Home / DESPERTAR / 4 “BENEFÍCIOS” DO ÁLCOOL E SEU PREÇO: entenda por que é tão difícil parar de beber e o que fazer de verdade

4 “BENEFÍCIOS” DO ÁLCOOL E SEU PREÇO: entenda por que é tão difícil parar de beber e o que fazer de verdade

Sim. O álcool traz “benefícios”, e eu digo isso porque senti na pele. E senti também o peso de ter de pagar o alto preço pelas reuniões sociais que consegui frequentar, pelas conversas e sorrisos sustentados pelo copo, pelas noites em que eu parecia mais leve, mais solta, mais possível. O álcool entrega alívio, coragem, prazer e anestesia. E entrega rápido. Mas não entrega de graça. Os efeitos colaterais do alcoolismo são muito mais do que uma simples ressaca.

A ressaca é quase a parte visível do problema. É o corpo reclamando no dia seguinte, a cabeça pesada, a boca seca, o enjoo, a promessa repetida de que “agora chega”. Mas existe outra ressaca, mais silenciosa e mais profunda. A ressaca moral. A ressaca emocional. A ressaca existencial. Aquela sensação de ter voltado para si e encontrado a casa revirada por dentro. Às vezes, nada de muito grave aconteceu do lado de fora. Mas, por dentro, algo se desalinhou de novo.

Por isso, falar dos “benefícios” do álcool não é fazer defesa da bebida. É tentar entender por que ela prende tanto. Porque, se fosse apenas sofrimento desde o primeiro gole, talvez ninguém voltasse. O problema é que o álcool promete alguma melhora. E, em muitos momentos, ele realmente parece melhorar alguma coisa. Diminui a ansiedade. Afrouxa a vergonha. Dá uma sensação de prazer. Amortece a dor. O ponto é que essa melhora tem prazo curto e custo alto.

Benefício é uma palavra mais complexa do que parece. De modo geral, pensamos em benefício como algo que melhora uma condição, favorece o bem-estar, reduz um desconforto ou traz alguma vantagem. Mas somos sujeitos singulares. O que para uma pessoa é apenas um detalhe, para outra pode ser uma espécie de salvação provisória. O que para alguém é diversão, para outro pode virar dependência. O que para alguns é brinde, para outros é buraco.

Então, quando falamos dos benefícios do álcool para o alcoolista, não estamos dizendo que a bebida faz bem. Estamos falando da percepção de benefício. E essa percepção importa muito. Porque ninguém se apega a algo apenas pelo dano que aquilo causa. A pessoa se apega também ao que aquilo oferece, ao que promete, ao que parece resolver, ao que silencia por algumas horas.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o álcool é uma substância psicoativa, tóxica e com potencial de dependência. O National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism define o transtorno por uso de álcool como uma condição médica caracterizada pela dificuldade de parar ou controlar o consumo mesmo diante de prejuízos sociais, profissionais, emocionais ou físicos. Ou seja: não estamos falando de falta de caráter. Estamos falando de uma relação complexa entre corpo, cérebro, história, ambiente, desejo, sofrimento e repetição.

Isso não elimina a responsabilidade. Mas muda o modo como olhamos para ela. Responsabilidade não é humilhação. Não é apontar o dedo para si mesmo e dizer “eu sou um caso perdido”. Responsabilidade é conseguir dizer: “isso está ocupando um lugar grande demais na minha vida, e eu preciso olhar para esse lugar com honestidade”.

O álcool não entra na vida de todo mundo do mesmo modo. Para alguns, entra como comemoração. Para outros, como pertencimento. Para muitos, como alívio. E, para o alcoolista, com o tempo, ele deixa de ser uma escolha pontual e começa a virar uma espécie de sistema. Um jeito de lidar com o mundo. Um jeito de lidar com os outros. Um jeito de lidar consigo mesmo.

Por isso é tão difícil parar. Porque não se trata apenas de abandonar uma bebida. Trata-se de encarar tudo aquilo que a bebida vinha ajudando a esconder.

BENEFÍCIO 1: ALÍVIO EMOCIONAL IMEDIATO

Um dos primeiros benefícios percebidos do álcool é o alívio emocional. E eu entendo o perigo dessa frase, mas ela precisa ser dita com honestidade. Para muita gente, o álcool funciona como um botão de pausa. A ansiedade diminui. A tristeza perde força. A angústia fica menos aguda. A cabeça para de pensar tanto. O corpo relaxa. A pessoa respira como se, finalmente, tivesse conseguido sair de dentro de si por alguns instantes.

Quem nunca precisou beber para suportar uma emoção talvez não entenda isso. Pode olhar de fora e dizer: “mas por que a pessoa bebe se sabe que faz mal?”. Porque, naquele momento, ela não está pensando no mal de amanhã. Está tentando sobreviver ao incômodo de agora. Está tentando atravessar uma noite, uma festa, uma lembrança, uma solidão, uma crise, uma sensação de vazio que parece grande demais para caber no peito.

O álcool oferece esse alívio de forma rápida. E o que é rápido seduz. Principalmente quando a dor é antiga. Principalmente quando a pessoa já tentou pensar, rezar, dormir, conversar, ignorar, trabalhar demais, sorrir por educação, ocupar a agenda, fazer de conta que está tudo bem — e nada disso pareceu suficiente.

Mas o preço do alívio imediato é que ele não resolve a origem da dor. Ele apenas interrompe a percepção dela por algumas horas. A ansiedade não foi compreendida. A tristeza não foi acolhida. A angústia não foi escutada. Tudo foi apenas empurrado para depois. E o depois chega. Quase sempre chega com culpa, arrependimento, cansaço e uma dor ainda mais acumulada.

De acordo com estudos sobre automedicação com álcool, muitas pessoas usam a bebida para lidar com sintomas de ansiedade, depressão e sofrimento emocional. O problema é que esse mecanismo, embora pareça útil no curto prazo, pode aumentar o risco de dependência e piorar o próprio sofrimento que tentava aliviar. A pessoa bebe para acalmar a ansiedade, mas depois acorda mais ansiosa. Bebe para esquecer a culpa, mas cria novas culpas. Bebe para não sentir, mas vai ficando cada vez menos capaz de sentir sem beber.

É como se o álcool ensinasse o cérebro a escolher sempre o caminho mais curto. Sentiu desconforto? Bebe. Ficou triste? Bebe. Travou socialmente? Bebe. Teve raiva? Bebe. Está sozinho? Bebe. Está feliz? Bebe também. Com o tempo, qualquer emoção vira pretexto. Não só as ruins. As boas também. O álcool vai entrando em todos os cômodos da vida.

E quando a pessoa tenta parar, descobre que não sabe mais o que fazer com as próprias emoções. A tristeza parece insuportável. A ansiedade parece uma ameaça. O tédio parece um abismo. Uma simples sexta-feira sem bebida pode parecer uma punição.

Por isso, parar de beber não é apenas “ter força”. É reaprender a sentir. E reaprender a sentir, no início, pode ser desconfortável. A sobriedade devolve sensibilidade. E sensibilidade, para quem passou muito tempo anestesiado, pode parecer dor. Mas nem toda dor é destruição. Algumas dores são sinais. Algumas dores são mensagens atrasadas. Algumas dores são partes nossas tentando voltar para casa.

O alívio que o álcool dá é real, mas é incompleto. Ele tira o incêndio da vista, mas não apaga o fogo.

BENEFÍCIO 2: FACILIDADE SOCIAL

Outro benefício muito forte do álcool é a facilidade social. A pessoa bebe e, de repente, parece que o mundo fica menos ameaçador. A vergonha diminui. A conversa flui. O corpo parece menos duro. O olhar do outro pesa menos. A música fica mais convidativa. O silêncio incomoda menos. A pessoa se sente mais interessante, mais espontânea, mais corajosa, mais conectada.

Para quem sempre teve facilidade de socializar, isso pode parecer pequeno. Mas para quem entra em um ambiente e sente o corpo inteiro em estado de vigilância, isso pode parecer enorme. Existem pessoas que não chegam em uma festa; elas atravessam uma prova. Cada cumprimento parece um teste. Cada roda de conversa parece um território onde é preciso saber entrar, falar, rir, medir a presença, não parecer demais, não parecer de menos.

O álcool, então, surge como uma autorização. Como se dissesse: “agora você pode ser”. E isso é muito perigoso, porque ninguém deveria precisar alterar a consciência para sentir que tem o direito de existir perto dos outros.

Segundo pesquisas sobre ansiedade social e uso de álcool, algumas pessoas recorrem à bebida para reduzir o medo de julgamento e facilitar interações sociais. O álcool pode funcionar como uma automedicação social: não cura a insegurança, mas a abafa. Não constrói pertencimento, mas simula. Não ensina a pessoa a ocupar o mundo, mas empresta uma versão dela que parece mais aceitável.

O problema é que essa versão começa a cobrar aluguel. Aos poucos, a pessoa passa a acreditar que só é interessante quando bebe. Que só conversa bem quando bebe. Que só dança, flerta, ri, encara, brinca, se aproxima, se permite, quando bebe. A sobriedade, então, começa a parecer uma versão empobrecida de si.

Talvez uma das dores mais silenciosas do alcoolismo seja essa: o medo de descobrir quem você é sem o álcool. Não apenas no espelho do banheiro, no dia seguinte. Mas diante dos outros. Quem sou eu sem a coragem do copo? Quem sou eu sem a fala solta? Quem sou eu sem a desculpa do “bebi demais”? Quem sou eu quando preciso estar presente de verdade?

O álcool pode criar a impressão de conexão, mas nem toda conexão é vínculo. Às vezes, é só uma intimidade acelerada. Uma conversa intensa demais para quem não se conhece. Uma amizade de balcão. Uma risada que depende do próximo gole. Uma proximidade que desaparece quando a manhã chega.

Relações verdadeiras precisam de presença. Precisam de memória. Precisam de responsabilidade. Precisam de continuidade. Não precisam ser perfeitas, mas precisam suportar a verdade. E a verdade é difícil quando a pessoa está sempre se encontrando com os outros por meio de uma versão alterada de si.

Na sobriedade, reconstruir a vida social pode ser estranho. Às vezes, você vai se sentir sem graça. Às vezes, vai querer ir embora cedo. Às vezes, vai perceber que certos lugares só faziam sentido porque você bebia. Às vezes, vai descobrir que algumas relações eram sustentadas menos por afeto e mais por intoxicação compartilhada.

Isso dói, mas também liberta. Porque talvez você não precise de tantas relações. Talvez precise de relações mais verdadeiras. Talvez não precise ser a pessoa mais divertida da mesa. Talvez precise apenas conseguir estar em uma mesa sem abandonar a si mesmo.

Facilidade social não é a mesma coisa que pertencimento. O álcool pode colocar você dentro de uma conversa, mas não necessariamente dentro de uma vida que faça sentido.

BENEFÍCIO 3: EUFORIA INSTANTÂNEA

O álcool também entrega prazer. E não é um prazer discreto. Ele pode vir como explosão, como alívio do peso, como uma luz acesa no meio de uma rotina apagada. Tudo parece mais leve. A música melhora. As pessoas parecem mais interessantes. O corpo ganha ritmo. A noite ganha promessa. Os problemas continuam existindo, mas ficam menos importantes por algumas horas.

E precisamos admitir: isso seduz. Principalmente quando a vida está pobre de prazer. Quando os dias são todos parecidos. Quando o trabalho consome. Quando o corpo está cansado. Quando a pessoa já não sabe o que deseja. Quando a vida parece feita apenas de boletos, obrigações, tarefas, cobranças, pequenas frustrações e um vazio difícil de explicar.

Nesse cenário, o álcool aparece como uma festa portátil. Uma forma rápida de sentir alguma coisa. Uma tentativa de devolver cor a uma vida que parece cinza.

De acordo com o NIAAA, o álcool atua em sistemas cerebrais relacionados à recompensa e ao prazer, além de influenciar circuitos ligados ao estresse e ao controle. Isso ajuda a explicar por que a bebida pode ser tão difícil de abandonar: ela não oferece apenas fuga da dor; ela oferece também uma promessa de recompensa. Não é só “quero parar de sofrer”. Muitas vezes é “quero sentir prazer agora”.

O problema é que a euforia instantânea costuma vir acompanhada de uma queda. Depois do alto, o baixo. Depois da expansão, o encolhimento. Depois da sensação de leveza, o peso. Depois do prazer, o vazio. E, em muitos casos, um vazio ainda maior do que antes.

Esse talvez seja um dos mecanismos mais cruéis do alcoolismo: ele vai ensinando a pessoa a desconfiar dos prazeres simples. Uma caminhada parece pouco. Um café parece pouco. Uma conversa tranquila parece pouco. Um almoço em família parece pouco. Um sábado em casa parece pouco. Tudo que não altera, que não explode, que não tira a pessoa de si, começa a parecer sem graça.

Mas uma vida saudável não é feita apenas de explosões. A vida real também é feita de coisas mais baixas, mais lentas, mais silenciosas. E isso não significa uma vida menor. Significa uma vida que não precisa se incendiar para ser sentida.

Na recuperação, o prazer demora a voltar. É importante dizer isso sem romantizar. No início, muita coisa parece sem brilho. A pessoa pode fazer atividade física e não sentir nada. Pode sair com amigos e sentir falta da bebida. Pode ver um filme, caminhar, cozinhar, tomar café, ler, cuidar da casa, e ainda assim pensar: “é só isso?”.

Sim, no começo pode parecer só isso. Porque o corpo está reaprendendo. O cérebro está saindo de uma lógica de pico. A vida está tentando recuperar a possibilidade de prazer sem destruição.

Não adianta dizer que água com gás substitui o álcool. Não substitui. Café não substitui. Chocolate não substitui. Academia não substitui. Livro não substitui. Nenhuma coisa isolada substitui o álcool porque o álcool ocupava funções demais. Ele era prêmio, fuga, companhia, coragem, descanso, castigo, celebração e anestesia. Não existe uma única coisa limpa que dê conta de ocupar todo esse lugar. E isso é bom. Porque o objetivo não é encontrar outra coisa que domine tudo. O objetivo é distribuir a vida novamente.

Prazer autêntico precisa ser reconstruído em muitas fontes. Uma rotina menos violenta. Um sono melhor. Relações menos falsas. Corpo mais cuidado. Pequenas alegrias. Criação. Movimento. Espiritualidade, para quem tem. Silêncio, para quem precisa. Conversas reais. Projetos possíveis. Descanso sem culpa. Um cotidiano que não seja apenas algo do qual você precisa fugir.

A euforia do álcool é rápida, intensa e cara. O prazer da sobriedade é mais lento, mas não exige que você se perca para senti-lo.

BENEFÍCIO 4: ANESTESIA DA DOR

Existe uma diferença entre aliviar uma dor e anestesiar uma existência. O álcool, muitas vezes, faz as duas coisas parecerem a mesma. Ele diminui a dor física, a dor emocional, a dor da memória, a dor do corpo cansado, a dor de uma história que ainda não foi elaborada. Ele cria uma névoa. E, dentro da névoa, algumas coisas param de doer por um tempo.

Para algumas pessoas, beber não começou como festa. Começou como sobrevivência. Começou como uma tentativa de dormir. De parar de pensar. De não lembrar. De não sentir o abandono, a rejeição, o trauma, a inadequação, a solidão, a raiva, o medo, o luto, a vergonha.

É muito fácil julgar a anestesia dos outros quando nunca se precisou dela. Mas há dores que chegam antes da linguagem. Há pessoas que não sabiam nomear o que sentiam. Não sabiam pedir ajuda. Não tinham espaço para desabar. Não foram ensinadas a reconhecer limites. Cresceram ouvindo que sentir era fraqueza, que falar era drama, que pedir socorro era exagero. Então beber apareceu como um jeito torto de continuar.

Mas o que anestesia também desconecta. E a desconexão talvez seja um dos preços mais altos do álcool. A pessoa deixa de saber o que sente. Deixa de perceber onde dói. Deixa de distinguir cansaço de tristeza, solidão de fissura, desejo de compulsão, prazer de fuga. Tudo vira vontade de beber. Tudo vira sede.

Segundo a OMS, o consumo de álcool está associado a uma ampla variedade de danos à saúde e à vida social, incluindo doenças, acidentes, violências e prejuízos emocionais. A Fiocruz também destaca que os danos do álcool não se limitam ao indivíduo, pois atravessam famílias, relações, trabalho, trânsito, comunidade e sistemas de saúde.

Mas, para quem está preso nessa relação, às vezes os dados não bastam. A pessoa já sabe que faz mal. Já viu os estragos. Já viveu os estragos. A questão mais difícil talvez seja outra: como viver sem anestesia?

Essa pergunta é dura. Porque a sobriedade não devolve apenas a lucidez. Ela devolve também o contato com aquilo que foi evitado. Por isso, no início, parar de beber pode parecer piorar. A pessoa sente mais. Chora mais. Fica irritada. Fica inquieta. Fica perdida. Começa a perceber o tamanho do cansaço, da culpa, da vergonha, das relações quebradas, dos anos gastos tentando não sentir.

Mas sentir mais não significa estar pior. Às vezes, significa estar voltando. Uma parte sua que ficou tempo demais coberta pela névoa começa a aparecer. E ela pode não aparecer bonita. Pode aparecer cansada, assustada, brava, desconfiada. Ainda assim, é você. E o reencontro consigo nem sempre começa com amor. Às vezes começa com estranhamento.

A cura real precisa de contato. Não um contato cruel, sem cuidado, como quem arranca curativo de qualquer jeito. Mas um contato possível, acompanhado, honesto. Algumas dores precisam de terapia. Outras precisam de tratamento médico. Outras precisam de grupo. Outras precisam de tempo. Outras precisam de uma mudança concreta de vida. Não dá para curar tudo com frase bonita. Algumas feridas exigem estrutura.

O álcool anestesia a dor, mas também suspende a cura. Porque aquilo que você não sente também não pode ser elaborado. Aquilo que você não olha continua governando por trás. Aquilo que você abafa não desaparece; apenas aprende a falar por outros meios.

NÃO É SÓ SUBSTITUIR

Quando alguém para de beber, é comum ouvir: “substitui por outra coisa”. E eu entendo a intenção. Algumas substituições ajudam, principalmente no começo. Ter uma bebida sem álcool à mão pode ajudar. Mudar trajetos pode ajudar. Fazer atividade física pode ajudar. Ocupar horários críticos pode ajudar. Criar rituais novos pode ajudar.

Mas é perigoso simplificar. Não se substitui o álcool como quem troca de roupa. Para o alcoolista, muitas vezes o álcool não era uma coisa só. Era alívio emocional, coragem social, prazer rápido e anestesia da dor. Era também identidade, hábito, ritual, recompensa, punição, fuga e companhia. Como uma única coisa poderia substituir tudo isso?

A pergunta mais importante não é apenas: “o que eu coloco no lugar da bebida?”. A pergunta é: “que lugar a bebida ocupava em mim?”.

Se o álcool ocupava o lugar do alívio, será preciso aprender outras formas de regular emoções. Se ocupava o lugar da coragem, será preciso reconstruir presença social aos poucos. Se ocupava o lugar do prazer, será preciso cultivar novas fontes de vida. Se ocupava o lugar da anestesia, será preciso cuidar da dor real, e não apenas cobri-la.

O Ministério da Saúde reconhece que a dependência de álcool envolve fatores biológicos, psicológicos e sociais. Por isso, o cuidado também precisa ser amplo. Em muitos casos, não basta decidir sozinho. É preciso buscar ajuda profissional, grupos de apoio, psicoterapia, acompanhamento médico, serviços como CAPS AD, rede de proteção, pessoas confiáveis. E é importante dizer: quem bebe muito e há muito tempo não deve interromper o consumo pesado sem orientação de saúde, porque a abstinência pode trazer riscos físicos importantes.

Pedir ajuda não diminui a reconstrução. Pelo contrário. Talvez seja um dos primeiros sinais de que a pessoa parou de confundir orgulho com força.

COMO COMEÇA A RECONSTRUÇÃO

A reconstrução começa quando a pessoa consegue olhar para si sem máscara. E isso pode ser difícil. Pode ser que, no início, você não se reconheça. Pode ser que encontre alguém cansado, irritado, envergonhado, confuso, sem saber muito bem do que gosta, do que sente, do que quer. Pode ser que você perceba que muita coisa na sua vida foi organizada em torno da bebida: amizades, finais de semana, recompensas, desculpas, afetos, rotas de fuga.

Mas olhar para isso não é se condenar. É parar de mentir para si.

Depois, começa o aprendizado de sentir sem anestesiar. Vai doer, mas passa. Essa frase parece simples, mas é uma revolução para quem sempre achou que toda dor precisava ser interrompida imediatamente. A ansiedade passa. A fissura passa. A tristeza muda de forma. O desejo de beber cresce, atinge um pico e diminui. Nenhuma emoção precisa virar ordem.

Também será preciso cultivar prazeres autênticos. E, no começo, pode ser necessário esforço. Nem tudo virá com encanto. Às vezes, você vai fazer o certo sem vontade nenhuma. Vai caminhar sem sentir prazer. Vai sair sóbrio e achar estranho. Vai dormir cedo e se sentir entediado. Vai tomar café e pensar que aquilo não chega nem perto. Tudo bem. Você não está tentando criar uma euforia artificial. Está tentando reconstruir uma vida.

As relações também precisam mudar. Não precisam ser muitas. Precisam ser mais verdadeiras. Gente que respeita sua sobriedade. Gente que não transforma seu limite em piada. Gente com quem você não precisa atuar o tempo todo. Talvez você perca algumas mesas. Talvez perca alguns convites. Talvez descubra que certos lugares não eram tão seus assim. Mas também pode encontrar uma forma de presença que não dependa da intoxicação.

E, por fim, é preciso ser inteiro, não perfeito. A sobriedade não transforma ninguém em santo. Você continuará tendo contradições, sombras, desejos, raivas, falhas, impaciências. Somos duais. A diferença é que, sóbrio, você pode responder pela própria vida com mais verdade. Pode reparar melhor. Pode escolher melhor. Pode perceber antes. Pode não entregar o volante da sua existência para a próxima dose.

O álcool promete atalhos. A vida real pede caminhos. E caminhos são mais lentos, mais exigentes, menos brilhantes. Mas eles têm uma vantagem: levam você para algum lugar. O atalho do álcool parece encurtar a dor, mas muitas vezes apenas prolonga a prisão.

Você é maior que o alívio rápido. Não porque é invencível, mas porque pode ser reconstruído. E reconstrução não é voltar a ser quem você era antes de tudo. Talvez essa pessoa nem exista mais. Reconstrução é parar de ser corroído pelo que prometia salvar. É juntar partes, rever rotas, sustentar pequenas escolhas, aprender a ficar consigo sem precisar fugir o tempo todo.

O álcool entrega rápido. A sobriedade devolve devagar. Mas o que ela devolve talvez seja justamente aquilo que o álcool foi levando aos poucos: presença, dignidade, memória, vínculo, verdade e a possibilidade de uma vida que não precise ser anestesiada para ser vivida.


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

Marcado: