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“BEBI, E AGORA?” Como se recompor no dia seguinte ao deslize

Há um resíduo na boca, um vazio no peito, e o espelho devolve um rosto úmido de culpa. Você sussurra: “Bebi. Eu fiz de novo.” O mundo inteiro — ou pelo menos dentro de você — parece desabar num torvelinho de vergonha, arrependimento, autopunição. Mas esse não precisa ser o fim da linha. Há um caminho para a sobriedade reascendida, mesmo após o tropeço.

 

O AMANHECER DA QUEDA — RECONHECER SEM AFOGAR-SE

A noite foi um planeta à parte. Talvez você tenha prometido: “Só mais um.” Ou “Hoje não vai acontecer.” Mas o álcool, esse sopro de esquecimento, se fez ponte entre ímpar e ímpar de falhas. Quando despertou, na ressaca moral, o corpo se queixa com tremores, o estômago revolta-se e a mente grita acusações.

Você sente culpado. A culpa é um fantasma feroz: cresce no silêncio, estrangula a esperança, cobertura escura sobre cada pensamento. Mas lembre: culpar-se em excesso é recair no mesmo vício — o vício da autosabotagem. Você não precisa fazer do deslize um crime eterno. Reconhecer sem se afundar.

Nesse momento, há duas vozes dentro de você: a voz do julgamento (“Você fracassou”) e a voz da compaixão (“Você caiu, mas pode se reerguer”). Cultivar atenção à voz compassiva é um gesto de rebelião — contra a tirania do erro perpetuado.

Pense no deslize como uma estação no caminho, não como o destino final. A dependência nos ensina que o caminho não é linear: há curvas, descidas, momentos de penumbra. A recaída não anula tudo o que você construiu — não, se você souber retomar com presença.

 

OS LABIRINTOS INTERNOS E OS GATILHOS EMOCIONAIS

O que levou você a beber, desta vez? Não é raro que o álcool surja como anestésico para feridas que não queríamos ver: a solidão, a insatisfação, o vazio de sentido, o tédio, o fluxo intenso de emoções sem válvula de escape. São os “gatilhos emocionais” — nomes frios para dor viva.

Talvez alguém te magoou. Ou talvez você sentiu um buraco interno, uma inquietude que sussurrava: “Você não é suficiente.” O álcool ofereceu uma ilusão de fuga, de calor momentâneo, de alívio. Mas a dependência nunca silencia a fonte — só a insufla ainda mais.

Por isso, é urgente escavar: em que momento surgiu o desejo? Quais memórias vieram? Que sensação permeara seu corpo? Observá-las como uma testemunha interna — sem se identificar, sem se julgar — é ação de coragem. Você permite que o choro ou a cólera passem, sem reprimi-los. Você consente que o corpo fale em lágrimas, em ruídos, em silêncio.

Lá, nas crateras da alma, reside o material que precisa ser transmutado. Você não vai vencer a dependência se não encarar a escuridão interna, como quem planta uma semente no solo mais profundo.

 

TRAJETOS DE REERGUIMENTO: OS PASSOS INVISÍVEIS

Não quero te dar um roteiro rígido — sempre que isso é feito, o ser humano se sente prisioneiro. Mas quero mostrar luzes tênues que podem servir de bússola. Use-as como sugestões, não imposições. Adapte-as, transforme-as, sinta-as:

  1. Respirar e acolher o hoje

Respire fundo. Traga seu foco para o momento presente. Sinta o corpo: onde está o peso? Quais nós no peito? Quanto espaço há para acalmar? Trazer a atenção para o agora — com lentidão — ajuda a reduzir o turbilhão mental da culpa.

  1. Escrever — verso ou prosa

Ponha no papel (ou no celular) o que pulsa em você: medos, arrependimentos, esperanças. Não se censure. Não precisa ser bonito. Basta ser verdadeiro. A escrita é ponte entre o inconsciente e a consciência.

  1. Falar com alguém que ouve de verdade

Um amigo de confiança, um terapeuta, um grupo de apoio. Às vezes, só pronunciar a queda em voz alta é retomar seu protagonismo. O sussurro tem poder. A solidão que parte em companhia.

  1. Entrar no corpo através do movimento

Caminhar, dançar, alongar, respirar profundamente. Descer até o físico faz com que a mente solte parte da tensão. Movimento é tradução da dor e da cura.

  1. Recordar seus “porquês”

Por que você deseja sobriedade? Para reconquistar a clareza? Para não agredir quem ama? Para ouvir sua própria voz sem nuvens? Trazê-los à luz — não como peso, mas como astros-guia — reacende o sentido.

  1. Criar ritual simbólico de reinício

Pode ser escrever uma carta a si mesmo, queimar no fogo (com cautela) símbolos do deslize, banhar-se com intenção, plantar uma muda. O ritual dá contorno à transição: do erro à retomada.

  1. Perdoar-se progressivamente

O perdão não é licença para beber mais, mas libertação da prisão mental do erro. Você pode fazer um “diálogo interno”: dizer a si mesmo palavras como: “Eu sou humano. Eu falhei. Posso recomeçar.” Pouco a pouco, a autocrítica feroz deve ceder lugar ao cuidado.

  1. Manter vigilância, não obsessão

Reconheça: o golpe da dependência está na obsessão do controle. Em vez de “me culparei para nunca mais repetir”, use: “Estarei vigilante amanhã, com gentileza comigo”. A vigilância consciente — sem autoextinção — sustenta o caminho.

 

AS METÁFORAS QUE SALVAM — DA TRAGÉDIA À TECELAGEM

Imagine-se como uma ponte de corda, feita de fibras frágeis, que às vezes sofre trincas. O deslize é uma fenda que se abre. Em vez de abandoná-la, você entra por ela, costura os fios rompidos com paciência e afeto. Com o tempo, a ponte se torna mais sólida — não pela rigidez, mas pela resiliência das emendas.

Ou pense numa árvore na beira do precipício: os ventos arrancaram galhos e folhas. Mas ela permanece firme nas raízes. O deslize é folha que tombou; você é tronco que resiste. E pode brotar de novo, com novas folhas.

A dependência é um rio subterrâneo. Querer contê-la com pressa é romper a represa e inundar tudo. Melhor escavar canais conscientes: deixar que a água (da emoção, da dor) flua, mas com leitos seguros, margens cuidadas. Você cria o leito que selará a fúria, evitando a inundação de consequências.

Cada recaída é uma rachadura que pode ser transformada em vitral. Ao invés de esconder, você ilumina a fratura — e ela vira arte: luz penetra por ela. Nietzsche falaria de amor fati: amar o que foi, transformar o que foi dor em trilha. Kierkegaard diria que a angústia não é inimiga, mas mensageira. Você escuta: o que ela traz? Frankl: até no sofrimento há sentido. Winnicott: no espaço entre ferida e cura é que nasce o espaço do ser autêntico. Clarice: o que se cala, grita no corpo. Tudo isso ecoa no gesto de você retornar à sobriedade com ternura.

 

O RISCO DA RECAÍDA COMO COMPANHEIRA ESTRATÉGICA

Não é raro que, depois do deslize, surja o pensamento ansioso: “Se recair de novo, é o fim.” Essa projeção catástrofe é cilada mental. No horizonte da mudança não há linha reta sem curvas. A recaída pode ser sinal de alerta — não de fracasso absoluto.

Mas não podemos romantizá-la como inevitabilidade permanente. A ideia não é flertar com o erro, mas reconhecê-lo. Se recair, retome imediatamente. Levante-se no primeiro momento. Quanto mais demora, mais potência de escravidão a recaída instala.

Faça um plano simples para o momento em que o desejo aparecer (uma ligação, um passo de respiração, um mantra interno). Que haja uma estratégia, mas não rígida. Que haja flexibilidade para trilhar novamente a estrada.

 

A RECONSTRUÇÃO DA AUTENTICIDADE: VIVENDO ALÉM DO ÁLCOOL

Você deseja mais que abstinência: deseja sentido, respiração plena, autenticidade. O álcool foi tentativa falha de preencher um vazio. Agora, você está chamado a preencher o espaço com vida verdadeira.

  1. Buscar o que toca o seu espírito

Música, poesia, arte, natureza, palavra. Experiências que não dizem “beba para sentir”, mas elevam seu contato consigo.

  1. Cultivar vínculos genuínos

Relações que não dependem do álcool ou do escudo. Amigos que aceitam seu fragor e te acolhem no silêncio.

  1. Servir um propósito maior

Mesmo que pequeno: ajudar outro que caminha, criar algo com as mãos, dedicar-se a uma causa. Viktor Frankl dizia que sentido muitas vezes surge na doação do ser.

  1. Aceitar que a sombra acompanha a luz

Sua ferida não se fechará como cicatriz opaca: ela será vitral. Você aprenderá a conviver com o traço da dependência, com o fantasma do desejo, mantendo vigilância e liberdade.

  1. Cultivar graus de liberdade internos

Não se imponha o integralismo absoluto. Haverá dias de fragilidade — isso não fragiliza o todo. A sobriedade não é perfeição: é persistência compassiva.

 

O NOVO VERSO QUE VOCÊ VAI ESCREVER

Você acordou, sentiu o peso da queda, respirou culpa — e ainda assim está aqui, lendo estas linhas. Isso é sinal de força. A dependência tentou te roubar a história, mas você não entregou tudo.

Ao final deste dia, permita-se: “Meu deslize não me define. Eu sou mais que ele.” A noite não é cartório de sentença. O amanhã é página em branco. E você, poeta da própria jornada, pode escrever novos versos — em cores de sobriedade, dignidade e sentido.

Seja lento para culpar-se. Tenha pressa suave para retomar. Permita-se, aos poucos, reconstruir o eu que o álcool tentou apagar — com gestos simbólicos, corpo atento, escrita que fala, vozes amigas, mãos anônimas que acolhem.

Você não está sozinho. Há outros que escorregaram, que caíram, que levantaram. E há quem caminha ao seu lado, invisível até que você estenda a mão. Permita que ela seja tomada.

O deslize do dia anterior é apenas episódio — e você é protagonista da jornada que segue. Respire profundo. Recomece. Sua liberdade é poema ainda por ser escrito.

 


Rafa Pessato

Especialista em Autoconhecimento e Comportamento

rafapessato.eu