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PENSAMENTO POSITIVO NÃO “CURA”ALCOOLISMO, MAS AJUDA

Existe uma ideia curiosa que aparece sempre que alguém fala sobre sofrimento: “pense positivo”.

Como se bastasse trocar os óculos escuro por um cor-de-rosa e, pronto, a vida se reorganizaria.

Quem já atravessou o território do alcoolismo sabe que não é assim.

Não é uma frase motivacional que dissolve uma dependência química.

Simplesmente repetir “vai dar tudo certo” não reorganiza um cérebro que passou anos aprendendo a buscar alívio no álcool.

Mas também não é verdade que a forma como pensamos não tem influência alguma.

Entre a ingenuidade do otimismo mágico e o peso esmagador do pessimismo absoluto, existe um caminho mais honesto — e talvez mais humano.

Um caminho em que o pensamento positivo não é remédio milagroso, mas pode ser um aliado na reconstrução da vida.

 

ENTRE PESSOAS SOLARES E PESSOAS LUNARES

Costumo brincar com meu esposo dizendo que ele é “positivão”.

Algumas pessoas parecem nascer assim: mais solares.

Outras são mais lunares, reflexivas, cautelosas, às vezes melancólicas. Há quem traga uma tendência natural ao entusiasmo. Há quem carregue desde cedo um olhar mais grave sobre a vida.

A psicanálise reconhece isso quando fala de estrutura psíquica, temperamento e história emocional.

A filosofia existencialista também lembra: somos lançados no mundo em condições que não escolhemos.

Mas isso não significa que estamos condenados a permanecer exatamente como começamos.

Lya Luft escreve algo muito bonito sobre isso:

“Trazemos uma chancela na alma – mas podemos redefinir seus limites. Quem sabe mudamos as cores aqui, ali abrimos uma clareira e erguemos um abrigo.” (LUFT, 2009, p. 56–57)

Essa imagem é poderosa. Existe uma marca inicial, sim. Um traço. Um temperamento.

Mas o ser humano não é um projeto dado, é um projeto em construção. Não somos apenas o que nos aconteceu. Somos também o que fazemos com aquilo que nos aconteceu. Isso vale para muitas coisas da vida. E vale também para quem enfrenta o alcoolismo.

 

O SOFRIMENTO NÃO É ERRO DO SISTEMA

Antes de falar de pensamento positivo, é preciso deixar algo claro:

O sofrimento existe.

Raiva existe.

Tristeza existe.

Medo existe.

Essas emoções não são defeitos de fábrica da mente humana.

São parte da condição de estar vivo.

Na psicanálise, emoções dolorosas não são algo que precisa ser apagado imediatamente. Elas são mensageiras da nossa história psíquica. O sofrimento é parte inevitável da experiência de existir.

Tentar viver como se tudo fosse sempre leve, bonito e otimista pode se tornar uma forma sofisticada de negação da realidade. E quando a dor não encontra espaço para ser reconhecida, ela frequentemente encontra outro caminho.

Muitas vezes, o álcool se torna esse caminho. Um anestésico emocional.

 

O PERIGO DO OTIMISMO TÓXICO

Existe um tipo de pensamento positivo que mais atrapalha do que ajuda.

É aquele que diz:

  • “Não pense nisso.”
  • “É só olhar pelo lado bom.”
  • “Pare de reclamar.”

Esse tipo de discurso pode até parecer encorajador, mas frequentemente silencia experiências legítimas de sofrimento.

No campo do alcoolismo isso é ainda mais perigoso. Porque a dependência já costuma vir acompanhada de culpa, vergonha e negação.

Quando alguém diz a um alcoolista que basta “pensar positivo” ou que “vai dar tudo certo”, o efeito pode ser o contrário do esperado: a pessoa se sente ainda mais inadequada por não conseguir simplesmente mudar seu estado emocional.

O alcoolismo não é uma questão de mentalidade fraca.

É uma condição complexa que envolve:

  • neurobiologia
  • história emocional
  • ambiente social
  • estratégias de regulação emocional

Segundo pesquisas do National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA), o uso crônico de álcool altera sistemas cerebrais ligados ao estresse, recompensa e controle de impulsos.

Ou seja: não é apenas força de vontade ou atitude mental.

 

MAS A FORMA COMO OLHAMOS PARA A VIDA IMPORTA

Por outro lado, também seria simplista dizer que a maneira de pensar não influencia nada.

Influência. E bastante. Existe inclusive um campo científico dedicado a estudar isso: a Psicologia Positiva.

“A Psicologia Positiva é o estudo científico do que torna a vida mais digna de ser vivida.” (Christopher Peterson)

Diferente do pensamento positivo superficial, a Psicologia Positiva não ignora o sofrimento. Ela investiga o que ajuda pessoas a se reconstruírem mesmo em contextos difíceis.

Entre os temas estudados estão:

  • esperança
  • gratidão
  • propósito
  • forças pessoais
  • relações significativas

Curiosamente, esses fatores aparecem com frequência em processos de recuperação de dependência. Não porque “curam” o alcoolismo, mas porque ajudam a sustentar uma vida que não depende da bebida para ser suportada.

 

O ALCOOLISMO E A BUSCA POR ALÍVIO

Quando observamos criticamente o alcoolismo, percebemos que álcool não é procurado apenas pelo prazer. Ele é buscado pelo alívio; da ansiedade, da tensão, da solidão, do peso de existir.

Nesse sentido, a bebida funciona como uma espécie de regulador emocional artificial. Ela cria uma sensação temporária de:

  • leveza
  • coragem
  • conexão
  • desligamento da dor

O problema é que esse alívio é curto — e cobra juros altos. Com o tempo, o cérebro passa a depender do álcool para regular estados emocionais. E aquilo que começou como escape vira prisão.

 

MUDAR O FOCO NÃO MUDA TUDO — MAS MUDA MUITA COISA

É aqui que entra a importância de uma mudança de foco na maneira de olhar para a vida. Não usando o pensamento positivo como fórmula mágica, mas como parte do processo de reconstrução.

Uma mudança de perspectiva pode ajudar a:

Aumentar a experiência de emoções prazerosas. Mesmo pequenas. Um café tranquilo. Um passeio. Um momento de silêncio.

Descobrir e desenvolver fortalezas pessoais. Talentos, capacidades, interesses que ficaram esquecidos durante o período de consumo.

Construir senso de esperança. A percepção de que a história não acabou.

Cultivar autoconfiança e autoestima. Especialmente importantes após períodos marcados por culpa e vergonha.

Fortalecer relações humanas. A recuperação raramente acontece no isolamento.

Desenvolver gratidão. Não como obrigação moral, mas como reconhecimento do que ainda existe de vivo.

Construir uma visão mais ampla da vida. Que não se resume ao problema com o álcool.

 

O TRABALHO INTERNO

Lya Luft escreve algo que dialoga profundamente com essa ideia:

“Não é só culpa dos outros se ficamos truncados. Em cada estágio podemos colocar algum traço, algum ponto, alguma cor no projeto de quem pretendemos ser.” (LUFT, 2009, p. 39)

Essa frase tem algo de libertador e algo de exigente.

Libertador porque diz: não estamos condenados àquilo que nos aconteceu.

Exigente porque lembra: há trabalho a ser feito dentro de nós.

Na recuperação do alcoolismo, esse trabalho costuma envolver:

  • reconhecer emoções
  • reorganizar rotinas
  • aprender novas formas de lidar com frustrações
  • reconstruir relações
  • desenvolver sentido de vida

Nada disso acontece apenas pensando positivo. Mas acontece muito mais facilmente quando a pessoa acredita que vale a pena tentar.

 

ACREDITAR QUE VALE A PENA

“Para viver qualquer fase com alegria, viver com elegância e vitalidade, é preciso acreditar que vale a pena. Que existem modos de ser feliz, e podemos persegui-los.” (LUFT, 2009, p. 105)

Essa frase contém algo fundamental. Recuperação exige esperança. Não esperança ingênua. Mas a convicção mínima de que uma vida diferente é possível.

Sem isso, o esforço parece inútil. Com isso, mesmo passos pequenos ganham significado.

E talvez o ponto não seja ser uma pessoa naturalmente otimista. Alguns de nós nunca seremos. Alguns continuarão sendo mais lunares do que solares. E tudo bem.

O importante talvez seja outra coisa: ter direção. Direção para uma vida em que o álcool não seja o único caminho para suportar a existência. Uma vida em que alegria, sentido e conexão possam existir sem precisar passar pelo fundo de um copo.

O pensamento positivo definitivamente não “cura” o alcoolismo, mesmo porque ele é uma doença crônica. Mas a capacidade de enxergar possibilidades, cultivar esperança e construir significado pode sustentar algo essencial no processo de recuperação: a vontade de continuar.

E às vezes é disso que se trata. Não de negar a dor. Não de fingir que tudo está bem. Mas de continuar abrindo clareiras na própria alma. Como escreveu Lya Luft. Clareiras onde seja possível construir abrigo.

E talvez, aos poucos, aprender algo que o álcool prometia — mas nunca entregava de verdade: embriagar-se de si.


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

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