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ALCOOLISMO TEM CURA? Antes deresponder, vale perguntar: o que você chama de cura?

Quando alguém pergunta se o alcoolismo tem cura, raramente está fazendo uma pergunta técnica.

Na maioria das vezes, está fazendo uma pergunta existencial.

No fundo, o que se quer saber não é apenas sobre o álcool.

É sobre alívio, liberdade, paz, normalidade.

É sobre parar de sofrer.

Mas antes de responder “sim” ou “não”, precisamos fazer uma pausa — daquelas que quase ninguém faz — e perguntar: O que exatamente você chama de cura?

É nunca mais sentir vontade de beber?

É conseguir beber “socialmente”?

É não pensar mais no álcool?

É não sentir mais angústia, vazio, cansaço de existir?

A resposta muda completamente dependendo da pergunta.

 

O QUE A ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE DIZ SOBRE CURA

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o alcoolismo como um Transtorno mental e comportamental devido ao uso de álcool, descrito no CID-10 e, mais recentemente, no CID-11.

Alguns pontos são fundamentais:

  • A OMS não utiliza o termo “cura” para o alcoolismo.
  • Fala-se em tratamento, remissão, controle dos sintomas e recuperação sustentada.
  • O alcoolismo é considerado um transtorno crônico (persistente e de longa duração), com possibilidade de recaídas.

Isso não significa condenação eterna. Significa que o foco não é “voltar a ser como antes”, mas aprender a viver de outra forma.

Do ponto de vista médico-científico, a ideia de “cura” como desaparecimento total da condição não é o paradigma adotado. E isso costuma frustrar quem busca uma resposta simples.

Mas talvez o problema esteja justamente na ideia simplificada de cura.

 

CURA É NÃO SENTIR VONTADE DE BEBER?

Essa é uma das fantasias mais comuns.

Muitos alcoolistas pensam: “Se eu ainda sinto vontade, é porque não estou ‘curado’.”

A ciência e a clínica dizem outra coisa.

Estudos em neurociência mostram que o cérebro de quem desenvolveu dependência passa por alterações duradouras nos circuitos de recompensa, especialmente no sistema dopaminérgico (Volkow et al., Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas – NIDA).

Isso significa que:

  • A vontade pode reaparecer.
  • O desejo pode surgir em situações específicas.
  • Gatilhos emocionais, sociais ou corporais podem ativar memórias associadas ao álcool.

Mas vontade não é destino.

Desejo não é obrigação.

Sentir não é o mesmo que agir.

Confundir cura com ausência total de desejo é criar uma meta impossível — e cruel.

 

CURA É CONSEGUIR CONTROLAR O CONSUMO?

Aqui entramos em um ponto delicado — e muito honesto.

Para pessoas que não desenvolveram dependência, o controle é possível.

Para o alcoolista, segundo critérios diagnósticos da OMS, a perda de controle é justamente um dos núcleos da doença.

A psicanálise diria: não se trata de falta de força de vontade, mas de uma relação específica com o objeto álcool.

Insistir na ideia de “controle” costuma gerar:

  • Frustração
  • Vergonha
  • Autodepreciação
  • Recaídas mais intensas

Do ponto de vista clínico, aceitar a impossibilidade de controlar o álcool não é derrota. É o início de uma posição mais lúcida e menos violenta consigo mesmo.

 

CURA É NÃO SENTIR MAIS ANGÚSTIA?

Aqui tocamos no ponto que quase ninguém quer tocar.

Muitos bebem não pelo gosto. Bebem para silenciar algo.

Angústia.

Ansiedade.

Sensação de inadequação.

Cansaço de existir.

Vazio sem nome.

A filosofia existencialista nos lembra que a angústia não é um erro, mas uma condição da existência humana, por tanto, inerente à condição de ser humano.

A psicanálise concorda: não existe vida sem conflito psíquico.

Portanto, prometer uma vida “sem angústia” é vender uma ilusão — com ou sem álcool.

O que muda na sobriedade não é o fim do sofrimento, mas a forma de se relacionar com ele.

 

PSICANÁLISE: O ALCOOLISMO COMO SINTOMA, NÃO COMO FALHA MORAL

Do ponto de vista psicanalítico, o alcoolismo não é visto como defeito de caráter, falta de vergonha ou fraqueza.

Ele é compreendido como um sintoma. E aqui é importante esclarecer: ver como sintoma não diminui a ‘gravidade’. Aprofunda.

Sintoma, a partir deste ponto de vista, é uma solução precária que o psiquismo encontrou para lidar com algo insuportável.

O álcool funciona, por um tempo, como regulador emocional, anestésico, organizador da experiência. O problema é que essa solução cobra um preço alto demais.

Na psicanálise, não se fala em cura como eliminação do sintoma, mas em:

  • ressignificação
  • deslocamento
  • construção de outras formas de lidar com o mal-estar

Nesse sentido, parar de beber não é o fim do trabalho.

É o começo.

 

EXISTENCIALISMO: CURA NÃO É NORMALIDADE, É RESPONSABILIDADE

A filosofia existencialista traz um deslocamento poderoso: não pergunta “o que fizeram comigo?”, mas “o que faço com aquilo que me aconteceu?”

Sob esse olhar, a questão não é se o alcoolismo tem cura, mas:

  • Como você responde à sua condição?
  • Que escolhas se tornam possíveis quando você para de fugir de si?
  • Que tipo de vida você constrói a partir da lucidez?

Cura, aqui, não é apagar o passado. É assumir a própria existência sem anestesia. E isso exige coragem. Mas também traz dignidade.

 

ENTÃO, AFINAL: ALCOOLISMO TEM CURA?

Depende do que você chama de cura.

❌ Se for nunca mais sentir vontade: provavelmente não.

❌ Se for voltar a beber “como antes”: para o dependente, não.

❌ Se for viver sem qualquer angústia: isso não existe para ninguém.

✅ Mas se cura significar:

  • não ser mais governado pelo álcool
  • não precisar mentir para si
  • não viver refém da culpa e da vergonha
  • conseguir escolher, mesmo quando é difícil
  • construir uma vida mais coerente com quem você é

Então talvez a pergunta não seja se tem cura.

Mas se vale a pena continuar como está.

 

MAIS IMPORTANTE DO QUE A RESPOSTA É O MOVIMENTO

Informação é importante. Diagnóstico pode ajudar. Teoria esclarece. Mas nada disso substitui a ação.

Você não precisa de um carimbo oficial para parar de beber. Não precisa esperar “chegar ao fundo do poço”. Não precisa provar nada para ninguém.

Se o álcool deixou de fazer bem, isso já é informação suficiente.

Cura, às vezes, não é um ponto de chegada.

É um caminho que começa quando você para de se enganar.

 


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

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