Home / DESPERTAR / DORMIR APAGADO PELO ÁLCOOL DEFINITIVAMENTE NÃO É O MESMO QUE DORMIR BEM

DORMIR APAGADO PELO ÁLCOOL DEFINITIVAMENTE NÃO É O MESMO QUE DORMIR BEM

Para muita gente, o álcool não é exatamente sobre festa, euforia ou excesso.

É sobre sono.

Um copo para “relaxar”.

Dois para “desligar a cabeça”.

Três para “finalmente dormir”.

E, de fato, o corpo apaga.

Mas apagar não é descansar.

Apagar não é reparar.

Apagar não é dormir bem.

A ciência do sono é clara: o álcool até induz o início do sono, mas destrói sua arquitetura ao longo da noite. Ainda assim, milhões de pessoas seguem usando a bebida como um “remédio” noturno improvisado, muitas vezes sem se reconhecer como alcoolistas, apenas como alguém cansado demais para ficar acordado dentro da própria mente.

Este texto é para quem bebe não para viver mais, mas para aguentar o dia seguinte.

Para quem dorme apagado, mas acorda pior.

Para quem confunde sedação com descanso — porque nunca mais experimentou o que é dormir de verdade.

 

O QUE A CIÊNCIA CHAMA DE SONO — E POR QUE O ÁLCOOL ATRAPALHA TUDO

Dormir bem não é apenas fechar os olhos por algumas horas. O sono é um processo neurofisiológico ativo, dividido em ciclos que se repetem ao longo da noite.

Segundo a American Academia Americana de Medicina do Sono (AASM) e o Instituto Nacional sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo (NIAAA), o sono saudável é composto por:

  • Sono NREM leve (estágios 1 e 2)
  • Sono NREM profundo (estágio 3, também chamado de sono de ondas lentas)
  • Sono REM (associado à memória emocional, criatividade e regulação do humor)

O álcool interfere diretamente nesses ciclos.

Estudos clássicos e atuais mostram que o álcool:

  • Aumenta artificialmente o sono profundo no início da noite
  • Suprime o sono REM
  • Fragmenta o sono na segunda metade da madrugada
  • Aumenta despertares precoces
  • Eleva a atividade do sistema nervoso simpático durante a noite

Ou seja: o corpo até cai rápido, mas não percorre o caminho completo do descanso.

Essa dinâmica está descrita em revisões sistemáticas publicadas em periódicos como Sleep Medicine Reviews e Alcohol Research: Current Reviews (He et al., 2019; NIAAA, 2021).

 

POR QUE O ÁLCOOL “FUNCIONA” NO COMEÇO — E POR QUE ISSO É UMA ARMADILHA

Do ponto de vista neuroquímico, o álcool é um depressor do sistema nervoso central. Ele atua principalmente em dois sistemas:

  1. Aumenta a ação do GABA, neurotransmissor inibitório ligado à sedação e ao relaxamento
  2. Reduz a atividade do glutamato, neurotransmissor excitatório

O resultado subjetivo é conhecido:

  • Pensamentos desaceleram
  • A ansiedade diminui
  • O corpo relaxa
  • O sono chega rápido

O problema é o que acontece depois.

O cérebro busca equilíbrio. Quando o álcool começa a ser metabolizado, ocorre um efeito rebote:

  • A atividade glutamatérgica aumenta
  • O sistema de alerta se reativa
  • A frequência cardíaca sobe
  • O sono fica leve e fragmentado

É por isso que tantas pessoas:

  • Acordam às 3 ou 4 da manhã
  • Sentem o coração acelerado
  • Têm sonhos estranhos ou pesadelos
  • Acordam mais cansadas do que quando deitaram

A curto prazo, parece um “truque” que funciona.

A médio prazo, vira dependência.

A longo prazo, vira exaustão crônica.

 

O CORPO NÃO ESQUECE: ONDE ESSE “SONO QUE NÃO DESCANSA” TOCA

O cansaço de quem dorme sob efeito do álcool não é apenas “psicológico”. Ele se manifesta em territórios específicos do corpo e da mente.

 

1. SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO EM ALERTA

Pesquisas mostram que o álcool reduz a variabilidade da frequência cardíaca durante o sono — um marcador importante de recuperação do sistema nervoso parassimpático (Thayer et al., 2010).

Traduzindo:

O corpo não entra em modo de reparo profundo.

 

2. EIXO DO ESTRESSE DESREGULADO

O álcool interfere no eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), elevando níveis de cortisol noturno (Roehrs & Roth, 2018).

Resultado:

  • Sono não restaurador
  • Sensação de “acordar já cansado”
  • Maior irritabilidade durante o dia

 

3. MEMÓRIA EMOCIONAL PREJUDICADA

A supressão do sono REM impacta diretamente a capacidade do cérebro de processar emoções. Isso está associado a:

  • Maior ansiedade basal (ou ansiedade básica)
  • Humor deprimido
  • Menor tolerância ao estresse

Ou seja: beber para dormir aumenta exatamente o mal-estar emocional que leva a beber.

 

“MAS SEM ÁLCOOL EU NÃO DURMO” — O QUE ISSO REALMENTE SIGNIFICA

Essa frase é muito repetida em consultórios, grupos de apoio e conversas íntimas.

Do ponto de vista clínico, ela não significa incapacidade de dormir.

Significa dependência neuroadaptativa.

O cérebro passou a:

  • Associar álcool a desligamento
  • Perder a confiança na própria capacidade de entrar em repouso
  • Confundir sedação com sono

Nos primeiros dias ou semanas sem álcool, é comum ocorrer:

  • Insônia de rebote
  • Sono fragmentado
  • Dificuldade para pegar no sono
  • Sonhos intensos

Isso não é falha.

É reaprendizado neurobiológico.

Segundo o DSM-5-TR e revisões clínicas da Harvard Medical School, o sono começa a se reorganizar progressivamente entre 2 e 6 semanas após a interrupção do álcool, com melhora contínua ao longo dos meses.

DO PONTO DE VISTA EXISTENCIAL: O QUE VOCÊ ESTÁ EVITANDO ENCONTRAR QUANDO APAGA?

A psicanálise e a clínica existencial apontam algo fundamental:

o momento de dormir é o momento em que não há mais distrações.

Sem álcool:

  • Pensamentos aparecem
  • Emoções emergem
  • O corpo fala
  • A vida pede escuta

Apagar pelo álcool é, muitas vezes, uma forma de não ficar a sós consigo.

Não por fraqueza.

Mas por excesso de peso interno.

O álcool vira um atalho para não sentir:

  • Solidão
  • Medo
  • Culpa
  • Vazio
  • Angústia sem nome

Dormir bem, nesse sentido, não é apenas um ajuste fisiológico.

É um ato de reconciliação com a própria presença.

 

O QUE MUDA QUANDO O SONO COMEÇA A VOLTAR DE VERDADE

Relatos clínicos e estudos longitudinais mostram que, após a fase inicial sem álcool, o sono tende a:

  • Se tornar mais profundo
  • Ter ciclos REM mais longos
  • Produzir despertares mais claros
  • Reduzir a ansiedade diurna
  • Melhorar a regulação emocional

Muitos ex-bebedores relatam algo surpreendente:

“Eu achava que dormia antes. Agora eu descanso.”

Dormir bem não resolve a vida.

Mas devolve chão, devolve base.

E com chão firme, dá para escolher caminhos novos.

 

APAGAR É DESISTIR DO CORPO. DORMIR É VOLTAR PARA ELE

Se você bebe para dormir, talvez o problema nunca tenha sido falta de sono.

Talvez tenha sido excesso de cansaço de existir.

O álcool não ensina a descansar.

Ensina a fugir.

Dormir bem é aprender, pouco a pouco, a ficar.

No corpo.

Na noite.

Em si.

E isso não é fácil.

Mas é profundamente libertador.


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

Marcado: