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DESEJOS POSSÍVEIS NUMA VIDA SÓBRIA. Quantos sonhos você já trocou por um gole?

Há uma pergunta que raramente é feita de maneira direta, talvez porque doa demais encará-la sem anestesia: quantos sonhos você já trocou por um gole? Não estou falando apenas de grandes projetos abandonados ou metas que ficaram no papel. Falo também dos pequenos desejos — aqueles quase silenciosos — que foram sendo adiados, diminuídos, negociados em nome de mais uma noite, mais um brinde, mais um “só hoje”.

O álcool raramente se apresenta como inimigo no início. Ele entra como companhia, celebração, descompressão. Parece ampliar possibilidades, facilitar encontros, aliviar tensões. Mas, de maneira quase imperceptível, começa a estreitar horizontes. A vida passa a girar em torno da próxima ocasião de beber. A energia psíquica, que poderia estar investida em criar, aprender, construir ou transformar, passa a ser investida em manter um ciclo. E o ciclo exige tempo, dinheiro, foco e, principalmente, disponibilidade interna.

 

O SEQUESTRO DO DESEJO

Sob a perspectiva psicanalítica, o desejo é força vital. É aquilo que nos move para além da sobrevivência básica. Desejar é sair da inércia. É apostar em algo que ainda não existe. Mas o desejo precisa de espaço para se organizar e maturar.

Quando uma substância (ou comportamento adicto) passa a ocupar lugar central na mente, ela reorganiza prioridades. O prazer imediato ganha primazia sobre o projeto a longo prazo. O alívio momentâneo vence o desconforto necessário para crescer. E o que antes era impulso criativo vai sendo substituído por repetição.

Não se trata de demonizar o prazer. O problema não é desejar prazer; é reduzir o desejo a uma única via de satisfação. Quando o gole substitui a conversa difícil que poderia amadurecer uma relação. Quando a bebida substitui o curso que você queria começar, mas “nunca tinha tempo”. Quando a noite termina antes que o livro seja aberto, antes que o projeto seja iniciado, antes que o cuidado consigo aconteça.

O álcool pode funcionar como um adiador crônico. Ele promete alívio hoje e cobra clareza amanhã. E amanhã chega com ressaca — física, emocional ou moral. A disciplina que seria usada para construir vira energia usada para se recuperar.

 

ESCOLHAS, RENÚNCIAS E RESPONSABILIDADE

Existencialmente falando, somos feitos de escolhas. E toda escolha implica renúncia. Não escolher também é uma escolha. Ao escolher beber repetidamente, talvez sem perceber, você pode ter renunciado a outras possibilidades. Não por incapacidade, mas por desvio de foco. A energia é finita. O tempo também.

Essa constatação pode doer. Pode despertar arrependimento. Mas é importante não transformar essa reflexão em culpa paralisante. A pergunta não serve para condenar o passado. Serve para iluminar o presente.

Quantas oportunidades foram adiadas?

Quantas decisões foram tomadas sob efeito?

Quantas manhãs começaram com culpa em vez de propósito?

Olhar para isso é um ato de maturidade. É reconhecer que houve trocas — e que ainda há escolhas disponíveis.

 

O VAZIO QUE ABRE ESPAÇO

Quando o álcool sai do centro da vida, surge um vazio. Muitos relatam essa sensação nos primeiros meses de sobriedade: uma espécie de silêncio estranho, como se algo estivesse faltando. Esse vazio assusta porque antes ele era rapidamente preenchido.

Mas vazio não é apenas ausência. É espaço.

E espaço é condição para que novos desejos apareçam.

Durante anos, talvez décadas, o circuito do prazer foi direcionado quase exclusivamente à bebida. O cérebro, acostumado à recompensa rápida, precisa reaprender a se interessar por conquistas mais lentas. Esse reaprendizado exige paciência. Exige tolerância à frustração.

Desejos profundos raramente gritam. Eles sussurram. E só podem ser ouvidos quando há silêncio suficiente. A sobriedade cria esse silêncio — não um silêncio estéril, mas fértil.

“Para decidir isso devíamos abrir em nosso cotidiano um espaço de recolhimento, observação, auto-observação. É preciso o silêncio ativo de quem pensa”.
(Lya Luft – Perdas e Ganhos)

 

O MEDO DE TENTAR DE VERDADE

Existe também uma dimensão identitária nessa equação. Quando alguém bebe por muitos anos, pode começar a se definir a partir disso — socialmente, emocionalmente. “Eu sou assim.” “Eu não levo a vida tão a sério.” “Eu sempre fui festeiro.”

Às vezes essa narrativa encobre medos mais profundos: medo de tentar e falhar, medo de se comprometer com algo grande demais, medo de descobrir que o sonho talvez exija mais disciplina do que se imaginava.

O álcool pode suavizar esses medos temporariamente. Mas também impede que sejam enfrentados. Parar de beber expõe essas camadas. Sem anestesia, os receios aparecem mais nítidos. E é aqui que muitos confundem desconforto com incapacidade.

Não é que você não tenha sonhos. Talvez você só esteja reaprendendo a suportar o desconforto necessário para persegui-los.

 

SOBRIEDADE COMO RECUPERAÇÃO DE COERÊNCIA

Sobriedade não garante a realização automática de sonhos. Não é fórmula mágica. Mas ela devolve algo essencial: coerência entre intenção e ação. Quando você acorda lúcido, começa a poder confiar em si mesmo novamente. E confiança é base para ousar desejar.

Do ponto de vista psicanalítico, desejar implica suportar frustração. Implica aceitar que nem tudo será imediato. O álcool, muitas vezes, dribla essa frustração oferecendo satisfação rápida. Mas essa satisfação é curta e exige repetição constante.

O desejo verdadeiro — aquele que constrói identidade — exige tempo, continuidade e presença.

A vida sóbria pode parecer mais exigente porque não oferece atalhos químicos para lidar com a ansiedade do processo. Mas ela é mais ampla. Mais inteira. Mais alinhada com quem você pode se tornar.

 

QUANTOS AINDA ESTÃO DISPONÍVEIS?

Quantos sonhos você já trocou por um gole (ou outra substância ou comportamento adicto)? Talvez muitos. Talvez alguns. Talvez você nem saiba nomeá-los ainda.

Mas a pergunta mais importante é: quantos ainda estão disponíveis?

Talvez você tenha sonhado em mudar de carreira. Em viajar. Em estudar algo novo. Em reconstruir vínculos familiares. Em escrever, pintar, correr, aprender um idioma. Quantas vezes essas ideias foram deixadas para “quando eu estiver melhor”? E esse “melhor” nunca chegava porque o ciclo se repetia?

A sobriedade devolve a chance de redirecionar energia. De investir tempo em algo que não desaparece na manhã seguinte. De experimentar satisfação que não depende de anestesia.

Talvez o maior desejo possível numa vida sóbria seja este: tornar-se alguém em quem você confia. Alguém que faz planos e comparece. Alguém que suporta frustração sem fugir. Alguém que pode brindar — não com álcool — mas com presença.

Se você pudesse redirecionar toda a energia que já foi investida na bebida para um único projeto, qual seria? Que tipo de vida começaria a se desenhar?

A sobriedade não tira sonhos. Ela devolve a possibilidade de persegui-los com lucidez.

E talvez, no fim, a pergunta não seja apenas quantos sonhos você trocou por um gole.

Mas quantos você está disposto a resgatar agora.


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

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