porque o vazio fosse confortável, mas porque, pela primeira vez, eu queria escutar o que ele tinha a dizer.
O VAZIO NÃO É APENAS FALTA
Quando o álcool ocupa um lugar central na vida, ele não ocupa apenas horários. Ele ocupa funções. Entra no fim do dia como recompensa. Entra na festa como passaporte social. Entra na tristeza como anestesia. Entra na ansiedade como freio. Entra no corpo como ritual. Entra na identidade como personagem.
Por isso, quando ele sai, não fica apenas um espaço livre. Fica um buraco simbólico.
A pessoa não perde somente a bebida. Perde também uma forma conhecida de regular emoções, de se relacionar, de suportar o próprio desconforto, de pertencer a certos grupos, de habitar determinadas versões de si. A abstinência não retira apenas o álcool do copo. Ela retira uma linguagem inteira através da qual a pessoa aprendeu a lidar com a vida.
É por isso que o vazio assusta tanto.
Não é só vontade de beber. É não saber o que fazer com a própria noite. É não reconhecer a própria presença em uma festa. É não saber conversar sem aquela coragem emprestada. É sentar-se no sofá e perceber que o “silêncio” da casa sempre esteve lá, mas antes era abafado pelo copo. É descobrir que algumas relações talvez fossem sustentadas mais pela embriaguez compartilhada do que pela intimidade real.
Esse vazio não é frescura. Ele faz parte da experiência de quem retirou uma substância que, durante muito tempo, funcionou como mediadora entre a pessoa e o mundo.
Mas isso não significa que o vazio seja inimigo.
O vazio pode ser um campo fértil disfarçado de deserto. Só que, para isso, ele precisa deixar de ser tratado como defeito a ser corrigido imediatamente. Na contemporaneidade, quase tudo nos ensina a preencher. Preencher agenda, silêncio, corpo, desejo, feed, currículo, identidade. Parece que existir é estar sempre adicionando alguma coisa: mais estímulo, mais produto, mais meta, mais opinião, mais distração.
A experiência da sobriedade, nesse sentido, é quase uma afronta ao nosso tempo. Ela obriga a pessoa a encontrar uma forma de existir sem recorrer imediatamente ao excesso. E isso é difícil porque o excesso virou uma espécie de idioma social. Bebemos demais, trabalhamos demais, compramos demais, comemos demais, rolamos a tela demais, pensamos demais, performamos demais. O álcool é uma das faces desse modo contemporâneo de tentar resolver a falta pela saturação.
Só que a falta não se resolve apenas enchendo.
Às vezes, ela precisa ser escutada.
A SEDE COMO MENSAGEM
A sede que leva ao álcool muitas vezes começa em um lugar difícil de nomear. Pode ser uma sede de pausa. De pertencimento. De coragem. De esquecimento. De ser outra pessoa por algumas horas. De desligar a consciência. De não sentir tanto. Ou de finalmente sentir alguma coisa.
Por isso, não basta olhar para a bebida como um objeto isolado. É preciso perguntar o que ela representava na experiência concreta daquela pessoa. O que o álcool prometia? Que mundo ele abria? Que mundo ele fechava? Que tipo de “eu” ele fabricava enquanto agia?
Porque o álcool não é vivido do mesmo modo por todo mundo. Para alguns, é só bebida. Para outros, é senha de entrada. É armadura. É colo químico. É autorização para falar. É interrupção da dor. É uma forma de suportar a própria biografia.
Dizer simplesmente “pare de beber” pode ser necessário, mas é existencialmente insuficiente. Parar é fundamental, mas não encerra a pergunta. O trabalho fundamental é entender que função o álcool desempenhava na arquitetura da própria vida.
A sede, então, precisa ser investigada. Não para ser obedecida cegamente, mas para ser compreendida. Porque toda fissura carrega uma informação. Ela diz algo sobre o que foi condicionado no cérebro, mas também sobre o que foi ferido na história. Fala de circuito de recompensa, mas também de narrativa. Fala de dopamina, mas também de desamparo. Fala de hábito, mas também de sentido.
Reduzir o alcoolismo apenas à química empobrece a experiência. Reduzir apenas à história pessoal também. O alcoolismo atravessa corpo, desejo, memória, contexto social, comportamento, cultura e identidade. Ele é uma doença crônica e multifatorial, sim. Mas também revela uma relação adoecida com o alívio, com o excesso, com a falta e com a própria forma de existir.
Sim, acho uma boa decisão. “AUTENTICIDADE NÃO É IMPULSO” tem força conceitual, mas neste ensaio ela abre uma nova frente filosófica quando o texto já está caminhando para a resolução. Tirar essa parte deixa o ensaio mais direto, menos explicativo e mais coerente com a pergunta central: o que essa sede está pedindo?
QUANDO A FUGA MUDA DE ENDEREÇO
Existe um risco silencioso na sobriedade: continuar fugindo, só que agora por caminhos mais aceitos socialmente.
A bebida sai, mas permanece a urgência. Sai o copo, mas fica a necessidade de não sentir. Sai o álcool, mas entra uma busca desesperada por controle, desempenho, aprovação, pureza, disciplina ou qualquer outra forma de provar que agora a vida está “no lugar”.
Só que a vida não vira lugar de uma hora para outra.
Algumas pessoas param de beber e se cobram uma reconstrução imediata. Querem acordar cedo, meditar, treinar, trabalhar melhor, comer perfeitamente, responder todo mundo, curar todos os traumas, reorganizar a casa, salvar as relações, produzir uma nova identidade e ainda parecer bem no processo. Por fora, isso pode parecer recuperação. Por dentro, às vezes é apenas a mesma lógica do excesso usando roupas mais admiráveis.
Existe uma sobriedade que ainda é compulsiva.
Ela não bebe, mas se vigia com violência. Não bebe, mas transforma qualquer erro em sentença. Não bebe, mas precisa performar estabilidade o tempo inteiro. Não bebe, mas continua sem saber descansar dentro da própria vida.
A questão não é condenar novos hábitos. Rotina ajuda. Terapia ajuda. Grupos ajudam. Caminhar ajuda. Dormir melhor ajuda. Ter um ritual de cuidado ajuda. O problema começa quando tudo isso vira uma nova forma de escapar do encontro principal: aquele com a própria verdade.
Porque trocar uma fuga por outra pode manter a pessoa ocupada, mas nem sempre a aproxima de si.
A pergunta central não é apenas: “com o que vou substituir a bebida?”. Essa pergunta pode ser útil no começo, principalmente quando é preciso atravessar fissuras, reorganizar horários e proteger a sobriedade. Mas ela não basta. Em algum momento, a pergunta precisa amadurecer: “o que eu ainda não sei sustentar sem fugir?”
Essa mudança é importante.
Porque a recuperação não é só construir uma vida sem álcool. É construir uma vida em que o álcool deixe de parecer necessário para suportar existir.
COMO ESCUTAR A SEDE SEM OBEDECÊ-LA
Escutar a sede não significa obedecer a sede.
Essa diferença é importante, porque quem já viveu a dependência sabe como o desejo pode mentir com voz convincente. A vontade aparece como urgência, como verdade absoluta, como se beber fosse a única saída possível para aquele desconforto. Mas nem toda vontade precisa virar ação. Nem toda sede precisa virar copo.
Em alguns momentos, a resposta precisa ser simples e concreta: sair de perto do risco, ligar para alguém, comer alguma coisa, tomar banho, ir dormir, pedir ajuda, não negociar com a fissura. Nem tudo precisa virar reflexão no auge da tempestade. Às vezes, primeiro a gente se protege. Depois entende.
Mas, quando a urgência passa, vale voltar à pergunta.
O que estava acontecendo antes da vontade aparecer? Era cansaço? Raiva? Solidão? Vergonha? Tédio? Sensação de inadequação? Uma lembrança antiga? Um encontro difícil? Um domingo vazio? Uma alegria que você não sabia comemorar sem beber?
A vontade de beber raramente aparece do nada. Ela tem cenário. Tem horário. Tem clima. Tem memória. Tem corpo. Às vezes, não é apenas o copo que chama. É o caminho de volta do trabalho, o mercado da esquina, a solidão depois das oito, o grupo em que todo encontro termina igual, a música que acende uma versão antiga de você.
Por isso, mapear a sede é um gesto de cuidado. Não para controlar tudo, mas para conhecer o próprio terreno. Quem não conhece seus gatilhos acaba chamando de surpresa aquilo que já tinha deixado rastros.
Também é preciso rever vínculos. Algumas relações sobrevivem à sobriedade. Outras não. E isso dói. Mas a dor de perder certas companhias pode ser menor do que o custo de continuar pertencendo a lugares onde sua destruição era tratada como entretenimento.
Criar rituais também importa. O álcool ocupava espaço no corpo e no tempo. Por isso, a sobriedade precisa ganhar forma concreta. Não basta dizer “não vou beber”. É preciso perguntar: o que eu faço com essa sexta-feira? Com essa ansiedade? Com essa comemoração? Com essa tristeza? Com esse corpo que antes corria para o copo?
Pode ser uma caminhada. Uma xícara de café tomada com presença. Uma comida preparada sem pressa. Uma reunião de apoio. Uma página escrita. Uma terapia. Uma casa menos caótica. Uma conversa honesta. Um banho antes de responder impulsivamente. Um limite colocado antes do colapso.
Nada disso é pequeno.
A vida sem álcool se reconstrói nesses gestos que não viram manchete. Acordar sem ressaca. Lembrar do que disse. Cumprir uma promessa. Ir embora antes de se trair. Pedir desculpas sem usar a culpa como desculpa para beber de novo. Descobrir que o tédio não mata. Que a tristeza passa. Que a vontade sobe, grita, ameaça, mas também desce.
Sobriedade não é virar outra pessoa da noite para o dia. É parar de se abandonar justamente nos momentos em que antes você desaparecia por conta do álcool.
O QUE ESSA SEDE ESTÁ PEDINDO?
Quando a sede não é de bebida, beber nunca resolve de verdade. Pode calar por algumas horas. Pode distrair. Pode maquiar. Pode produzir a ilusão de que tudo ficou mais leve. Mas aquilo que não foi escutado retorna. Às vezes mais alto. Às vezes mais caro.
Por isso, abandonar o álcool não é apenas retirar uma substância. É aceitar o risco de ouvir a própria vida sem o volume da anestesia. É olhar para a sede e perguntar, com menos pressa e mais verdade: o que você está tentando me dizer?
Essa sede pode estar pedindo descanso. Pode estar pedindo luto. Pode estar pedindo mudança. Pode estar pedindo limites. Pode estar pedindo companhia. Pode estar pedindo tratamento. Pode estar pedindo uma vida menos performática. Pode estar pedindo menos excesso e mais presença. Pode estar pedindo que você pare de transformar toda dor em emergência e toda falta em fuga.
A sobriedade não transforma o vazio em resposta pronta. Ela transforma o vazio em pergunta habitável.
E isso já é muito.
Então, diante dessa sede que nenhuma bebida mata, talvez a pergunta não seja: “com o que eu vou preencher esse vazio?”.
A pergunta mais honesta talvez seja: que parte de mim está finalmente pedindo para ser ouvida?
Rafa Pessato
Embriague-se de si












