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3 SINAIS DE QUE O ÁLCOOL ESTÁ ROUBANDO SUA ENERGIA

Existe uma forma de exaustão que não nasce do excesso de trabalho, nem da falta de férias, nem exatamente da dureza objetiva da vida. Ela nasce da necessidade contínua de anestesiar a própria experiência de existir. Aos poucos, o indivíduo já não bebe apenas para celebrar, socializar ou relaxar. Ele bebe para modular a própria consciência. Como quem ajusta manualmente o volume da realidade para conseguir suportá-la.

E talvez essa seja uma das características mais silenciosas do alcoolismo contemporâneo: ele raramente se apresenta, no início, como destruição explícita. Não chega quebrando portas. Não se anuncia como tragédia. Surge, muitas vezes, como gerenciamento emocional sofisticado. Um pequeno deslocamento químico entre o sujeito e o peso da própria subjetividade.

Byung-Chul Han escreveu que a sociedade contemporânea deixou de produzir sujeitos reprimidos para produzir sujeitos exaustos. Não somos mais controlados principalmente pela proibição, mas pela saturação: excesso de desempenho, excesso de estímulos, excesso de positividade, excesso de autoconsciência. O indivíduo contemporâneo não descansa nem quando para. Seu sistema nervoso continua funcionando em estado de vigília econômica, afetiva e simbólica. Até o lazer se tornou performático. Até o descanso precisa ser produtivo. Até a felicidade virou obrigação moral.

Talvez por isso o álcool tenha encontrado um lugar tão íntimo na vida contemporânea.

Ele oferece algo que poucas experiências oferecem hoje: interrupção.

Por algumas horas, a mente desacelera. A autocobrança diminui. O excesso de consciência afrouxa. O corpo parece voltar a caber dentro de si mesmo. O sujeito experimenta aquilo que Freud descrevia como redução de tensão psíquica — um breve afrouxamento das exigências internas que sustentam a vida civilizada.

Mas existe um preço biológico, neurológico e existencial nessa negociação.

Porque o álcool não sequestra apenas a saúde física. Ele corrói lentamente a energia vital do organismo — essa força invisível que sustenta concentração, tolerância emocional, clareza mental e capacidade de permanecer inteiro dentro da própria experiência subjetiva.

E talvez existam três sinais particularmente importantes desse roubo silencioso: o cansaço, a irritabilidade e a ansiedade.

Não como sintomas isolados.

Mas como linguagens do corpo.

O CANSAÇO: QUANDO O ORGANISMO PASSA A VIVER EM RECUPERAÇÃO

Existe algo profundamente simbólico no cansaço provocado pelo álcool: muitas pessoas acreditam que estão usando a bebida para descansar, quando na verdade estão impondo ao corpo uma tarefa metabólica gigantesca justamente durante o período em que ele deveria se restaurar.

O álcool é uma substância tóxica para o organismo. Isso não é moralismo; é fisiologia básica. O corpo não reconhece o etanol como nutriente essencial. Ao entrar na corrente sanguínea, ele imediatamente se torna prioridade metabólica. O fígado interrompe diversos outros processos para metabolizá-lo através de enzimas como álcool desidrogenase e aldeído desidrogenase. O problema é que esse processo produz acetaldeído, composto altamente inflamatório e tóxico, associado a estresse oxidativo celular, alterações imunológicas e desgaste sistêmico.

Em outras palavras: enquanto a pessoa acredita estar “relaxando”, o organismo inteiro está trabalhando.

Há algo quase trágico nisso.

O indivíduo deita para descansar, mas o corpo entra em estado de processamento químico intensivo. A frequência cardíaca aumenta. O sistema nervoso sofre alterações compensatórias. A arquitetura do sono se fragmenta. Estudos publicados no Alcoholism: Clinical and Experimental Research demonstram que o álcool reduz significativamente a qualidade do sono REM e interfere nos ciclos restauradores profundos responsáveis pela consolidação de memória, regulação emocional e recuperação neurofisiológica.

O sujeito apaga.

Mas não repousa.

E talvez por isso exista esse tipo tão específico de fadiga entre alcoolistas funcionais: uma sensação de desgaste que não melhora completamente nem após dormir, nem após fins de semana, nem após períodos de pausa. Como se houvesse sempre um débito energético acontecendo em segundo plano.

Porque há.

O organismo passa a viver parcialmente ocupado em reparar danos bioquímicos, restaurar equilíbrio neuroquímico e compensar processos inflamatórios recorrentes. O álcool produz uma espécie de dívida fisiológica contínua.

E aqui talvez exista uma dimensão existencial importante.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han descreve o sujeito contemporâneo como alguém que explora a si mesmo acreditando estar exercendo liberdade. Talvez o alcoolismo carregue algo semelhante: o indivíduo consome a substância buscando alívio para o esgotamento produzido pela própria vida contemporânea, sem perceber que está aprofundando biologicamente o estado de fadiga que deseja aliviar.

A bebida surge como repouso simbólico.

Mas fisiologicamente transforma o corpo em trabalho.

A IRRITABILIDADE: QUANDO O MUNDO PERDE O AMORTECIMENTO EMOCIONAL

A irritabilidade associada ao álcool costuma ser mal compreendida por que raramente aparece apenas como agressividade explícita. Em muitos casos ela se manifesta como redução da tolerância subjetiva à existência cotidiana.

O indivíduo passa a se sentir excessivamente atravessado pelo mundo.

Barulhos parecem maiores.

Frustrações parecem mais invasivas.

Pequenas exigências ganham dimensão emocional desproporcional.

Há uma fragilidade regulatória acontecendo.

Do ponto de vista neurocientífico, isso possui bases bastante sólidas. O consumo recorrente de álcool altera sistemas ligados à modulação emocional. Com o tempo, o cérebro passa a operar com menor capacidade de estabilidade afetiva. Além disso, estudos mostram associação entre uso crônico de álcool e processos neuroinflamatórios capazes de afetar diretamente circuitos relacionados ao humor, impulsividade e processamento emocional.

Mas talvez a dimensão mais profunda da irritabilidade seja outra.

O psicanalista Donald Winnicott dizia que uma das funções fundamentais da maturidade emocional é a capacidade de suportar a realidade sem destruí-la nem destruir a si mesmo. Existe uma elasticidade psíquica necessária para conviver com a imperfeição do mundo, com a demora das coisas, com a incompletude humana.

O álcool interfere justamente nessa elasticidade.

Não apenas pela ação química imediata, mas porque ele frequentemente se transforma em regulador artificial de desconforto emocional. Aos poucos, o sujeito desaprende microfrustrações. Desaprende o silêncio interno. Desaprende certas formas de sustentação psíquica da própria angústia cotidiana.

E quando a substância sai de cena, o mundo retorna sem amortecimento.

Talvez por isso algumas pessoas descrevam uma sensação difícil de explicar: não exatamente tristeza, mas uma espécie de hostilidade difusa em relação à vida. Como se tudo exigisse energia emocional demais.

Freud, em O Mal-Estar na Civilização, já descrevia a dificuldade humana em suportar a tensão permanente de existir em sociedade. Para ele, o sofrimento psíquico nasce justamente do conflito inevitável entre desejo, realidade e limites impostos pela vida coletiva.

O álcool oferece uma suspensão temporária desse conflito.

Mas a suspensão tem efeito rebote.

Porque o aparelho psíquico não fortalece aquilo que terceiriza quimicamente.

E talvez exista algo particularmente cruel na irritabilidade alcoólica: ela frequentemente faz o indivíduo acreditar que o problema está inteiramente no mundo externo.

Nas pessoas.

Na rotina.

Nos relacionamentos.

Na lentidão da vida.

Sem perceber que seu sistema nervoso perdeu parte da capacidade de metabolizar emocionalmente a experiência humana ordinária.

A ANSIEDADE: QUANDO O ALÍVIO VIRA MECANISMO DE MANUTENÇÃO DO SOFRIMENTO

Talvez uma das relações mais complexas no alcoolismo contemporâneo seja a relação entre álcool e ansiedade. Porque em muitos casos o álcool não cria inicialmente a ansiedade — ele é utilizado justamente para administrá-la.

E isso muda completamente a compreensão do problema.

Existe forte associação entre transtornos de ansiedade e uso problemático de álcool. Estudos epidemiológicos mostram altas taxas de comorbidade entre alcoolismo, transtorno de ansiedade generalizada, ansiedade social, transtorno do pânico e sintomas depressivos. Muitas pessoas começam a beber não para buscar euforia, mas para reduzir hiperconsciência, insegurança, angústia antecipatória e sofrimento psíquico.

O álcool funciona, inicialmente, porque produz redução aguda da atividade do sistema nervoso central. Há diminuição subjetiva da tensão, da vigilância interna e da autoconsciência. Por algumas horas, o indivíduo experimenta algo próximo de descanso psíquico.

E talvez seja justamente isso que torna a relação tão perigosa.

Porque o cérebro aprende.

Aprende rapidamente que existe uma substância capaz de interromper momentaneamente a dor emocional. O problema é que essa interrupção altera mecanismos regulatórios fundamentais. Após o efeito depressor inicial, ocorre hiperativação compensatória do sistema nervoso. A atividade glutamatérgica aumenta. O cortisol se eleva. O organismo entra em estado de rebote neurofisiológico.

O resultado pode aparecer como inquietação, taquicardia, sensação de ameaça difusa, ruminação mental, angústia sem objeto claro e ansiedade intensa no dia seguinte.

Mas existe ainda outra camada.

A filosofia existencialista sempre compreendeu a ansiedade não apenas como patologia, mas como condição humana. Kierkegaard descrevia a angústia como “a vertigem da liberdade”. Heidegger via na ansiedade uma experiência radical de confronto com a própria existência. Não se trata apenas de doença. Trata-se também da dificuldade humana de sustentar consciência, finitude, responsabilidade e vazio.

Talvez por isso tantas pessoas tentem anestesiar a ansiedade contemporânea através do álcool: porque o excesso de consciência pode ser insuportavelmente cansativo.

Só que existe um paradoxo devastador nisso.

A substância usada para aliviar a ansiedade existencial frequentemente produz ansiedade neuroquímica adicional.

O sujeito passa então a viver aprisionado entre duas dores:

  • a angústia humana que já existia;
  • e a ansiedade fisiológica amplificada pelo álcool.

E muitas vezes já não consegue distinguir uma da outra.

O ROUBO SILENCIOSO DA VITALIDADE

Talvez o aspecto mais perturbador do alcoolismo funcional seja justamente sua discrição. O indivíduo continua trabalhando, conversando, pagando contas, mantendo relações e cumprindo responsabilidades enquanto sua energia vital vai sendo lentamente drenada.

Não necessariamente em grandes colapsos.

Mas em pequenas erosões sucessivas da presença.

O cansaço constante.

A irritabilidade crescente.

A ansiedade difusa.

A perda de clareza.

A dificuldade de repousar dentro de si mesmo.

E talvez exista algo profundamente contemporâneo nisso tudo.

Porque vivemos numa cultura que normalizou estados permanentes de exaustão emocional. Quase ninguém pergunta de onde vem tanto desgaste psíquico coletivo. Apenas aprendemos a administrá-lo quimicamente: álcool, estímulo, dopamina rápida, distração, excesso de consumo.

Mas o corpo fala.

O sistema nervoso fala.

A subjetividade fala.

Às vezes através de sintomas que parecem banais demais para serem escutados.

Talvez recuperar-se comece justamente na percepção de não estar apenas cansado da vida. Estar cansado da forma como vem tentando sobreviver a ela.


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

 

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