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EQUILÍBRIO OU DESCULPA?Quando o “meio termo” vira argumento paracontinuar bebendo

Quantas vezes você já pensou — ou ouviu alguém dizer — algo como: “Tudo na vida precisa de equilíbrio”?

A frase parece sensata. Quase filosófica. Serve para alimentação, trabalho, exercícios, descanso. Mas quando o assunto é álcool, ela também pode ser aplicada?

Talvez você já tenha se pego fazendo um cálculo silencioso:

“Eu não bebo todo dia.”

“Eu só bebo no fim de semana.”

“Eu consigo parar quando quero.”

“Eu só preciso encontrar o meio termo.”

Essas frases costumam aparecer exatamente quando algo dentro de nós começa a suspeitar que a relação com a bebida não está tão simples quanto parecia.

É curioso: quando alguém sente que está bebendo demais, raramente se pergunta de imediato “sou alcoolista?”. A pergunta costuma ser outra — mais diplomática, mais confortável:

“Será que eu só preciso encontrar equilíbrio?”

Mas existe uma possibilidade incômoda escondida dentro dessa ideia aparentemente razoável: e se o discurso do equilíbrio estiver funcionando apenas como uma forma elegante de manter a dependência?

O MITO DO CONTROLE ABSOLUTO

Grande parte da cultura contemporânea insiste na ideia de que o segredo está no equilíbrio.

O raciocínio parece lógico: se o excesso faz mal, basta moderar.

Mas o alcoolismo não é simplesmente um problema de quantidade, pois é considerado uma doença crônica multifatorial. Ele envolve também perda de controle sobre o consumo.

O National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA) descreve o Transtorno por Uso de Álcool como uma condição caracterizada por:

  • dificuldade em controlar o consumo
  • desejo intenso de beber
  • aumento da tolerância
  • sintomas de abstinência
  • persistência do uso apesar das consequências negativas

Ou seja, o problema não está apenas no quanto se bebe, mas no papel que o álcool passa a desempenhar na vida da pessoa.

É aqui que a ideia de equilíbrio começa a se tornar ambígua. Para algumas pessoas, equilíbrio é possível. Para outras, ele se torna uma negociação interminável.

 

NEGAR PARA CONTINUAR

A psicanálise tem uma palavra interessante para esse tipo de processo: negação.

Freud descreveu a negação como um mecanismo de defesa que permite ao sujeito reconhecer parcialmente uma realidade incômoda sem aceitá-la completamente.

É como se a mente dissesse:

“Eu sei, mas prefiro fingir que não.”

No contexto do álcool, a negação pode assumir muitas formas sutis.

Não é necessariamente negar que se bebe muito. Às vezes é apenas mudar o foco da conversa:

“Todo mundo bebe.”

“Meu trabalho é estressante.”

“Eu mereço…”

A negação não é mentira deliberada. Ela é uma estratégia psíquica para reduzir ansiedade.

Reconhecer um problema implica mudança. E mudança assusta.

 

RACIONALIZAÇÃO: A ARTE DE JUSTIFICAR

Outro mecanismo de defesa frequentemente associado à dependência é a racionalização.

Racionalizar significa criar explicações aparentemente lógicas para comportamentos que, no fundo, têm outra motivação.

A pessoa não bebe porque precisa beber — ela bebe porque encontrou uma justificativa convincente.

“Hoje foi um dia difícil.”

“Eu só estou comemorando.”

“Eu preciso relaxar.”

Essas explicações não são completamente falsas. Mas muitas vezes não são a verdadeira razão.

A racionalização funciona como um advogado interno que defende o comportamento diante do tribunal da própria consciência.

 

A FUNÇÃO PSÍQUICA DO ÁLCOOL

Do ponto de vista psicanalítico, o álcool pode desempenhar várias funções psíquicas.

Pode aliviar ansiedade.

Pode reduzir inibição social.

Pode amortecer tristeza.

Pode oferecer uma sensação temporária de pertencimento.

Em termos neuroquímicos, isso acontece porque o álcool aumenta a atividade do neurotransmissor GABA, que tem efeito inibitório no sistema nervoso central, e reduz a atividade do glutamato, que tem efeito excitador.

Essa combinação gera relaxamento e desinibição.

Estudos publicados em bases científicas como PubMed Central (pmc.ncbi.nlm.nih.gov) mostram que o álcool também aumenta a liberação de dopamina, neurotransmissor associado ao sistema de recompensa do cérebro.

O problema é que o cérebro aprende rapidamente.

Quando uma substância reduz sofrimento emocional, ela tende a ser repetida.

 

QUANDO O “MEIO TERMO” VIRA ESTRATÉGIA DE NEGOCIAÇÃO

Muitas pessoas passam anos tentando encontrar um meio termo com o álcool.

Criam regras pessoais:

“Só no fim de semana.”

“Só duas taças.”

“Só em ocasiões especiais.”

Essas regras podem funcionar temporariamente. Mas em alguns casos elas se transformam em um sistema de negociação constante.

Cada exceção cria uma nova exceção.

O meio termo vira um campo de batalha interno.

 

A PERGUNTA EXISTENCIAL

Sartre dizia que o ser humano está condenado à liberdade — mesmo quando prefere acreditar que não tem escolha.

Nesse sentido, a questão não é apenas quanto se bebe, mas porque se bebe.

O álcool está ali como celebração?

Como companhia?

Ou como anestesia?

A resposta não é simples.

Mas é importante.

 

O QUE A CULTURA NÃO GOSTA DE DISCUTIR

Vivemos em uma cultura que celebra o álcool.

Brindes marcam encontros.

Festas giram em torno da bebida.

Comemorações incluem álcool quase automaticamente.

Essa normalização dificulta reconhecer quando o consumo começa a ultrapassar limites pessoais.

O Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) aponta que o consumo socialmente incentivado pode mascarar padrões problemáticos de uso.

O sujeito não percebe o problema porque todos ao redor parecem fazer o mesmo.

 

EQUILÍBRIO OU AUTOENGANO?

A ideia de equilíbrio é sedutora.

Ela permite continuar bebendo sem confrontar a possibilidade de parar.

Mas existe uma pergunta simples que pode ajudar a distinguir equilíbrio de autoengano:

O álcool ocupa mais espaço na minha vida do que eu gostaria?

Se a resposta for sim, talvez o problema não seja apenas quantidade.

Talvez seja relação.

 

ENTRE A NEGAÇÃO E A CONSCIÊNCIA

A consciência raramente chega de forma dramática. Na maioria das vezes, ela aparece como uma inquietação discreta. Uma sensação de que algo não está exatamente no lugar.

Talvez seja isso que faz alguém começar a ler um texto como este. Não necessariamente porque já decidiu parar de beber. Mas porque começou a se perguntar. E a pergunta importa.

Equilíbrio pode ser uma estratégia legítima para algumas pessoas. Mas também pode se tornar uma justificativa sofisticada para evitar mudanças mais profundas.

A diferença entre uma coisa e outra raramente está apenas na quantidade de álcool no copo. Está na honestidade com que cada pessoa olha para a própria relação com a bebida.

Se você começou a se perguntar se está bebendo demais, talvez essa pergunta já seja um sinal importante.

Nem sempre a consciência resolve o problema imediatamente. Mas quase sempre é o primeiro passo para enxergá-lo.


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

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