Durante muito tempo, o alcoolista acredita que o maior problema é a bebida.
Mas, na prática clínica e na experiência vivida, o álcool costuma ser apenas o meio. O núcleo mais duro, mais silencioso e mais difícil de atravessar é outro: a culpa.
Não a culpa pontual por um erro específico.
Mas uma culpa difusa, constante, que não se limita a “fiz algo errado”, e escorre para algo mais profundo: “há algo errado comigo”.
Segundo a psicologia clínica, a culpa é uma emoção moral autoconsciente, ligada à avaliação que o sujeito faz de si diante de seus próprios valores. Já na psicanálise, essa emoção ganha outra espessura: a culpa não nasce apenas do que se faz, mas da relação que o sujeito estabelece com suas exigências internas — muitas vezes impossíveis de cumprir.
No alcoolismo, essa culpa costuma se tornar excessiva, persecutória e paralisante.
Ela não organiza a mudança. Ela organiza o castigo.
E um sujeito que acredita que deve ser punido dificilmente consegue sustentar uma vida sem álcool.
A CULPA QUE NÃO ENSINA — SÓ CASTIGA
Na teoria freudiana, a culpa surge do conflito entre o eu possível e um superego severo, que cobra perfeição e pune qualquer desvio. Freud já apontava, em O Mal-Estar na Civilização, que quanto mais o sujeito tenta se adequar a ideais elevados, mais culpado tende a se sentir.
No alcoolismo, esse mecanismo se radicaliza.
A cada recaída, a cada promessa quebrada, a cada vergonha vivida, o superego se fortalece. Ele não diz: “isso precisa ser elaborado”. Ele diz: “você falhou de novo”.
É nesse ponto que a culpa deixa de ser estruturante e passa a ser mortífera.
Segundo estudos em psiquiatria e dependência química, a culpa excessiva está associada a maior risco de recaída, sintomas depressivos e comportamento autodestrutivo (DSM-5-TR; Koob, 2015). Isso não acontece por fraqueza moral, mas porque a culpa, quando não se transforma em responsabilidade, gera apenas desejo de alívio imediato.
E o álcool, nesse contexto, deixa de ser prazer.
Ele vira anestesia contra o autoataque.
QUANDO A CULPA VIRA IDENTIDADE
Um dos efeitos mais nocivos da culpa no alcoolismo é a sua transformação em identidade. O sujeito não se sente culpado por beber. Ele passa a se sentir culpado por ser quem é.
A psicanálise observa que, quando a culpa se fixa dessa forma, ela perde relação com o ato e passa a colar no ser. Não importa se a pessoa está há dias, semanas ou meses sem beber. A sensação interna continua a mesma: insuficiência, dívida, falha.
Esse é um ponto crucial.
Enquanto a culpa estiver colada à identidade, parar de beber será vivido como injustiça.
“Por que eu deveria ter uma vida boa, se eu sou assim?”
É por isso que muitos alcoolistas sabotam a própria melhora. Não conscientemente. Mas porque, no fundo, não acreditam que merecem existir sem punição.
RESPONSABILIDADE NÃO É AUTOFLAGELAÇÃO
Existe uma confusão recorrente entre responsabilidade e culpa.
Muita gente acredita que, se abrir mão da culpa, estará “passando pano”, se fazendo de inocente ou negando os danos causados. Mas isso é um equívoco que mantém o vício ativo.
A responsabilidade não nasce da punição.
Ela nasce da aceitação lúcida da realidade.
Na clínica do alcoolismo, responsabilidade significa algo muito concreto: reconhecer o que foi feito, assumir as consequências possíveis e agir de forma diferente a partir dali. Sem chicote. Sem dramatização. Sem espetáculo de dor.
Enquanto a culpa olha para o passado exigindo castigo, a responsabilidade olha para o presente perguntando: “o que precisa ser feito agora?”
Esse deslocamento é fundamental.
Segundo abordagens contemporâneas, mudanças sustentáveis não acontecem quando o sujeito se odeia, mas quando recupera a própria autonomia.
ACEITAÇÃO: O PONTO QUE MUITOS CONFUNDEM COM RESIGNAÇÃO
Outro conceito-chave para atravessar a culpa é a aceitação.
Aceitação não é concordar, gostar ou se conformar. É parar de lutar contra fatos já estabelecidos.
Aceitar que o álcool faz mal.
Aceitar que, quando o alcoolismo se torna dependência, o controle não funciona.
Aceitar que, apesar disso, ainda existem escolhas possíveis.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Transtorno por Uso de Álcool (TUA) é uma condição crônica, com recaídas possíveis, mas com melhora significativa quando há mudança de comportamento sustentada. Aceitar essa condição não aprisiona. Ao contrário: liberta da fantasia de controle, que é uma das maiores armadilhas do alcoolismo.
Enquanto o sujeito insiste em provar que “desta vez será diferente”, permanece refém da culpa quando falha. Quando aceita os limites reais, pode construir algo novo a partir deles.
DA CULPA À RESPONSABILIDADE: UM DESLOCAMENTO PSÍQUICO
Há um movimento importante a ser empreendido, o chamado deslocamento ético. Não se trata de eliminar a culpa, mas de transformá-la.
Culpa elaborada gera responsabilidade.
Culpa não elaborada gera repetição.
Quando o alcoolista começa a se responsabilizar, algo muda profundamente. Ele deixa de beber não para pagar uma dívida moral, mas para sustentar uma vida possível. Ele não se compromete com promessas grandiosas, mas com atos concretos.
Esse é um ponto pouco romantizado, mas essencial: parar de beber não é um gesto heroico. É um gesto cotidiano, repetido, às vezes cansativo. E só se sustenta quando o sujeito deixa de se punir e assume a própria vida.
PARAR DE BEBER NÃO É SE ABSOLVER — É SE COMPROMETER
Superar a culpa não é apagar o passado.
É impedir que ele continue governando o futuro.
Segundo estudos, pessoas que agem a partir da responsabilidade — e não da vergonha — apresentam maior adesão a tratamentos, menor taxa de recaída e melhor regulação emocional (Tangney et al., 2007).
Isso não acontece porque se tornaram mais “fortes”, mas porque deixaram de gastar energia se atacando e passaram a investir em escolhas possíveis.
O álcool perde força quando deixa de ser o único alívio contra a própria condenação interna.
O PONTO FINAL NÃO É A CULPA — É A ESCOLHA
A culpa diz: “você não merece”.
A responsabilidade diz: “apesar de tudo, você escolhe”.
Esse “apesar de” é decisivo.
Apesar do passado.
Apesar das recaídas.
Apesar das perdas.
Aceitar isso não é fácil. Mas é exatamente aí que o alcoolismo começa a perder o centro da cena.
Não porque a dor desapareceu.
Mas porque o sujeito deixou de fugir dela bebendo — e passou a existir apesar dela.
Rafa Pessato
Embriague-se de si












