Home / DESPERTAR / POR QUE BEBIDA ALCOÓLICA PARECE SER “TÃO BOA”?

POR QUE BEBIDA ALCOÓLICA PARECE SER “TÃO BOA”?

Há uma pergunta que costuma ser evitada quando se fala de alcoolismo:

o que a bebida entrega?

Não o que ela destrói — isso já sabemos.

Mas o que ela oferece, especialmente no início, para que tantas pessoas gostem tanto.

Porque há uma verdade simples e desconfortável: se a bebida alcoólica fosse apenas ruim, ninguém beberia.

Ninguém insistiria.

Ninguém voltaria.

O problema não é reconhecer que o álcool “funciona”.

O problema é confundir funcionamento com benefício real.

Este texto não é uma defesa do álcool.

É uma tentativa de nomear sua sedução.

 

O PRIMEIRO MAL-ENTENDIDO: “BEBIDA É BOA”

Do ponto de vista objetivo, a bebida alcoólica não é boa.

É uma substância psicoativa, tóxica, associada a mais de três milhões de mortes por ano no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Não há dose completamente segura. Não há uso isento de risco.

E ainda assim…

ela é desejada.

celebrada.

defendida.

Essa contradição só existe porque estamos falando de efeitos subjetivos, não de virtudes morais.

O álcool não é bom.

Mas faz sentir coisas que parecem boas.

E é isso que precisa ser compreendido.

 

O ALÍVIO: QUANDO A MENTE PARA DE DOER

Quimicamente, o álcool atua como depressor do sistema nervoso central. Ele diminui a atividade cerebral ligada à vigilância, à ansiedade e ao autocontrole. Em termos simples: ele silencia.

Silencia pensamentos excessivos.

Silencia a autocobrança.

Silencia a angústia.

Para quem vive em estado constante de tensão interna, esse efeito é percebido como um presente. Um descanso. Um respiro.

Do ponto de vista psicanalítico, o álcool funciona como um regulador emocional externo. Ele faz, artificialmente, o que a pessoa não consegue fazer sozinha: baixar a intensidade do sentir.

Por isso tanta gente diz: “Eu bebo para desligar.”

Não é fuga do prazer.

É fuga da dor.

 

A EUFORIA: QUANDO A VIDA PARECE MAIS LEVE

Além do alívio, há a euforia.

O álcool aumenta temporariamente a liberação de dopamina — neurotransmissor ligado à sensação de prazer, recompensa e motivação.

Tudo parece mais fácil.

As pessoas parecem mais interessantes.

A própria pessoa parece mais solta.

Do ponto de vista existencial, isso tem um peso enorme: o álcool oferece uma versão de si mesmo menos travada, menos envergonhada, menos contida.

Não é raro ouvir: “Eu sou mais eu quando bebo.”

Essa frase não é sobre identidade real.

É sobre suspensão de inibições.

O problema é que o preço da euforia é sempre cobrado depois.

 

O SABOR: O PRAZER QUE SE APRENDE

Ninguém nasce gostando de bebida alcoólica. Embora fatores genéticos possam aumentar a vulnerabilidade ao alcoolismo, o gosto pelo álcool é aprendido — cultural, social e emocionalmente.

Vinhos, cervejas, destilados — tudo isso envolve narrativa, linguagem, status. O gosto não está só na boca; está no discurso que o acompanha.

Do ponto de vista cultural, beber é um ato simbólico. Não se bebe apenas uma substância, bebe-se uma história: tradição, sofisticação (ou não), pertencimento, maturidade.

“Aprender a beber” é, muitas vezes, aprender a fazer parte.

 

O PERTENCIMENTO: BEBER PARA NÃO FICAR DE FORA

Aqui está um dos pontos mais poderosos.

O álcool não entrega só sensação — entrega laço social.

Brindes, festas, encontros, celebrações. Em muitas culturas, não beber é se explicar. Beber é o padrão.

Sociologicamente, o álcool funciona como um lubrificante social. Ele facilita conversas, reduz o medo do julgamento, cria uma sensação de intimidade rápida.

Para quem se sente deslocado, tímido ou inadequado, beber não é sobre a bebida.

É sobre não ficar de fora.

O problema começa quando o pertencimento depende da substância.

 

A SUSPENSÃO DA RESPONSABILIDADE

Há ainda um benefício oculto e raramente nomeado: o álcool oferece uma desculpa.

“Eu estava bêbado.”

“Não era eu.”

“Foi a bebida.”

Do ponto de vista psíquico, isso é sedutor. O álcool suspende temporariamente a responsabilidade subjetiva. Permite agir sem lidar imediatamente com as consequências internas.

É um alívio perigoso.

Porque ensina que, para não sustentar quem se é, basta beber.

 

POR QUE ISSO VIRA ARMADILHA

O problema do álcool não é o que ele oferece. É como oferece.

O alívio é rápido, mas não ensina a lidar com a dor.

A euforia é química, não construída.

O pertencimento é condicionado.

O silêncio interno é artificial.

O cérebro aprende o caminho mais curto.

E começa a cobrar repetição.

Segundo dados da OMS e de institutos de saúde, usar álcool como estratégia para lidar com emoções aumenta significativamente o risco de dependência. Não por fraqueza moral, mas por aprendizado neurobiológico.

O que funciona rápido, vicia rápido.

 

A GRANDE CONFUSÃO: BENEFÍCIO NÃO É CUIDADO

Aqui está o ponto central.

O álcool entrega efeitos.

Mas não cuida.

Ele alivia, mas não resolve.

Conecta, mas não sustenta.

Acalma, mas não ensina.

Do ponto de vista existencial, ele evita o encontro com a própria condição humana: limite, angústia, solidão, finitude.

Por isso, quanto mais ele parece “bom”, mais perigoso se torna.

 

SOBRIEDADE NÃO É PERDA — É LUCIDEZ

Quando alguém para de beber, não perde apenas a substância. Perde os efeitos que ela produzia. E isso dói.

Mas com o tempo, algo diferente acontece: a pessoa começa a construir, de forma mais real, aquilo que antes vinha pronto.

Alívio que vem de cuidado.

Pertencimento que vem de vínculo.

Prazer que não cobra ressaca emocional.

E tudo isso porque a sobriedade não é uma virtude moral. É um estado de lucidez diante da vida.

 

DESPERTAR

A bebida alcoólica não é boa. Mas explica por que tanta gente acredita que seja.

Ela entrega atalhos para aquilo que todos buscamos: menos dor, mais leveza, mais conexão.

O despertar não é negar isso. É perguntar: qual o preço desses atalhos?

E, principalmente:

o que pode ocupar esse lugar de forma mais honesta?

 


Rafa Pessato

Embriague-se de si!

rafapessato.eu