Não dou gargalhada.
Acho estranho dizer isso, mas é verdade.
Gargalhar me parece uma performance. Uma cena que nem sempre fez sentido pra mim. Quando acontecia, era quase sempre efeito de algo: álcool, euforia, nervosismo, ou a tentativa de me encaixar num momento que pedia uma risada que eu não sentia.
Hoje, depois de tanto tempo sóbria, percebo que minha forma de leveza é outra.
Sou mais de sorrir do que de rir. E isso não quer dizer que minha vida seja menos divertida — só que meu conceito de diversão não vem com barulho. Vem com presença.
A RISADA SOCIAL E O SORRISO AUTÊNTICO
Sempre estranhei aquelas rodas em que todo mundo ri ao mesmo tempo. Como se a graça estivesse no ritmo, e não no conteúdo.
Talvez por ser autista, ou só mais introspectiva, passei a vida tentando entender o “porquê” da piada, o que havia por trás daquilo que fazia os outros gargalharem com tanta facilidade.
Enquanto isso, eu sorria de leve, meio por educação, meio por observação. Mas quando algo realmente me tocava, não era com escândalo — era com aquele sorrisinho discreto que fica no canto da boca, aquele que só quem presta atenção percebe.
É esse tipo de leveza que me interessa.
A que vem sem pedir palco. A que não precisa se provar engraçada pra ser real.
O QUE É, AFINAL, “RIR DE VERDADE”?
Quando parei de beber, muita gente me dizia:
“Ah, mas a vida sem álcool perde a graça.”
Mas eu diria o contrário. A vida sem álcool perde a dispersão.
Ela fica mais crua, mais silenciosa — e, justamente por isso, mais rica.
O que antes era uma explosão confusa de sensações virou uma escuta mais fina. Comecei a notar os pequenos detalhes. As entrelinhas. Os olhares que se entendem sem palavras. As ironias sutis que só quem está muito presente percebe.
Isso, pra mim, é humor.
Não o que faz todo mundo rir alto — mas o que provoca um reconhecimento interno. Um “ah, entendi” que não precisa de som pra fazer sentido.
DIVERSÃO NÃO É DISTRAÇÃO — É PRESENÇA
Durante muito tempo, confundi estar entretida com estar feliz.
Achava que rir era sinônimo de diversão. Que se eu não estivesse rindo, era porque algo estava errado.
Mas a sobriedade me mostrou que há um outro tipo de alegria: a que não se distrai de si, mas mergulha em si.
Aquela que acontece quando estou lendo um texto que me atravessa. Quando descubro uma ideia nova. Quando estou sozinha e percebo que não estou solitária.
A minha diversão vem disso. De estar inteira. De não precisar fugir.
É uma alegria mais serena, talvez menos compreendida — mas muito mais verdadeira.
HUMOR, PRA MIM, É LUCIDEZ DISFARÇADA
Sempre tive um certo sarcasmo na fala. Uma ironia fina que não era para fazer rir, mas para abrir brechas no pensamento alheio.
Hoje, entendo que isso também é uma forma de humor. Um jeito de provocar o outro, mas também a mim mesma.
Não pra esconder a dor, como antes. Mas pra processá-la com leveza.
Meu humor é um filtro. Uma lente que me ajuda a suportar o absurdo, o cotidiano, o mundo.
Não me leva embora de mim. Me ancora.
QUANDO ESTAR SÓBRIA É, EM SI, UMA PIADA CÓSMICA
Às vezes, penso que estar sóbria é quase um paradoxo.
Como pode a vida parecer tão mais simples sem aquele caos que eu, por tanto tempo, achei necessário pra me sentir viva?
Rir disso — da ilusão que eu comprei, da fuga que romantizei, da intensidade que agora canalizo em livros, estudos e criações — virou meu jeito de lidar com a história.
Não com amargura. Nem com negação. Mas com aquele sorriso de quem olha pra trás e pensa:
“É… eu sobrevivi. E agora, estou rindo — mesmo que só por dentro.”
LEVEZA É RECONHECER QUE VOCÊ NÃO PRECISA PERFORMAR FELICIDADE
Se você chegou até aqui esperando que eu dissesse que a vida sóbria é uma festa cheia de gargalhadas… desculpa te frustrar.
Mas talvez você, como eu, esteja cansado dessas festas.
Talvez esteja procurando um outro tipo de riso — aquele que não precisa de plateia.
E se for o caso, te dou boas-vindas. Aqui, a leveza é mais silêncio que euforia. Mais presença que espetáculo.
E mesmo assim — ou talvez por isso — é profundamente libertadora.
Da desconexão e dependência à realização e conexão consigo.
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