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MICROVITÓRIAS QUE FAZEM A DIFERENÇA. O que se ganha ao deixar o ÁLCOOL

Parar de beber costuma ser imaginado como um grande evento. Um marco. Uma virada definitiva. Algo que deveria mudar tudo de uma vez: o humor, o corpo, a vida, as relações, o sentido da existência. Essa fantasia do “antes e depois” é compreensível — e, ao mesmo tempo, cruel. Cruel porque coloca a sobriedade sob a lógica do espetáculo e do resultado imediato, enquanto o alcoolismo se constrói, na realidade, no terreno do cotidiano, da repetição e dos pequenos deslocamentos quase imperceptíveis.

Quem viveu o alcoolismo por dentro sabe: o problema nunca foi apenas a bebida. O álcool foi solução antes de ser problema. Regulador emocional, anestésico psíquico, tentativa de descanso, forma de pertencimento, maneira de suportar a vida quando ela parecia grande demais ou vazia demais. Por isso, parar de beber não produz um ganho único, claro e imediato. Produz microvitórias — mudanças pequenas, mas cumulativas, que não chamam atenção de fora, mas reorganizam profundamente a experiência de existir.

Este texto não promete uma vida perfeita. Não oferece redenção. Não romantiza a sobriedade. Ele se propõe a algo mais honesto: nomear o que começa a ser ganho quando o álcool deixa de ocupar o centro da vida, mesmo que ainda haja dor, ambivalência e dias difíceis. Porque, ao contrário do que se costuma vender, a sobriedade não se sustenta por grandes ideais, mas por pequenas conquistas que devolvem dignidade ao sujeito.

 

O ALCOOLISMO COMO DOENÇA E COMO EXPERIÊNCIA HUMANA

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o alcoolismo — ou Transtorno por Uso de Álcool (TUA) — como uma doença crônica, caracterizada pela perda de controle sobre o consumo, pela centralidade da substância na vida do indivíduo e pela persistência do uso apesar das consequências negativas (OMS, CID-11). Essa definição é fundamental porque retira o alcoolismo do campo da falha moral. No entanto, ela não dá conta de toda a experiência subjetiva envolvida.

Do ponto de vista psicanalítico e existencial, o alcoolismo não é apenas um conjunto de critérios diagnósticos. Ele é também uma resposta possível — ainda que destrutiva — ao mal-estar de existir. Freud já apontava, em O Mal-Estar na Civilização, que o ser humano busca substâncias intoxicantes para aliviar o peso da realidade e da angústia. O álcool, nesse sentido, não cria o sofrimento; ele se encaixa nele.

Reconhecer o alcoolismo como doença não elimina a responsabilidade do sujeito, mas muda o ponto de partida. Não se trata de perguntar “por que você não se controla?”, e sim “o que o álcool passou a regular na sua vida?”. Essa mudança de eixo é essencial para compreender por que as microvitórias importam tanto. Elas não são conquistas externas; são reorganizações internas.

 

MICROVITÓRIA 1: ACORDAR SEM MEDO DO PRÓPRIO DIA

Uma das primeiras mudanças relatadas por quem interrompe o consumo é sutil, mas profunda: acordar sem medo. Não medo abstrato, mas aquele medo concreto e corporal de abrir os olhos e precisar reconstruir a noite anterior. Medo de mensagens enviadas, compromissos perdidos, comportamentos fora do próprio eixo, lapsos de memória. Segundo o National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA), o álcool compromete áreas do cérebro ligadas à memória, ao julgamento e à regulação emocional, o que explica os apagões e a intensificação da culpa no dia seguinte.

Quando o álcool sai, o dia seguinte deixa de ser um território hostil. Isso não significa acordar feliz. Significa acordar inteiro. A ausência da ressaca física e moral devolve algo básico, mas precioso: previsibilidade. E previsibilidade é segurança psíquica. Sem ela, o sujeito vive em estado de alerta permanente, tentando reparar danos antes mesmo de saber quais são.

Essa microvitória não aparece em fotos nem em frases de efeito. Mas ela muda a relação com o tempo. O dia deixa de ser algo a ser consertado e passa a ser algo a ser vivido.

 

MICROVITÓRIA 2: DORMIR DE VERDADE — E NÃO APENAS APAGAR

Outro ganho frequentemente subestimado é o sono. O álcool é um depressor do sistema nervoso central e atua sobre os receptores GABA, produzindo sedação. Isso leva muitos a acreditarem que beber ajuda a dormir. A ciência mostra o contrário. Estudos do National Institutes of Health (NIH) indicam que o álcool fragmenta o sono, reduz o sono REM e aumenta despertares noturnos, piorando a qualidade do descanso a médio e longo prazo.

Parar de beber não transforma o sono imediatamente em algo perfeito. Muitas pessoas passam por um período de insônia de rebote. Mas, com o tempo, o corpo começa a reaprender a dormir sem anestesia. E isso tem efeitos diretos sobre o humor, a ansiedade, a capacidade de concentração e a regulação emocional.

Dormir melhor não resolve a vida, mas torna a vida possível. Um corpo exausto sustenta menos angústia, menos frustração, menos escolhas conscientes. Dormir de verdade é uma microvitória silenciosa que sustenta todas as outras.

 

MICROVITÓRIA 3: SENTIR — E SOBREVIVER AO QUE SE SENTE

Talvez uma das mudanças mais assustadoras ao parar de beber seja o retorno das emoções em estado bruto. O álcool funciona como modulador artificial do afeto. Sem ele, sentimentos antigos reaparecem: tristeza, raiva, vazio, medo. Muitos interpretam isso como sinal de fracasso. Não é.

Do ponto de vista clínico, sentir mais não significa estar pior. Significa estar menos anestesiado. A OMS aponta que o uso prolongado de álcool está associado a maior prevalência de transtornos depressivos e ansiosos. Parar de beber não cria esses estados; muitas vezes, apenas os revela.

A microvitória aqui é sobreviver ao sentir. Descobrir, aos poucos, que nenhuma emoção — por mais intensa — mata. Que a angústia sobe, atinge um pico e desce. Que não é preciso apagá-la para continuar vivo. Esse aprendizado é profundamente transformador, porque devolve confiança na própria capacidade de atravessar a experiência humana.

 

MICROVITÓRIA 4: RECUPERAR A RELAÇÃO COM A PRÓPRIA PALAVRA

O alcoolismo corrói algo essencial: a confiança na própria palavra. Promessas não cumpridas, combinados quebrados, “só hoje” que vira “de novo”. Com o tempo, o sujeito passa a não acreditar mais em si mesmo. Isso produz uma ferida narcísica profunda.

Parar de beber não repara essa confiança de imediato. Mas permite algo novo: alinhar palavra e ato em pequenas escalas. Não beber hoje. Chegar onde disse que chegaria. Ir embora quando combinou ir. Essas ações parecem banais, mas têm efeito estruturante.

Na psicanálise, a possibilidade de sustentar a própria palavra está ligada à constituição do sujeito ético. Cada pequena coerência entre o que se diz e o que se faz é uma microvitória que reconstrói a dignidade interna — aquela que não depende do olhar do outro.

 

MICROVITÓRIA 5: TEMPO — E O QUE SE FAZ COM ELE

O álcool ocupa tempo. Não apenas o tempo do consumo, mas o tempo da recuperação, da ressaca, da reorganização do caos. Quando se para de beber, surge um vazio temporal. Para alguns, isso assusta mais do que a própria abstinência.

Mas, aos poucos, o tempo deixa de ser algo a ser matado e passa a ser algo a ser habitado. Não se trata de produtividade. Trata-se de presença. Ler algumas páginas. Caminhar sem destino. Cozinhar. Ficar em silêncio. Pequenas atividades que não servem para nada além de existir.

Do ponto de vista existencial, isso é central. Como escreveu Albert Camus, “o verdadeiro problema filosófico é o suicídio” — ou seja, a pergunta sobre se a vida vale a pena ser vivida. Cada microvitória cotidiana é uma resposta prática a essa pergunta.

 

MICROVITÓRIA 6: DINHEIRO NÃO COMO CULPA, MAS COMO RECURSO

Outro ganho concreto, frequentemente acompanhado de ambivalência, é o financeiro. Parar de beber reduz gastos diretos e indiretos. Segundo dados da OMS, o álcool gera custos significativos não apenas para sistemas de saúde, mas para indivíduos e famílias, incluindo perdas de produtividade e despesas médicas.

No início, o dinheiro que sobra pode provocar culpa: “quanto eu desperdicei?”. Com o tempo, ele pode se tornar recurso. Não para compensar o passado, mas para sustentar o presente: terapia, alimentação melhor, moradia mais segura, experiências que não giram em torno do álcool.

Essa microvitória não é sobre acumular. É sobre escolher.

 

MICROVITÓRIA 7: UMA NOVA RELAÇÃO COM A PRÓPRIA HISTÓRIA

Parar de beber não apaga o passado. Mas muda a forma de se relacionar com ele. A culpa crônica tende a congelar o sujeito naquilo que ele foi. A responsabilidade, ao contrário, permite integração.

Ultrapassar a culpa não é se declarar inocente. É deixar de viver como réu permanente. É reconhecer danos, aprender com eles e não transformar o erro em identidade. Esse deslocamento é decisivo para a manutenção da sobriedade no longo prazo.

 

SOBRIEDADE NÃO É PRÊMIO. É PROCESSO.

As microvitórias não fazem barulho. Não rendem aplausos. Mas são elas que sustentam a travessia. A sobriedade não é um estado ideal a ser alcançado, mas um processo vivo, imperfeito e profundamente humano.

O que se ganha ao parar de beber não é uma vida sem dor. É uma vida em que a dor não precisa mais ser anestesiada para ser suportável.

E isso, embora discreto, muda tudo.


Rafa Pessato

Embriague de si

rafapessato.eu

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