O álcool não é só uma bebida. Ele é uma companhia, um consolo, uma fuga.
Mas também é um espelho, refletindo aquilo que a sociedade — e muitas vezes nós mesmos — sentimos, julgamos e projetamos.
Quem bebe, cedo ou tarde, se depara com frases que atravessam a vida:
- “É só saber beber.”
- “Bebe, você merece.”
- “Você precisa se controlar.”
- “Bebe só uma.”
- “Você é egoísta.”
Para quem convive com o alcoolismo, essas palavras não são neutras.
Elas podem carregar significados diversos, como julgamento, expectativa e pressão social.
Mas também, quando ressignificadas, podem se tornar pontos de reflexão sobre autonomia, desejo, responsabilidade e liberdade.
“É SÓ SABER BEBER”
Todo alcoolista possivelmente já ouviu isso: “Você só precisa saber beber”.
É uma frase que soa quase como conselho, mas traz uma ilusão perigosa.
Do ponto de vista psicanalítico, essa frase negocia a culpa e projeta responsabilidade sobre o sujeito.
Ela sugere que beber em excesso é uma escolha moral, e não uma doença, quando o alcoolismo — segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) — envolve perda de controle, tolerância e abstinência.
Ressignificar essa frase é entender: não existe “saber beber” quando há dependência química.
O que existe é reconhecimento dos limites, consciência sobre os gatilhos e desenvolvimento de estratégias de cuidado.
O alcoolista pode, sim, aprender a modular comportamentos, mas a frase original minimiza a complexidade do que se passa no corpo e na mente.
“BEBE, VOCÊ MERECE”
O merecimento é um conceito sedutor.
Ele ecoa promessas de recompensa e alívio, reforçando a ideia de que o álcool é um prêmio por esforço, sofrimento ou dificuldade.
Mas sob o olhar existencialista, a frase revela algo ainda mais profundo: ela projeta a falta de sentido no exterior.
O “merecer” não está dentro, mas fora de nós — no álcool, no trago, no copo.
É um deslocamento da responsabilidade emocional, como se a vida só pudesse ser suportável se intoxicada.
Ressignificar significa resgatar a autorresponsabilidade:
- identificar o que realmente é merecimento
- perceber que a satisfação duradoura não vem do álcool
- redirecionar o cuidado e a recompensa para si mesmo
Estudos sobre comportamento de dependência mostram que a busca por recompensa externa — como o álcool — reforça o ciclo de consumo e aumenta o risco de recaídas (NIAAA, 2020).
“VOCÊ PRECISA SE CONTROLAR”
Essa é uma das frases mais carregadas de julgamento. Pois ela sugere que a vontade de beber é fruto de falha moral ou falta de disciplina.
Psicanaliticamente, toca a ferida do superego: a internalização de regras externas, censura e culpa.
O alcoolista ouve: “Você precisa se controlar” — e sente a pressão de uma impossibilidade, pois o alcoolismo não é só falta de controle consciente, mas uma condição neuroquímica e comportamental complexa.
Ressignificar é aceitar o seguinte:
- controle absoluto sobre o álcool não é realista quando há dependência
- é possível desenvolver autonomia prática e emocional
- a frase pode ser traduzida para “como posso cuidar de mim e diminuir os danos?”
Ou seja, não é sobre vergonha, mas sobre ação consciente.
“BEBE SÓ UMA”
O clássico “uma não faz mal” carrega o mesmo efeito ilusório: o primeiro trago ativa memórias de prazer e recompensa química, aumentando a probabilidade de exagero.
Do ponto de vista neurocientífico:
- cada dose ativa dopamina e endorfina
- a tolerância e os gatilhos emocionais permanecem
- o corpo e a mente ainda buscam o efeito químico
Existem estudos que mostram que mesmo pequenas doses podem reativar circuitos de recompensa do vício (Koob, 2021; NIAAA).
Ressignificar significa:
- perceber que uma dose pode ser o começo de perda de controle
- traduzir a frase em alerta, não convite
- criar estratégias práticas de prevenção, como planejar respostas a convites sociais e redefinir rotinas
“VOCÊ É EGOÍSTA”
Essa é a frase que mais dói. Ela mistura julgamento moral, culpa e incompreensão social.
O alcoolista escuta: “você é egoísta” — quando, muitas vezes, beber é uma tentativa de sobreviver a pressões internas ou externas.
Do ponto de vista existencial, essa acusação toca o medo de não ser aceito e a sensação de isolamento.
Ressignificar é perceber:
- o consumo não é sobre egoísmo, mas sobre tentativa de autopreservação
- a crítica externa não define a moralidade do sujeito
- há espaço para se responsabilizar, mas sem autojulgamento destrutivo
Psicanálise aponta que a culpa e a vergonha podem ser transformadas em auto-observação e insight, ferramentas essenciais para a sobriedade.
A ARTE DE RESIGNIFICAR
Todas essas frases têm algo em comum: são projetadas sobre o alcoolista, não para ele. Elas carregam moralidade, expectativas sociais, ideias de prazer e medo.
Ressignificar é trabalhar com elas internamente, transformando críticas e conselhos em observações neutras, oportunidades de reflexão e passos práticos para cuidar de si mesmo.
- “É só saber beber” → reconhecer limites e desenvolver autoconsciência
- “Bebe, você merece” → compreender satisfação e recompensa verdadeiras
- “Você precisa se controlar” → agir com autonomia e estratégia
- “Bebe só uma” → identificar gatilhos e antecipar riscos
- “Você é egoísta” → distinguir culpa externa de responsabilidade interna
POR QUE ISSO IMPORTA
O alcoolista vive entre o excesso da bebida e o excesso de julgamento social.
Cada frase ou conselho bem-intencionado, mas mal direcionado, pode reforçar ciclo de culpa, vergonha e recaída.
Ao ressignificar, ele passa a:
- perceber o que é do álcool e o que é projeção social
- desenvolver autonomia emocional
- transformar mensagens externas em insight interno
O alcoolismo é uma doença, mas o autoconhecimento e a reflexão psicanalítica e existencial são ferramentas de cuidado e liberdade.
A IMPORTÂNCIA DE RESSIGNIFICAR
Frases que atravessam a vida de quem bebe podem machucar, confundir ou iluminar — dependendo de como são lidas.
Ressignificá-las não é ignorar os riscos ou a realidade do alcoolismo.
É reorganizar a relação com o álcool e consigo mesmo, reconhecendo limites, desejos e responsabilidade.
Ao final, a mensagem é clara: não se trata de vergonha ou culpa, mas de consciência e cuidado.
O alcoolista aprende que o que importa não é o que os outros dizem, mas como ele decide se relacionar com o próprio desejo e o próprio corpo.
Rafa Pessato
Embriague-se de si
rafapessato.eu













