— a gratidão que nasce do quase fim
Há quem só entenda a vida depois de quase perdê-la. O corpo estremece, o coração desacelera, a consciência falha — e, por um instante, o abismo se abre como espelho. Foi ali que muitos de nós nascemos de novo. Eu também.
Não foi um renascimento iluminado, desses que cabem em livros de autoajuda. Foi uma reanimação existencial: um despertar dolorido, com gosto de álcool velho, arrependimento e silêncio.
Mas quando abri os olhos, algo dentro de mim havia mudado. Pela primeira vez, eu agradeci por estar viva. Não por sorte, mas por sentido.
O COLAPSO — QUANDO O CORPO FALA O QUE A ALMA SILENCIA
Durante anos, eu bebi para calar o que doía. Cada gole era um “deixa pra lá”, um “amanhã eu resolvo”, um “só hoje”. Mas o “só hoje” durou anos. O álcool deixou de ser companhia para ser prisão.
A ciência explica: o álcool sequestra o sistema de recompensa do cérebro, inundando-o de dopamina — o mesmo neurotransmissor do prazer, da motivação e da esperança. Com o tempo, o cérebro se adapta, reduz a produção natural de dopamina e passa a depender da bebida para sentir qualquer prazer.
É o que os neurocientistas chamam de tolerância e dependência neuroquímica. Mas para o alcoolista, isso tem outro nome: ausência de si.
Não era apenas meu corpo que pedia álcool, era meu vazio que pedia anestesia.
O alcoolismo é uma doença — sim, crônica, progressiva e potencialmente fatal. Mas também é um sintoma existencial: a tentativa desesperada de preencher um espaço onde deveria estar o sentido.
O vício é, muitas vezes, o grito de uma alma que não se sente suficiente para existir sóbria.
E, quando o corpo colapsa, ele não está nos punindo — está tentando nos acordar.
A TRAVESSIA — O MEDO QUE SE TRANSFORMA EM MOTOR
A gratidão que senti após quase morrer pelo álcool não foi romântica. Foi crua.
Eu vi o que é o limite. E o limite é um espelho que não perdoa: ele mostra o que você fez de si e o que ainda pode ser.
O medo me salvou. Não aquele medo paralisante, mas o medo lúcido — o que te obriga a agir. A neurociência mostra que o medo, quando canalizado, ativa a amígdala cerebral e o córtex pré-frontal, regiões responsáveis pela tomada de decisão e planejamento. Em outras palavras: o medo pode se tornar força quando você o encara com consciência.
Transformar dor em força não é negar o sofrimento, é dar a ele uma direção.
Foi o que fiz: escrevi.
A escrita se tornou meu modo de elaborar o indizível. Enquanto as palavras saíam, o álcool saía junto.
A escrita terapêutica tem base científica: estudos da Universidade de Austin (James Pennebaker, 1997) mostram que escrever sobre traumas melhora o sistema imunológico, regula emoções e amplia a clareza mental.
Escrever é metabolizar o invisível. É dar corpo ao caos.
Foi assim que nasceu a minha história — e o meu livro. Não como um manual de superação, mas como uma carta de amor à vida que sobrou.
A RECONSTRUÇÃO — A SOBRIEDADE COMO ESCOLHA DE AUTENTICIDADE
Ficar sóbrio é aprender a viver sem muletas.
No início, a sobriedade dói. Ela expõe. Ela pede presença.
Mas, aos poucos, ela se transforma em algo mais profundo do que abstinência: ela se torna autenticidade.
A neuroplasticidade prova que o cérebro é capaz de se reconstruir. Após meses de abstinência, os circuitos dopaminérgicos se reorganizam; a memória melhora; o humor se estabiliza; a vontade de viver retorna.
A sobriedade não é castigo, é reparação biológica e espiritual.
Com o tempo, descobri que viver sem álcool é redescobrir o prazer no que é simples — no café quente, na música lenta, na conversa sem pressa.
É reencontrar-se com a própria essência, aquela que o álcool tentou afogar, mas não conseguiu.
Hoje, sou grata pelo que doeu. A dor foi o portal. O medo foi o guia.
E a escrita, o caminho de volta para casa.
Reescrever a própria história é um ato de coragem — mas também de amor.
O álcool tentou apagar capítulos, mas eu aprendi que quem sobrevive a si mesmo ganha o poder de narrar a própria vida.
O RENASCIMENTO — QUANDO A SOBRIEDADE VIRA MISSÃO
A recuperação não é linear. Há recaídas, gatilhos, dias em que o passado tenta bater à porta. Mas há também uma força nova: aquela que vem de ter visto o fim e escolhido recomeçar.
Hoje, transformo o que me feriu em ferramenta de cura — e ajudo outros a fazerem o mesmo.
A dependência me ensinou que não há vergonha em cair, só em desistir de levantar.
A sobriedade me mostrou que viver é um verbo ativo, não um estado permanente.
E a autenticidade — essa palavra que virou meu norte — é a arte de ser inteiro mesmo com as partes que doem.
Se o álcool me quase matou, a consciência me ressuscitou.
E, por mais paradoxal que pareça, agradeço por quase ter morrido, porque foi ali, entre a sombra e a luz, que finalmente entendi o milagre de estar viva.
Não é força de vontade — é força de caráter.
Não é sobre deixar de beber — é sobre escolher viver.
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento













