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EXCESSO DO ALCOOLISMO X INTENSIDADE DA SOBRIEDADE

Existe uma confusão perigosa quando se fala em álcool e sobriedade: a ideia de que parar de beber é renunciar à intensidade da vida.

Como se a intensidade estivesse necessariamente ligada ao excesso.

Como se, sem álcool, tudo ficasse morno, previsível, sem graça.

Para quem vive o alcoolismo, essa confusão não é teórica.

Ela sustenta a bebida.

Este texto parte de um ponto fundamental: alcoolismo é uma doença, caracterizada, entre outras coisas, pela impossibilidade de controlar o consumo.

Não se trata de exagero ocasional.

Trata-se de perda de controle.

E, justamente por isso, é preciso separar duas coisas que costumam ser misturadas: excesso e intensidade.

 

O QUE É EXCESSO — E POR QUE ELE NÃO É ESCOLHA

Do ponto de vista clínico, o alcoolismo é classificado como um Transtorno por Uso de Substâncias, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e manuais diagnósticos como o CID-10 e o DSM-5.

Entre os critérios centrais estão:

  • perda de controle sobre a quantidade ingerida
  • uso persistente apesar das consequências
  • tolerância e sintomas de abstinência
  • prioridade dada à bebida em detrimento da vida

O excesso, nesse contexto, não é uma decisão consciente. Ele acontece mesmo quando a pessoa promete que vai beber menos.

Mesmo quando “não era para tanto”.

Mesmo quando a intenção era só relaxar.

Por isso, reduzir o alcoolismo à ideia de exagero é não compreender a doença. O excesso não é moral. É fisiológico, psicológico e comportamental.

 

A ILUSÃO DE QUE O ÁLCOOL ENTREGA INTENSIDADE

O álcool produz efeitos químicos conhecidos: aumento transitório de dopamina, liberação de endorfinas, redução da atividade do córtex pré-frontal.

Na prática, isso gera:

  • desinibição
  • sensação de pertencimento
  • euforia
  • alívio momentâneo

O cérebro interpreta isso como intensidade.

Mas trata-se de uma intensidade artificial, curta e crescente em custo.

Quanto mais se busca, menos ela vem — e mais se precisa beber.

Estudos mostram que, com o tempo, o álcool reduz a capacidade natural do cérebro de sentir prazer e excitação emocional sem a substância, fenômeno conhecido como anedonia induzida (National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism – NIAAA).

O que parecia intensidade vira dependência.

 

INTENSIDADE NÃO É EXCESSO

Aqui está o ponto de virada.

Excesso é quando algo ultrapassa o limite e começa a te atravessar.

Intensidade é quando algo te atravessa sem te destruir.

A intensidade da sobriedade pode não ser “explosiva”.

Ela não apaga.

Ela não acelera artificialmente.

Ela aprofunda.

Do ponto de vista existencial, intensidade está ligada à presença: estar inteiro na experiência, mesmo quando ela é desconfortável.

Mesmo quando não há anestesia.

Mesmo quando não há fuga.

A sobriedade não empobrece a vida emocional.

Ela a torna possível.

 

POR QUE A SOBRIEDADE ASSUSTA QUEM SEMPRE VIVEU NO EXCESSO

Para muitas pessoas com alcoolismo, o álcool não é apenas uma substância.

É uma forma de regular a vida.

Ele ajuda a lidar com:

  • estresse crônico
  • sobrecarga emocional
  • solidão
  • cobrança interna
  • dificuldade de dizer não

Quando o álcool sai, essas pressões aparecem nuas.

E isso pode ser confundido com “falta de intensidade”.

Na verdade, é o contrário: é a vida sendo sentida sem amortecedor.

 

CONTROLAR O QUE LEVA A BEBER, NÃO A BEBIDA

Um ponto central no tratamento do alcoolismo é reconhecer a impossibilidade de controle sobre o álcool.

Mas isso não significa ausência de autonomia.

Significa deslocamento do foco.

Se não é possível controlar o excesso da bebida, é possível — e necessário — olhar para os excessos que levam a beber:

  • excesso de trabalho
  • excesso de responsabilidade
  • excesso de exigência consigo
  • excesso de silêncio emocional
  • excesso de vida no automático

Esse é um movimento clínico e existencial.

Não se trata de disciplina moral, mas de cuidado.

 

A INTENSIDADE DA SOBRIEDADE

Diferente da intensidade alcoólica, a intensidade da sobriedade pode aparecer em detalhes:

  • acordar sem medo
  • lembrar do que foi dito
  • sentir o corpo responder
  • sustentar conversas difíceis
  • perceber limites

Relatórios da OMS Europa e da Saúde Pública da Inglaterra mostram que pessoas que cessam o consumo de álcool relatam melhora progressiva na saúde mental, na clareza cognitiva e na percepção de autoeficácia.

Não é uma intensidade forçada, é uma intensidade habitável.

 

SOBRIEDADE NÃO É VIDA SEM PRAZER

Esse é outro mito comum.

A neurociência mostra que, após um período de reorganização cerebral, o sistema de recompensa volta a responder a estímulos naturais: vínculo, movimento, criatividade, descanso, sentido.

O prazer da sobriedade não é imediato.

Mas ele é mais estável.

E, principalmente, não cobra o corpo como pagamento.

 

VIVER INTENSAMENTE SEM SE PERDER

A grande virada da sobriedade não é virar alguém “equilibrado demais”.

É não precisar se destruir para se sentir vivo.

A intensidade da sobriedade permite:

  • viver emoções sem apagamento
  • sustentar relações sem dependência
  • atravessar dias difíceis sem fuga
  • experimentar prazer sem culpa

Isso não é pouco.

Isso é maturidade emocional, isso é fluir com a vida sem exagerar.

Pois fluir não é perder o controle. Não é se dissolver no excesso. Não é viver no limite o tempo todo.

Fluir é seguir em contato com a vida — sem precisar fugir dela.

Para quem vive o alcoolismo, essa é uma mudança radical: descobrir que é possível viver intensamente sem beber.

E que, muitas vezes, o álcool não era intensidade.

Era apenas excesso disfarçado.

 


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

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