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SONHAR COM O ÁLCOOL DEPOIS DE TER PARADO DE BEBER. É normal? Devo me preocupar?

Há algo profundamente desconcertante em acordar de um sonho em que você estava bebendo — especialmente quando, na vida desperta, já está sóbrio há meses ou anos. O coração acelera. Vem uma culpa automática. Às vezes surge até a sensação física de que houve recaída, como se o corpo ainda não tivesse sido avisado de que foi apenas um sonho. A mente corre rápido: “Eu estraguei tudo?” E logo depois: “Isso significa que eu quero beber de novo?”

Essa reação é mais comum do que se imagina. E a primeira coisa importante a dizer é: sim, sonhar com álcool depois de ter parado é algo frequente. Não é sinal automático de recaída iminente. Não é prova de fraqueza moral. Não invalida seu processo. Mas também não é irrelevante. O sonho não deve ser ignorado — ele deve ser compreendido.

 

O ÁLCOOL NÃO ERA SÓ UMA BEBIDA

Quando alguém para de beber, não está apenas retirando uma substância da rotina. Está reorganizando a própria estrutura emocional. O álcool não ocupava apenas o copo ou o happy hour; ele ocupava funções psíquicas. Regulava ansiedade. Facilitava conversas. Ajudava a suportar frustrações. Celebrava conquistas. Silenciava angústias. Durante anos, talvez décadas, foi um recurso constante.

O psiquismo não apaga isso como quem apaga um aplicativo do celular.

Sob a perspectiva psicanalítica, o álcool pode ter funcionado como um regulador emocional externo. Algo que fazia o que o aparelho psíquico, naquele momento da vida, ainda não conseguia fazer sozinho: conter, aliviar, modular afetos. Ao retirar a substância, o sujeito começa a construir novas formas internas de lidar com essas emoções. Mas o registro da antiga solução permanece.

E o sonho é um dos lugares onde esse registro pode reaparecer.

 

O SONHO COMO LINGUAGEM DO INCONSCIENTE

Freud chamou o sonho de “via régia” para o inconsciente. Não porque ele seja literal, mas justamente porque ele fala por imagens, metáforas, condensações. O sonho não é um roteiro objetivo; é uma dramatização simbólica.

Sonhar que está bebendo não significa necessariamente que você deseja conscientemente beber. Pode significar que algo dentro de você está lidando com tensão, memória, desejo antigo ou até com o luto da identidade que ficou para trás.

Há sonhos em que a pessoa sente prazer ao beber. Há sonhos angustiantes, cheios de culpa. Há aqueles em que se bebe “sem perceber” e só depois vem o desespero. Cada tonalidade emocional importa mais do que o ato em si.

O sonho não fala apenas do álcool. Ele fala da função que o álcool exercia.

 

MEMÓRIA EMOCIONAL E CÉREBRO

Além da dimensão simbólica, há uma dimensão neurobiológica que precisa ser considerada. O consumo prolongado de álcool ativa repetidamente circuitos cerebrais ligados à recompensa e ao prazer. O cérebro aprende associações: álcool = relaxamento, pertencimento, alívio.

Mesmo após a interrupção do consumo, essas redes não desaparecem imediatamente. Elas enfraquecem com o tempo, mas continuam registradas. Durante o sono, especialmente nas fases mais profundas, o cérebro reorganiza memórias e ativa circuitos antigos. Não é surpreendente que imagens relacionadas à bebida possam emergir.

Isso não é desejo consciente. É memória associativa.

Reduzir o sonho apenas à biologia seria simplista. Mas ignorar o corpo também seria ingênuo. O sonho é encontro entre história emocional e funcionamento cerebral.

 

SONHO NÃO É PROFECIA

Um dos maiores medos de quem está sóbrio é a recaída. Por isso, o sonho pode ser interpretado como um presságio. Mas é fundamental separar fantasia de fato: recaída não começa no sonho. Recaída começa na vida desperta — geralmente com negligência emocional, isolamento, estresse acumulado e perda de conexão consigo mesmo.

O sonho, por si só, não determina comportamento. Ele pode, no máximo, indicar que algo precisa de atenção.

Se ao acordar você sente apenas susto e depois alívio por perceber que foi um sonho, isso pode inclusive reforçar sua escolha. Muitas pessoas relatam que, ao acordar angustiadas e depois perceberem que continuam sóbrias, sentem uma gratidão profunda. Como se o inconsciente tivesse feito um “ensaio” e o consciente reafirmasse: não quero isso para mim.

 

QUANDO VALE PRESTAR MAIS ATENÇÃO?

A palavra não é “preocupação”. É atenção.

Se o sonho vem acompanhado de fissura intensa ao acordar, se desperta desejo real e persistente de beber, se aparece em momentos de grande estresse ou vulnerabilidade emocional, pode ser um sinal de que algo precisa ser cuidado.

Perguntas simples ajudam muito:

  • O que está acontecendo na minha vida agora?
  • Estou sobrecarregado?
  • Estou evitando enfrentar alguma emoção?
  • Tenho buscado apoio ou estou me isolando?

O sonho pode ser um mensageiro de tensão acumulada. Não é o vilão da história.

 

O LUTO PELA IDENTIDADE QUE BEBIA

Existe também a dimensão do luto. Parar de beber implica, muitas vezes, deixar para trás uma versão de si mesmo. A versão que parecia mais leve — ainda que fosse sustentada por anestesia.

Mesmo quando a decisão pela sobriedade é clara e consciente, pode haver saudade simbólica daquela identidade. Não da destruição, mas da sensação de facilidade. O sonho pode ser parte da elaboração desse luto.

Sobriedade não é apagar o passado. É integrá-lo sem repeti-lo.

Quando você sonha com o álcool e acorda escolhendo não beber, está exercendo integração. Está reconhecendo que aquilo fez parte da sua história — mas não governa mais suas decisões.

 

O PAPEL DO SUPEREGO E A CULPA EXAGERADA

Algumas pessoas acordam de um sonho desses com culpa intensa, como se tivessem cometido uma falha real. Aqui é importante falar do superego — instância psíquica que vigia, cobra e pune.

Você não escolhe o conteúdo dos seus sonhos. Eles não são decisões morais. Sentir culpa por sonhar é, muitas vezes, reflexo de uma cobrança interna rígida demais. Sobriedade não é controle absoluto da mente. É escolha consciente nas ações.

O que define sua trajetória não são imagens noturnas involuntárias, mas decisões diurnas deliberadas.

 

EXISTENCIALMENTE FALANDO

Do ponto de vista existencial, somos seres em construção contínua. O passado não desaparece — ele é incorporado. A identidade que bebia faz parte da sua história. Negá-la seria negar uma parte de si.

Mas maturidade não é nunca mais lembrar. É lembrar e escolher diferente.

A liberdade não está em nunca sonhar com a bebida. Está em acordar e continuar escolhendo a sobriedade.

Talvez haja algo profundamente simbólico nisso: você sonha que bebe… e acorda sóbrio. A realidade confirma sua escolha.

 

ENTÃO, É NORMAL?

Sim, é normal.

É humano.

Pode ser frequente.

É parte do processo.

Não é sinal automático de recaída.

Não é falha.

Não é retrocesso.

É conteúdo psíquico sendo reorganizado.

E talvez a pergunta mais honesta não seja “devo me preocupar?”, mas:

“O que isso me convida a observar em mim agora?”

Se houver atenção, autocuidado e conexão consigo mesmo, o sonho deixa de ser ameaça e passa a ser ferramenta de autoconhecimento.

No fim, a sobriedade madura não é aquela que nunca mais pensa na bebida, mas aquela que pode olhar para essa imagem — até mesmo em sonho — e dizer:

“Isso fez parte de mim. Mas não me governa mais.”

E isso não é fraqueza.

É integração.


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

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