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PARAR DE BEBER É, ANTES DE TUDO, APRENDER A OLHAR PARA A VERGONHA SEM FUGIR

“A vergonha é o medo de não sermos dignos de amor e pertencimento.” (Brené Brown)

NÃO É O ÁLCOOL QUE DÓI PRIMEIRO

Muita gente imagina que o sofrimento começa quando a bebida sai do controle. Como se o problema estivesse no excesso em si. Como se o álcool tivesse criado a ferida.

Mas, para muita gente, a ordem é outra.

Primeiro veio a tensão.

Depois o esforço para suportá-la.

Só então veio a bebida.

É por isso que reduzir a dependência a um problema de comportamento costuma empobrecer o fenômeno. O álcool, muitas vezes, não é a origem do sofrimento. É a tentativa de administrá-lo.

Como insiste Gabor Maté, a pergunta central nunca foi “por que o vício?”, mas “por que a dor?”. A compulsão aparece, frequentemente, como resposta adaptativa a algo anterior — uma dor psíquica, um vazio, uma vergonha que não encontrou linguagem.

E aqui está um ponto decisivo: muitas pessoas não bebem apenas para sentir prazer.

Bebem para diminuir consciência. Para afrouxar a vigilância. Para não se sentir tão expostas a si mesmas. Para não ouvir, por algumas horas, aquela voz subterrânea dizendo:

“você estraga tudo.”

“você não é suficiente.”

“tem algo errado em você.”

Isso é vergonha. Não o constrangimento episódico. Mas a vergonha como estrutura. A vergonha como identidade. A vergonha como lente.

E se isso for verdade, então parar de beber não é simplesmente retirar o álcool. É aprender a ficar diante daquilo que o álcool estava amortecendo. E isso muda completamente o sentido da sobriedade.

 

VERGONHA NÃO É CULPA

Essa distinção importa mais do que parece.

Culpa diz:

“eu fiz algo errado.”

Vergonha diz:

“eu sou o erro.”

Brené Brown insiste nisso há décadas: culpa pode favorecer reparação. Vergonha, ao contrário, costuma empurrar para ocultamento, silêncio e autodestruição.

Porque, quando o problema sou “eu”, não há o que reparar. Há apenas fuga. E muitas fugas se chamam bebida.

A vergonha costuma se formar cedo. Às vezes em experiências traumáticas explícitas. Às vezes em micro feridas repetidas. Ser criticado quando sentia demais. Ridicularizado quando se mostrava. Ignorado quando precisava de ajuda. Condicionado a merecer amor pela performance.

Nada disso parece, isoladamente, grandioso. Mas a repetição organiza subjetividade. A pessoa começa a acreditar: se eu mostrar quem sou, serei rejeitado. Então adapta-se. Edita-se. Controla-se. Aprende a existir como versão suportável. Só que isso produz uma fadiga íntima enorme. Porque há um custo em viver sempre se corrigindo.

E o álcool, nesse cenário, pode surgir como raro momento de suspensão. Um intervalo na autocensura. Uma trégua do julgamento interno.

Não é difícil entender por que isso pode virar necessidade.

Como escreve Brené Brown:“A vergonha precisa de três coisas para crescer: segredo, silêncio e julgamento.”

Isso vale também para a dependência. Quanto menos nomeada a vergonha, mais poder ela ganha.

 

O VÍCIO COMO ALÍVIO — E ARMADILHA

Há algo profundamente humano em buscar alívio. O problema é quando o alívio vira prisão.

No início, beber pode parecer solução. Funciona. Reduz tensão. Acalma ansiedade. Dissolve vergonha. Silencia ruminação.

Mas, como observa Gabor Maté, toda dependência promete aliviar uma dor e, depois, amplifica essa mesma dor. Porque o alívio não vem sem preço.

Depois do efeito:

  • vem culpa.
  • vem ressaca moral.
  • vem vergonha por ter bebido.
  • vem medo de ter passado do limite.

E o que faz alguém com vergonha insuportável? Procura alívio. E o ciclo se recompõe.

  • Dor.
  • Vergonha.
  • Anestesia.
  • Mais vergonha.
  • Mais anestesia.

Esse circuito é muito menos moral do que automático. Muito menos fraqueza do que condicionamento. É por isso que “ter força de vontade” costuma falhar como solução.  Porque a força de vontade tenta combater o sintoma. Mas o sistema continua intacto.

E o sistema é afetivo.

Existencial.

Relacional.

 

QUANDO VOCÊ PARA, A VERGONHA APARECE MAIS

Esse ponto é crucial e quase nunca é dito claramente. Parar de beber pode aumentar, num primeiro momento, a sensação de exposição. Porque o que estava entorpecido emerge.

Lembranças.

Autocrítica.

Tristeza.

Vazio.

Vergonha.

Muita gente interpreta isso como sinal de fracasso: “parei e estou pior.” Mas frequentemente não está pior. Está vendo. Está sentindo. Está encontrando o que antes era evitado. E isso é doloroso. Mas também é começo. Porque não há transformação real sem contato.

A grande questão é o que fazer quando a vergonha aparece. Antigamente, talvez você bebesse. Agora a tarefa é outra.

Permanecer.

Observar.

Não obedecer imediatamente ao impulso de escapar. Isso é muito mais difícil do que parece. E muito mais radical.

Porque é justamente aqui que a sobriedade deixa de ser abstinência e se torna prática existencial.

Não é apenas não beber. É aprender a não fugir de si. Como dizia Rollo May, coragem não é ausência de medo, mas capacidade de avançar apesar dele. Sobriedade, muitas vezes, é isso.

Coragem para permanecer onde antes só havia fuga.

 

RECUPERAR NÃO É CONSERTAR. É INTEGRAR

Há uma violência escondida na ideia de que você precisa “consertar” quem é. Como se houvesse um eu defeituoso aguardando reparo.

Mas muita recuperação profunda não acontece por correção. Acontece por integração.  Não expulsando a dor. Mas deixando de ser governado por ela.

Alguns movimentos importam aqui:

 

1. NOMEAR A VERGONHA

Dar nome muda a relação.

Enquanto é nebulosa, domina.

Quando é reconhecida, pode ser observada.

Como propõe Brené Brown, vergonha exposta tende a perder potência.

 

2. TROCAR JULGAMENTO POR INVESTIGAÇÃO

Em vez de:

“o que há de errado comigo?”

Perguntar:

“que dor esse comportamento tentou aliviar?”

Essa pergunta abre espaço.

 

3. CRIAR CONEXÃO

A vergonha prospera no isolamento.

Ela enfraquece no encontro.

É por isso que grupos de recuperação funcionam tão profundamente.

Não apenas por técnica.

Mas por pertencimento.

 

4. SUPORTAR O DESCONFORTO SEM DESCARREGAR

Nem toda angústia exige solução imediata.

Algumas pedem travessia.

Isso se aprende.

E, às vezes, se aprende milimetricamente.

 

PARAR DE BEBER É APRENDER A NÃO SE ABANDONAR

Talvez essa seja a formulação mais precisa. Parar de beber não é tornar-se impecável. É não se abandonar quando a vergonha surge.

Porque o automatismo antigo dizia:

Eu sinta vergonha → fuja.

Agora o gesto muda:

sinta vergonha → permaneça.

Isso parece pequeno. Mas reorganiza uma vida. Porque cada vez que você suporta esse momento sem recorrer à anestesia, o circuito perde força. Pouco a pouco. Sem heroísmo. Sem pureza. Só repetição.

Talvez liberdade seja menos um grande rompimento e mais isso: interromper, várias vezes, o velho reflexo de fugir de si.

E talvez por isso a sobriedade seja menos sobre renúncia e mais sobre retorno. Voltar para si. Sem álcool. Sem performance. Sem esconderijo.

Como escreve Jean-Paul Sartre, não somos apenas o que fizeram de nós, mas o que fazemos com o que fizeram de nós — mesmo quando, na tentativa de aliviar a dor, fomos nós mesmos que agravamos o próprio sofrimento.

Recuperação talvez comece exatamente aí.


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

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