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O QUE VOCÊ COMEÇA A ENCONTRAR QUANDO PARA DE BEBER

Parar de beber costuma ser imaginado como um gesto de perda.
Perda do prazer, da socialização, da leveza.
Mas, na prática, o que acontece é outra coisa: uma série de encontros inesperados.

Alguns desconfortáveis.
Outros silenciosos.
Outros profundamente transformadores.

Este texto não fala do álcool em abstrato.
Fala de quem bebeu por anos tentando dar conta da vida — e, ao parar, começa a se deparar com algo que estava sendo adiado: a própria experiência de existir sem anestesia.

Essa não é uma lista fechada.

Ao parar de beber, você pode encontrar muito mais do que está citado aqui — porque cada história, cada corpo e cada subjetividade atravessam a sobriedade de um jeito único.

 

O PRIMEIRO ENCONTRO: COM O CORPO QUE VOLTA A “FALAR

Nos primeiros dias e semanas sem álcool, o corpo reaparece.

E ele não chega em silêncio.

O álcool atua como depressor do sistema nervoso central e interfere diretamente na regulação do sono, do eixo do estresse (hipotálamo–hipófise–adrenal) e da percepção corporal, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Instituto Nacional sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo dos Estados Unidos (NIAAA).

 

Quando o álcool sai de cena, o organismo entra em processo de reorganização:

• o sono muda

• a energia oscila

• o apetite se transforma

• o sistema nervoso reaprende a regular excitação e repouso

Esse corpo que retorna pode parecer estranho, cansado, inquieto.

Mas ele não está quebrado.

Está voltando a funcionar sem intermediários químicos.

Parar de beber é, antes de tudo, um reencontro fisiológico.

 

O SEGUNDO ENCONTRO: COM EMOÇÕES QUE NÃO ERAM SÓ “DRAMA”

Muitos alcoolistas acreditam que bebem porque são “sensíveis demais”, “ansiosos demais”, “intensos demais”.

A ciência ajuda a corrigir essa narrativa.

O álcool altera neurotransmissores como GABA, dopamina e serotonina, criando uma falsa sensação de regulação emocional. A médio e longo prazo, porém, ele agrava quadros de ansiedade e depressão, como mostram estudos publicados no The Lancet Psychiatry e revisões sistemáticas da Cochrane Library.

Quando o álcool sai, as emoções aparecem sem filtro.

Não porque você ficou pior.

Mas porque o amortecedor foi retirado.

Ansiedade, tristeza, irritação e até alegria surgem mais nítidas.

Esse encontro costuma assustar — e é aqui que muitos desistem.

Do ponto de vista clínico, isso não é recaída emocional.

É retomada de contato consigo.

 

O TERCEIRO ENCONTRO: COM O TEMPO QUE SOBRA

Uma das mudanças mais relatadas por quem para de beber é estranha de explicar:

o dia parece mais longo.

Não porque o relógio mudou.

Mas porque o álcool ocupava espaços invisíveis:

• tempo de ressaca

• tempo de recuperação

• tempo de culpa

• tempo de esquecimento

Pesquisas observacionais conduzidas pela Universidade de Sussex, no contexto do Dry January, mostram aumento significativo da percepção de clareza mental, energia e presença após períodos de abstinência.

Quando o álcool sai, o tempo reaparece.

E com ele surge a pergunta que ninguém ensina a responder:

o que eu faço comigo agora?

 

O QUARTO ENCONTRO: COM O DINHEIRO QUE DESAPARECIA

Pouco se fala disso, mas quase todo alcoolista vive uma relação confusa — e frequentemente negada — com o dinheiro.

Não apenas o dinheiro gasto diretamente com bebida.

Mas o dinheiro que some em torno dela.

• gastos impulsivos

• pedidos de comida fora de hora

• aplicativos de transporte

• compras para aliviar culpa

• perdas por improdutividade

• problemas profissionais

Estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que o uso nocivo do álcool gera custos econômicos significativos, tanto para os sistemas de saúde quanto para o indivíduo, incluindo queda de renda, absenteísmo (ausência física ou mental) e prejuízos cognitivos no trabalho.

Quando a pessoa para de beber, o dinheiro reaparece.

E isso pode gerar um choque.

Porque ele revela algo incômodo:

o álcool não custava só o fígado — custava a vida prática.

Esse encontro financeiro não é apenas contábil.

É existencial.

Ele obriga a olhar para escolhas, prioridades e para o quanto se vinha pagando para não sentir.

 

O QUINTO ENCONTRO: COM A IDENTIDADE SEM O PAPEL DO “BEBEDOR”

Para muitos, beber não era apenas um hábito.

Era uma identidade social.

O engraçado, o forte, o que aguenta, o que sempre topa mais uma.

Sem álcool, esse personagem perde o palco.

Do ponto de vista psicanalítico, o sintoma não é apenas algo que se faz, mas algo que organiza o lugar do sujeito no mundo.

Quando o álcool cai, surge um vazio simbólico.

E o vazio assusta.

Mas ele também é fértil.

É nele que começa a se formar uma identidade menos performática e mais autêntica — talvez ainda frágil, ainda em construção, mas real.

 

O SEXTO ENCONTRO: COM A DOR QUE NÃO ERA SÓ QUÍMICA

Aqui o texto precisa ser honesto.

Parar de beber não resolve automaticamente a vida.

Ele retira um véu.

Questões antigas podem reaparecer com força:

• relações mal resolvidas

• frustrações profissionais

• conflitos familiares

• sensação de inadequação

Do ponto de vista existencial, isso não é um erro do processo.

É o processo.

O álcool funcionava como resposta pronta.

Sem ele, as perguntas voltam.

E isso exige algo que nenhuma substância oferece: responsabilidade por si.

 

O SÉTIMO ENCONTRO: COM A LIBERDADE DISCRETA

A liberdade da sobriedade, sobretudo para os mais introvertidos, não costuma ser eufórica.

Ela é discreta.

Ela aparece em pequenos gestos:

• acordar sem medo do que fez

• lembrar das conversas

• confiar no próprio corpo

• perceber limites

• dizer “não” sem justificar

Relatórios da Saúde Pública da Inglaterra e da OMS Europa indicam melhora progressiva da autoestima, da percepção de autoeficácia e da saúde mental após períodos sustentados sem álcool.

Não é uma liberdade heróica.

É uma liberdade possível.

 

O OITAVO ENCONTRO: COM VOCÊ MESMO

Depois do corpo.

Depois das emoções.

Depois do tempo.

Depois do dinheiro.

Depois das máscaras.

O que sobra é você.

Não idealizado.

Não pronto.

Não resolvido.

Mas presente.

Parar de beber não é virar outra pessoa.

É parar de fugir da que você já é.

E isso, embora não seja simples, é profundamente humano.

 


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

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