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ALCOOLISMO: E se você fosse uma obra de arte?

Se eu fosse uma obra de arte, eu seria uma obra em reconstrução. Talvez uma escultura marcada pelo tempo. Talvez uma casa antiga com rachaduras nas paredes. Talvez um templo que ainda guarda algo sagrado, mas que também carrega sinais de abandono, infiltração, excesso e descuido.

Não seria uma obra sem valor. Mas também não poderia fingir que nada aconteceu.

Haveria beleza, sim. Mas uma beleza atravessada por marcas. Haveria estrutura, mas uma estrutura cansada. Haveria partes ainda firmes, outras corroídas, outras esquecidas. Algumas salas internas estariam fechadas há anos. Alguns cantos teriam cheiro de mofo. Algumas paredes teriam sido pintadas muitas vezes para esconder o mesmo problema: a umidade vinha de dentro.

O alcoolismo se parece com isso. Ele não destrói tudo de uma vez. Trabalha como infiltração. Entra pelas frestas da dor, da vergonha, da solidão, do medo, da ansiedade, da vontade de pertencer, da dificuldade de suportar a própria vida sem anestesia. No começo, a bebida parece resolver alguma coisa. Ela parece dar forma. Solta a língua, aquece o peito, diminui a vergonha, amortece o medo. Por algumas horas, faz a pessoa caber onde antes parecia impossível: na festa, na conversa, no próprio corpo, na vida dos outros.

Mas o álcool é um falso restaurador. Promete acabamento e entrega corrosão. Promete pertencimento e entrega dependência. Promete leveza e entrega repetição. Promete coragem e entrega ausência. Aquilo que parecia abrir espaço começa a estreitar a vida. A pessoa já não bebe apenas para celebrar, mas para suportar. Já não bebe apenas para se soltar, mas para existir. Já não procura o álcool como escolha, mas como encaixe obrigatório em uma obra que perdeu parte da própria sustentação.

Somos obras subjetivas. Alguns dirão que fomos criados por Deus. Outros dirão que fomos criados pelo acaso, pela biologia, pela poeira das estrelas, pelo encontro entre duas pessoas, pelo tempo, pela cultura, pela linguagem, pela infância, pelas perdas e pelos afetos. Seja qual for a crença, ninguém nasce nada. Somos feitos por muitas mãos: as de quem cuidou, as de quem feriu, as do mundo, as do corpo, as da memória e as nossas.

Ao longo da vida, seguimos em construção e desconstrução. Algumas partes amadurecem. Outras endurecem. Algumas caem para que algo mais verdadeiro apareça. Outras caem porque foram negligenciadas por tempo demais. Nem toda desconstrução é crescimento. Algumas quedas ensinam. Outras apenas repetem a ferida.

O alcoolismo não é a incompletude natural de quem está vivo e ainda se formando. É outra coisa. É uma incompletude provocada, insistente, corrosiva. Ele não nos torna imperfeitos — isso já somos desde sempre. Ele nos torna menos presentes. Menos coerentes. Menos disponíveis para a própria vida. Vai arrancando pedaços pequenos: memória, palavra, desejo, confiança, sono, corpo, dinheiro, vínculo, promessa, dignidade prática.

A pessoa continua ali, mas menos inteira. Ainda fala, mas se contradiz. Ainda promete, mas não acredita. Ainda ama, mas machuca. Ainda trabalha, mas se abandona. Ainda acorda, mas sem alma.

E aqui alma entra como ânimo. Não como enfeite religioso, nem como palavra distante da vida concreta. Alma vem desse campo antigo do sopro, daquilo que move por dentro. Ter alma, nesse sentido, é ter eixo. É sentir que ainda existe alguém dentro de você tentando viver de verdade, e não apenas sobreviver aos próprios excessos.

A CORROSÃO NÃO COMEÇA PARECENDO RUÍNA

Quase ninguém começa bebendo para se destruir. Essa é uma das verdades mais importantes quando falamos de alcoolismo. A bebida costuma entrar como promessa de solução. Para alguns, ela alivia a timidez. Para outros, diminui a dor. Para muitos, oferece uma pausa na mente cansada. Há quem beba para pertencer, para dormir, para calar lembranças, para enfrentar encontros, para comemorar, para suportar o vazio, para parecer mais leve do que se sente.

Ninguém se prende a uma substância destrutiva porque ela apenas destrói. A pessoa se prende porque, em algum momento, aquilo funcionou. Funcionou como muleta, anestesia, personagem, armadura, abrigo falso. O problema é que o abrigo começa a desabar em cima de quem entrou nele para sobreviver.

A ciência ajuda a tirar o alcoolismo do campo da culpa rasa. O álcool é uma substância psicoativa, tóxica e capaz de gerar dependência. Ele interfere no cérebro, no sono, no humor, na memória, na tomada de decisão e no sistema de recompensa. Com o tempo, o cérebro se adapta à presença da bebida. O que antes parecia prazer pode virar necessidade. O que parecia escolha começa a aparecer como urgência.

Isso não retira responsabilidade. Retira achismo. A pessoa alcoolista precisa responder pela própria vida, mas não precisa ser esmagada pela ideia de que tudo se resume a vergonha. Vergonha demais não reconstrói ninguém. Vergonha demais apenas empurra a pessoa para o esconderijo. E o esconderijo, para quem sofre com alcoolismo, quase sempre tem uma garrafa esperando.

O álcool também não é inofensivo porque é socialmente aceito. A sociedade aprendeu a colocar uma moldura bonita em torno da bebida: brinde, festa, churrasco, vinho elegante, cerveja gelada, propaganda, descontração, “só uma”, “deixa de ser chato”. Mas uma moldura bonita não muda a matéria da obra. O álcool continua sendo uma substância associada a adoecimento, dependência, acidentes, violência, câncer, sofrimento psíquico e mortes evitáveis.

Para o alcoolista, porém, a questão não é apenas estatística. Não é só fígado, cérebro, câncer, pressão arterial ou risco de morte. É o modo como a bebida vai ocupando o lugar da vida. O álcool entra como substância, mas depois vira linguagem. Vira resposta para tudo. Alegria? Bebe. Tristeza? Bebe. Tédio? Bebe. Ansiedade? Bebe. Festa? Bebe. Luto? Bebe. Solidão? Bebe. Medo? Bebe. Vitória? Bebe. Vergonha? Bebe.

Quando uma substância começa a responder por nós, alguma coisa em nós deixa de falar.

A OBRA NÃO VOLTA AO QUE ERA

Existe, na recuperação, a fantasia de que parar de beber fará a pessoa voltar a ser quem era antes. Como se a sobriedade fosse uma máquina do tempo. Como se bastasse retirar o álcool para reencontrar uma versão original, limpa, anterior ao estrago. Mas a vida não funciona assim. O que aconteceu já aconteceu. O que foi dito foi dito. O que quebrou deixou marca. O que se perdeu nem sempre volta.

E isso não precisa ser uma condenação.

Penso no kintsugi, a técnica japonesa de restaurar cerâmicas quebradas com laca e pó de ouro, prata ou platina. A peça quebrada não finge que nunca caiu. As rachaduras não são apagadas, escondidas ou maquiadas. Elas são preenchidas. Iluminadas. Transformadas em parte visível da história do objeto. A xícara volta a existir, volta a servir, volta a ocupar um lugar no mundo — mas nunca mais será a mesma.

A sobriedade se parece com isso.

Ela não apaga a queda, mas impede que a queda seja o fim da obra. Não elimina todas as marcas, mas pode dar outro destino a elas. Não devolve uma pessoa intacta, porque talvez essa pessoa intacta nunca tenha existido. O que ela oferece é mais honesto: a possibilidade de restaurar presença, sentido, cuidado e coerência a partir do que restou.

A recuperação do alcoolismo não é voltar ao início. É parar de permitir que o álcool escreva o final.

PARAR DE BEBER É RETIRAR O AGENTE CORROSIVO

Parar de beber é imenso. Para muita gente, é uma das decisões mais difíceis da vida. Mas parar de beber não termina a obra. Parar de beber retira o agente corrosivo. Impede que a infiltração continue aumentando. Interrompe o processo de deterioração. Mas depois vem a parte que exige paciência: olhar para aquilo que ficou.

A abstinência abre espaço. Mas espaço vazio não é automaticamente vida nova. É preciso reconstruir o que foi comprometido: rotina, sono, vínculo, confiança, corpo, palavra, desejo, limites, trabalho, pertencimento, espiritualidade, saúde mental. É preciso aprender a viver sem o velho anestésico. Aprender a comemorar sem se destruir. Sofrer sem se abandonar. Socializar sem se violentar. Dormir sem apagar. Acordar sem investigar a noite anterior como uma cena de crime.

A sobriedade não transforma ninguém em obra perfeita. E ainda bem. Gente perfeita é insuportável até como ideia. A sobriedade não elimina conflitos, boletos, lutos, traumas, saudades, fissuras, recaídas emocionais, dias ruins ou pensamentos difíceis. Mas ela devolve algo enorme: a possibilidade de participar da própria reconstrução.

Enquanto o álcool manda, a pessoa vive reagindo. Na sobriedade, mesmo com dificuldade, ela começa a responder. Responder é diferente de reagir. Responder exige pausa. Exige alguma presença. Exige ouvir à vontade sem obedecer imediatamente. Exige reconhecer: “isso que eu quero agora pode destruir aquilo que eu digo querer para a minha vida”.

O OURO NAS RACHADURAS

No kintsugi, o ouro não nega a quebra. Ele trabalha com ela. Na recuperação, o ouro também não é enfeite. Não é luxo. Não é frase bonita. O ouro é prática.

Ouro é pedir ajuda quando a cabeça começa a negociar com a garrafa. Ouro é ir à consulta mesmo sem vontade. Ouro é frequentar um grupo quando o orgulho diz que você deveria dar conta sozinho. Ouro é contar a verdade para o médico. Ouro é dizer: “eu não posso beber”, sem transformar isso em humilhação. Ouro é sair de um lugar antes da primeira dose. Ouro é atravessar uma fissura sem fazer dela uma ordem. Ouro é trocar a fantasia de controle pela honestidade do limite.

Ouro é também reparar o possível. Pedir desculpa sem teatro. Aceitar que algumas pessoas ainda não confiem. Entender que mudança não se exige dos outros como aplauso imediato. Reconstruir a palavra aos poucos, porque a confiança raramente volta por discurso. Ela volta por repetição. Por presença. Por coerência. Por aquilo que se faz quando ninguém está olhando.

E há um ouro silencioso que quase ninguém vê. Ninguém vê a pessoa passando pelo corredor de bebidas e seguindo em frente. Ninguém vê a noite em que ela se senta na cama e decide não sair. Ninguém vê a mensagem enviada e apagada em seguida antes do colapso. Ninguém vê a festa recusada. Ninguém vê a mão tremendo e ainda assim escolhendo água. Ninguém vê o banho tomado no lugar da entrega. Ninguém vê a batalha de não abrir a primeira exceção.

Mas é ali que a obra se restaura.

NEM TODA RACHADURA PRECISA VIRAR IDENTIDADE

Há um risco na recuperação: transformar a própria ferida em identidade total. A pessoa para de beber, mas continua orbitando o álcool como centro absoluto da existência. Tudo vira dívida, culpa, medo, vigilância, passado. É claro que o alcoolismo precisa ser lembrado. Esquecer a própria ruína pode ser perigoso. Mas lembrar não é morar nela.

A xícara restaurada pelo kintsugi não é apenas rachadura. Ela continua sendo xícara. Continua podendo servir chá. Continua tendo forma, peso, beleza, função, história. As emendas fazem parte dela, mas não são tudo.

O alcoolista em recuperação também não é apenas o alcoolismo. É alguém que teve sua vida atravessada por uma substância poderosa, sim. Alguém que talvez tenha perdido muito. Alguém que talvez tenha machucado pessoas, se machucado, mentido, prometido, recaído, recomeçado. Mas também é alguém que ainda pode construir presença. Ainda pode amar de outro modo. Ainda pode cuidar do corpo. Ainda pode recuperar palavra. Ainda pode criar sentido. Ainda pode existir sem precisar se anestesiar para caber no mundo.

A sobriedade não deve virar uma nova prisão. Ela precisa virar espaço. Um espaço mais honesto, mais possível, mais habitável.

O CÉREBRO TAMBÉM ENTRA NA RESTAURAÇÃO

Há algo importante a lembrar: a reconstrução não é apenas simbólica. Ela também acontece no corpo. O cérebro afetado pelo álcool não é uma peça morta. Ele aprende, adapta-se, reorganiza-se. A neurociência fala em plasticidade cerebral: a capacidade do cérebro de mudar com experiências, tratamentos, abstinência, vínculos e novas práticas.

Isso não significa promessa mágica. Não significa que tudo se resolve em poucos meses. Cada pessoa tem sua história, sua gravidade, seu tempo, seu contexto. Mas significa que o alcoolista não é uma obra condenada. Há reparos possíveis. Há funções que podem melhorar. Há memória, atenção, humor, sono e tomada de decisão que podem encontrar caminhos de recuperação, especialmente quando a abstinência vem acompanhada de tratamento e suporte.

Também é preciso dizer com clareza: para quem bebe pesado ou diariamente, parar de repente pode ser perigoso. A abstinência alcoólica pode provocar sintomas graves e, em alguns casos, exigir acompanhamento médico. Coragem não é fazer tudo sozinho. Coragem, às vezes, é contar a verdade para um profissional. É dizer quanto bebe, há quanto tempo, com que frequência, e aceitar cuidado sem transformar sofrimento em prova de força.

Tratamento não diminui ninguém. Terapia não diminui. Psiquiatra não diminui. Medicação, quando indicada, não diminui. Grupo de apoio não diminui. Admitir que não dá para brincar com álcool não diminui. Pelo contrário: pode ser uma das primeiras atitudes realmente adultas depois de anos chamando autodestruição de liberdade.

RECONSTRUIR TAMBÉM É DESCONSTRUIR

Toda restauração exige retirada. Antes do ouro, é preciso limpar as bordas. Antes da nova sustentação, é preciso reconhecer onde a estrutura falhou. Na recuperação do alcoolismo, reconstruir também significa desconstruir personagens.

O personagem que “aguenta todas”. O engraçado que só existe bêbado. O intenso. O festeiro. O sedutor. O rebelde. O poeta do caos. O que sempre topa. O que transforma excesso em identidade. O que chama autodestruição de personalidade forte. Muitas vezes, o álcool não cria apenas dependência química; cria também uma estética de si. A pessoa começa a acreditar que sem a bebida ficará sem graça, sem coragem, sem brilho, sem lugar.

Mas talvez o que desapareça na sobriedade não seja você. Talvez desapareça apenas a performance que mantinha você longe de si.

No começo, viver sem álcool pode parecer cru. A festa fica estranha. O silêncio fica alto. O corpo fica desconfortável. A tristeza aparece sem filtro. A alegria parece tímida. A pessoa não sabe mais como descansar, comemorar, flertar, conversar, terminar o dia. Isso não significa que a sobriedade esteja errada. Significa que a obra ficou muito tempo sendo iluminada por uma luz falsa. Quando essa luz apaga, os olhos precisam reaprender.

Aos poucos, a vida sem álcool deixa de ser apenas ausência e começa a virar presença. Primeiro, presença difícil. Depois, presença possível. Depois, presença desejável.

A BELEZA DE UMA OBRA VERDADEIRA

Uma obra restaurada não é uma obra ingênua. Ela sabe algo sobre queda. Sabe algo sobre descuido. Sabe algo sobre o peso de ser quebrada. Mas também sabe algo sobre paciência. Sobre mãos que não desistiram. Sobre a delicadeza de juntar partes sem fingir que nada aconteceu.

Talvez a sobriedade seja isso: uma forma de parar de mentir para a própria matéria.

Não é dizer: “agora sou puro”. Não é dizer: “nunca mais terei vontade”. Não é dizer: “o passado não importa”. Importa. Mas importa como história, não como sentença. Importa como rachadura preenchida, não como buraco aberto por onde a vida continua vazando.

O alcoolismo tenta convencer a pessoa de que, depois de quebrada, ela não serve mais. A sobriedade responde o contrário: quebrada não significa acabada. Marcada não significa perdida. Inacabada não significa inútil. Há obras que só revelam sua profundidade depois da restauração. Não porque a dor seja bonita em si, mas porque o cuidado pode dar à dor uma forma menos destrutiva.

Se eu fosse uma obra de arte, não gostaria de parecer intacta. Gostaria de ser verdadeira. Uma obra com rachaduras visíveis, mas não abandonada. Uma peça que caiu, que quebrou, que foi corroída pelo álcool, mas que um dia começou a ser restaurada por mãos mais pacientes: as minhas, as de quem me ajudou, as do tempo, as da sobriedade.

A pergunta não é como voltar a ser exatamente quem você era antes do álcool. Talvez essa pessoa já não exista. Talvez algumas partes tenham se perdido. Talvez outras tenham sido descobertas justamente no processo de reconstrução. A pergunta mais honesta é: o que ainda pode ser construído com aquilo que restou de mim?

Porque resta muita coisa.

Resta corpo. Resta memória, ainda que ferida. Resta desejo, ainda que confuso. Resta vergonha, e a vergonha pode virar consciência quando deixa de ser chicote. Resta dor, e a dor pode virar direção quando deixa de ser afogada. Resta vida. E onde ainda há vida, há matéria para reconstrução.

A sobriedade não é uma borracha. É ouro nas rachaduras. Não ouro como enfeite, mas como cuidado repetido. Cada dia sem beber é uma emenda. Cada pedido de ajuda é uma emenda. Cada limite respeitado é uma emenda. Cada recaída interrompida antes de virar abandono é uma emenda. Cada retorno ao tratamento é uma emenda. Cada manhã sem ressaca é uma emenda. Cada gesto menos violento consigo é uma emenda.

A recuperação não promete que você será a obra inicial. Promete algo mais real: a possibilidade de não continuar sendo corroído pelo álcool. A possibilidade de restaurar o que ainda pode servir à vida. A possibilidade de transformar rachaduras em caminho, e não em destino.

E você? Que obra está esculpindo quando ninguém está olhando?


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

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