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TIPOS DE ALCOOLISTAS. Nem todo alcoolista é triste

Nem todo alcoolista é triste.

Essa frase pode causar certo estranhamento, especialmente porque o álcool é conhecido por seus efeitos depressivos sobre o sistema nervoso central. Mas ela aponta para algo importante: o alcoolismo não se manifesta de uma única maneira.

Há alguns dias me deparei com o seguinte comentário em um post:

“Bêbados não ficam assim, eles são tristes.”

A frase ficou ecoando na minha cabeça por um tempo. Não foi o uso da palavra bêbado que me incomodou. A linguagem popular costuma simplificar as coisas e, nesse ponto, não há grande novidade.

O que chamou minha atenção foi outra coisa: a crença implícita de que existe apenas um tipo de alcoolista. Como se todo mundo que bebe demais fosse inevitavelmente uma pessoa triste, silenciosa ou permanentemente melancólica.

Mas quem observa ambientes onde há álcool — bares, festas, reuniões familiares ou encontros sociais — percebe rapidamente que a realidade costuma ser bem mais diversa.

 

O ÁLCOOL É UM DEPRESSOR — MAS AS PESSOAS REAGEM DE MANEIRAS DIFERENTES

Do ponto de vista médico, o álcool é classificado como depressor do sistema nervoso central. Ele interfere em diversos sistemas neuroquímicos do cérebro, que participam da regulação do humor, da ansiedade e da motivação. Por isso, o consumo prolongado está associado a alterações emocionais importantes.

Uma revisão científica publicada na revista Alcohol Research: Current Reviews, vinculada ao National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA), aponta que Transtornos por Uso de Álcool (TUA) e depressão frequentemente ocorrem juntos, formando uma das comorbidades mais comuns (NIAAA, 2020).

Isso significa que muitos alcoolistas, ao longo do tempo, desenvolvem ou intensificam sintomas como:

  • tristeza persistente
  • ansiedade
  • irritabilidade
  • alterações no sono
  • perda de interesse pela vida

Mas há um ponto importante. Essas consequências costumam aparecer com o tempo. Durante a intoxicação alcoólica — especialmente em ambientes sociais — o comportamento pode ser muito diferente.

 

UMA DISTINÇÃO IMPORTANTE: COMPORTAMENTO, PERSONALIDADE E COMORBIDADE

Quando falamos sobre “tipos de alcoolistas”, muitas vezes misturamos três coisas diferentes.

DIMENSÃO

O QUE SIGNIFICA

Comportamento sob efeito do álcool

Reações momentâneas durante a intoxicação: rir, chorar, falar demais, brigar etc.

Personalidade

Traços psicológicos relativamente estáveis da pessoa: introversão, sociabilidade, impulsividade, sensibilidade etc.

Comorbidades do alcoolismo

Condições que podem surgir ou se intensificar ao longo do tempo, como depressão, ansiedade e alterações de humor.

Essa distinção ajuda a entender por que duas pessoas podem beber a mesma quantidade de álcool e apresentar comportamentos completamente diferentes.

O álcool não cria uma personalidade nova do zero. Na maioria das vezes ele desinibe aspectos que já estavam presentes, apenas menos visíveis.

 

OS “TIPOS” QUE APARECEM QUANDO AS PESSOAS BEBEM

Quem observa ambientes onde há álcool costuma reconhecer alguns padrões de comportamento.

Eles não fazem parte de classificações médicas formais.

São apenas estereótipos observáveis na vida cotidiana.

Mas por trás desses comportamentos podem existir diferenças de personalidade, história emocional ou até comorbidades psiquiátricas.

 

O INTROVERTIDO QUE SE SOLTA

Esse talvez seja um dos mais conhecidos.

A pessoa costuma ser reservada quando está sóbria.

Mas algumas doses depois algo muda.

A conversa flui.

O riso aparece.

A timidez diminui.

O álcool funciona como um atalho químico para a desinibição social.

Mas nem sempre se trata apenas de introversão.

Em muitos casos podem existir condições que tornam a socialização naturalmente mais difícil, como:

transtorno de ansiedade social

transtorno de ansiedade generalizada

autismo

ou mesmo experiências de rejeição social ao longo da vida

Nesses casos, o álcool pode parecer, temporariamente, uma solução para algo muito mais profundo: a dificuldade de pertencer socialmente.

 

O SOLITÁRIO

Nem todo alcoolista bebe para socializar.

Há quem prefira o canto da mesa, mesmo quando está em um ambiente cheio de pessoas.

Ele pode até estar em um bar, em uma festa ou em uma reunião com amigos, mas permanece mais distante, mais silencioso, mais recolhido.

E aqui está uma diferença importante.

Enquanto o “introvertido que se solta” tende a se aproximar das pessoas depois de beber, o solitário continua preferindo a própria companhia, mesmo quando o álcool já fez efeito.

Bebe devagar, observa o ambiente, mas não busca conversa nem interação.

Nesse caso, o álcool não funciona como facilitador social.

Ele pode funcionar mais como uma espécie de companhia química para lidar com a solidão ou com o peso da própria existência.

Em alguns casos isso pode refletir apenas um traço de personalidade mais introspectivo.

Em outros pode estar relacionado a experiências de isolamento, tristeza ou dificuldade de vínculo ao longo da vida.

 

O AMIGÃO DE TODOS

Esse faz amizade com qualquer pessoa.

Em poucos minutos todo mundo vira íntimo.

Ele brinda com desconhecidos, conta histórias e parece profundamente conectado a todos ao redor.

Esse comportamento pode refletir traços de personalidade mais extrovertidos ou expansivos.

Mas também pode aparecer como uma forma de busca intensa por aceitação e pertencimento, algo muito comum em pessoas que carregam sentimentos antigos de exclusão ou inadequação.

 

O ABRAÇADOR

Esse distribui afeto.

Mas a diferença aqui aparece no corpo.

Ele não apenas conversa. Ele abraça. Encosta no ombro. Segura o braço durante a conversa. Dá abraços longos.

O contato físico se torna a principal forma de demonstrar afeto.

Muitas vezes diz coisas que dificilmente diria sóbrio:

“Eu te adoro.”
 “Você é muito importante pra mim.”

O álcool reduz as inibições emocionais e aquilo que normalmente ficaria guardado encontra saída — não apenas em palavras, mas no toque.

Em alguns casos isso revela apenas uma personalidade naturalmente afetuosa.

Em outros pode indicar uma necessidade intensa de proximidade emocional, que só consegue se expressar plenamente quando as barreiras emocionais diminuem.

O DRAMÁTICO

Esse chora.

Chora pela vida.

Pelos amores antigos.

Por dores esquecidas.

O álcool reduz mecanismos de controle emocional e pode liberar conteúdos que estavam guardados.

Às vezes é apenas emoção momentânea.

Mas em outros casos pode indicar a presença de tristeza acumulada, luto não elaborado, depressão ou sofrimento psíquico mais profundo.

 

O ARTISTA

O cantor da festa.

O dançarino improvisado.

A música aumenta e a pessoa parece entrar em um pequeno palco invisível.

O álcool reduz a autocensura e pode liberar impulsos criativos ou performáticos.

Em muitos casos isso revela apenas uma personalidade naturalmente expressiva.

Mas também pode ser uma forma de expressão emocional que encontra espaço apenas quando as barreiras sociais diminuem.

 

O SONECA

Algumas pessoas simplesmente… dormem.

O efeito sedativo aparece rápido e, em pouco tempo, a pessoa desaparece da festa.

O organismo reage ao álcool com sonolência intensa, o que pode limitar naturalmente o consumo.

Em alguns casos isso funciona quase como um limite fisiológico, impedindo que a pessoa beba grandes quantidades.

Mas existe outra situação bem diferente.

Há quem não apenas durma, mas desmaie de tanto beber.

Nesse caso podem ocorrer:

apagões alcoólicos (blackouts)

perda de consciência

intoxicação grave

ou até coma alcoólico

Aqui o “sono” deixa de ser apenas um efeito sedativo e passa a ser um sinal de risco clínico importante.

 

O RANZINZA

Nem todo mundo fica alegre quando bebe.

Alguns ficam irritados, impacientes ou críticos.

O álcool reduz o controle emocional e pode amplificar frustrações que já estavam presentes.

Em algumas pessoas isso aparece como irritabilidade momentânea.

Em outras pode revelar conflitos internos, estresse acumulado ou dificuldades na regulação emocional.

 

O SABE-TUDO

Depois de algumas doses, a pessoa vira especialista em tudo.

Política.

Filosofia.

Economia mundial.

O álcool costuma aumentar a confiança subjetiva, mesmo quando o conhecimento real não acompanha essa segurança.

Esse comportamento pode refletir apenas desinibição.

Mas também pode aparecer como uma forma de compensar inseguranças profundas através de uma postura de autoridade.

 

O VALENTÃO

Talvez um dos comportamentos mais perigosos.

O álcool pode reduzir inibições relacionadas à agressividade e aumentar impulsividade.

Discussões se intensificam.

Provocações aparecem.

Brigas surgem.

Estudos mostram que o consumo excessivo de álcool está associado ao aumento de comportamentos violentos.

Em alguns casos isso revela impulsividade momentânea.

Em outros pode estar relacionado a dificuldades mais profundas de controle emocional ou histórico de agressividade.

 

UM PONTO IMPORTANTE

Esses “tipos” não são diagnósticos.

São apenas formas populares de descrever comportamentos que aparecem durante a intoxicação alcoólica.

Mas olhar para eles com um pouco mais de atenção pode revelar algo interessante:

muitas vezes o álcool não cria algo novo.

Ele apenas desinibe aquilo que já estava ali.

 

MAIS DE UM TIPO PODE APARECER NA MESMA PESSOA

Vale lembrar algo. Esses “tipos” não são categorias rígidas.

Uma mesma pessoa pode se reconhecer em mais de um deles, dependendo do contexto, do momento da vida ou mesmo da quantidade de álcool consumida.

Alguém pode ser expansivo em uma noite, melancólico em outra, silencioso em outra.

Ainda assim, muitas vezes um comportamento acaba se tornando mais evidente ou mais frequente, a ponto de virar quase uma marca reconhecível.

Todos conhecem alguém assim.

Aquele tio que sempre abraça todo mundo quando bebe.

Aquela amiga que chora toda vez que toma algumas doses a mais.

Ou talvez você mesmo, que já percebeu um padrão que aparece repetidamente quando o álcool entra em cena.

Esses padrões não definem quem a pessoa é — mas podem revelar algo interessante sobre como cada um se relaciona com o álcool e com as próprias emoções.

 

COMPORTAMENTO NÃO É PERSONALIDADE

Esses “tipos” podem parecer caricaturas, mas ajudam a ilustrar algo importante: o comportamento sob efeito do álcool não define quem a pessoa é.

Ele revela, muitas vezes, dimensões já existentes — apenas menos filtradas.

Uma pessoa que chora quando bebe não é necessariamente dramática.

Uma pessoa expansiva quando bebe não é necessariamente sociável no cotidiano.

O álcool altera o estado de consciência e modifica a forma como emoções e impulsos aparecem.

 

OUTRA DIMENSÃO: AS CONSEQUÊNCIAS DO ALCOOLISMO

Se o consumo se torna frequente e dependente, a história costuma mudar.

Com o tempo, o alcoolismo pode provocar ou intensificar diversas comorbidades psiquiátricas, entre elas:

  • depressão
  • ansiedade
  • irritabilidade crônica
  • isolamento social
  • alterações cognitivas

Nesse estágio, a tristeza pode deixar de ser apenas um estado passageiro e se tornar uma condição persistente.

 

O VALOR DA AUTO-OBSERVAÇÃO

Hoje, como alcoolista em recuperação e pesquisadora do tema, olho para esses “tipos” com cautela.

Eles não são diagnósticos.

São apenas formas curiosas de observar o comportamento humano sob efeito de uma substância que altera a consciência.

Ainda assim, esse exercício pode ser interessante.

Porque observar quem você se torna quando está alcoolizado pode revelar aspectos importantes da própria relação com a bebida.

Algumas perguntas podem surgir:

  • O que aparece em mim quando bebo?
  • O que o álcool amplifica?
  • O que talvez eu esteja tentando anestesiar?

Essas perguntas não são julgamento moral.

São apenas convites ao autoconhecimento.

Porque antes de qualquer rótulo — seja bêbado, alcoolista ou qualquer outro — existe algo muito mais fundamental:

um ser humano.


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu 

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