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QUEM VOCÊ SERIA SEM O ÁLCOOL? Identidade, sobriedade e a coragem de se encontrar

A busca por “quem se é” é antiga. Desde que o ser humano adquiriu consciência de si, passou a interrogar a própria existência. O imperativo inscrito no templo de Delfos — “conhece-te a ti mesmo” — ecoa até hoje como convocação ética e existencial. Filósofos, teólogos, psicanalistas e cientistas dedicaram séculos a tentar compreender como se forma a identidade, como se estrutura o eu, como se sustenta a singularidade em meio às pressões do mundo. No entanto, quando essa busca milenar se encontra com a experiência do alcoolismo, ela ganha uma nova camada — mais densa, mais dolorosa e, paradoxalmente, mais concreta.

Porque, quando se bebe por muitos anos, a pergunta “quem sou eu?” deixa de ser apenas filosófica. Ela se torna prática, urgente e, por vezes, angustiante. Quem sou eu sem o álcool? Quem sou eu quando não há um copo mediando minha fala, minha coragem, meu humor, minha sociabilidade? Quem sou eu quando não posso atribuir à bebida meus excessos, minhas falhas, minhas ousadias ou meus silêncios?

 

QUANDO O ÁLCOOL PASSA A MEDIAR A IDENTIDADE

Muitas pessoas iniciam o consumo acreditando que o álcool revela algo de verdadeiro. “Eu sou mais extrovertida quando bebo.” “Eu fico mais interessante.” “Eu consigo conversar melhor.” No início, parece que a substância não cria uma nova personalidade, mas libera a que já existia reprimida. A bebida se apresenta como facilitadora do eu. Mas com o passar dos anos, essa mediação se intensifica. O álcool deixa de ser acessório e passa a ser estruturante. A identidade começa a se confundir com seus efeitos.

Do ponto de vista neurobiológico, o álcool atua no sistema nervoso central alterando circuitos ligados à recompensa, ao prazer e ao controle inibitório. Ele aumenta a liberação de dopamina em regiões associadas à motivação e reduz a atividade de áreas relacionadas ao julgamento crítico e à autocensura. A pessoa sente-se mais solta não necessariamente porque se tornou mais autêntica, mas porque suas inibições estão temporariamente reduzidas. Essa diferença é fundamental: menos inibição não equivale a mais verdade.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o uso nocivo do álcool está associado a milhões de mortes anuais no mundo, além de impacto significativo na saúde mental e nas relações sociais. O alcoolismo é reconhecido como transtorno de saúde pública, com múltiplas dimensões — biológicas, psicológicas e sociais. Contudo, além dos danos físicos e comportamentais, há um aspecto menos discutido e profundamente relevante: o impacto na construção da identidade.

 

O ÁLCOOL COMO ORGANIZADOR PSÍQUICO

A psicanálise oferece uma chave importante para compreender essa dimensão. O sujeito, na perspectiva freudiana e pós-freudiana, não é um bloco estável e coeso, mas uma estrutura atravessada por conflitos, desejos inconscientes e mecanismos de defesa. O álcool pode funcionar como um organizador psíquico precário, uma tentativa de regular afetos que não encontraram simbolização suficiente. Ele pode atenuar a severidade do superego, silenciar angústias, aliviar sentimentos de inadequação. Ao fazer isso, cria a sensação de que o eu “melhora”.

No entanto, o que melhora é a percepção momentânea, não necessariamente a estrutura. O sujeito sente-se mais confiante, mas essa confiança depende da substância. Com o tempo, passa a acreditar que aquela versão é a verdadeira, e que a versão sóbria é insuficiente, tímida ou incompleta. Instala-se uma dependência não apenas química, mas identitária.

 

O ESTRANHAMENTO DA SOBRIEDADE

Quando finalmente ocorre um período mais longo de abstinência, surge algo inesperado: estranhamento. A pessoa percebe que não sabe exatamente como agir em determinadas situações sociais. Descobre uma timidez que antes parecia inexistente. Encontra ansiedade onde antes havia euforia. Esse momento pode ser vivido como perda — “eu era melhor quando bebia” — mas talvez seja, na realidade, contato com camadas nunca plenamente exploradas.

A filosofia existencial ajuda a iluminar esse processo. Para Jean-Paul Sartre, a existência precede a essência: não nascemos com uma identidade pronta; vamos nos construindo por meio das escolhas que realizamos. Se, durante anos, a escolha foi beber para enfrentar o mundo, essa decisão moldou um modo de ser. Ao retirar o álcool, não se descobre automaticamente um “eu verdadeiro” escondido. Descobre-se um espaço de liberdade — e, junto com ele, responsabilidade.

Sem o álcool, não há mais intermediário. Não há mais justificativa externa para comportamentos. A autoria retorna ao sujeito. Isso pode ser assustador. Porque assumir autoria implica reconhecer limites, fragilidades e também potencialidades.

 

O LUTO PELA VERSÃO QUE BEBIA

Muitas pessoas relatam que somente após um período consistente de sobriedade começaram a compreender quem eram sem a bebida. No início, a abstinência pode ser vivida apenas como esforço. A atenção está voltada para não beber. Mas com o passar do tempo, quando o organismo se estabiliza e o pensamento se torna mais claro, surge espaço para reflexão mais profunda: o que eu gosto de fazer? Como eu me relaciono? Que tipo de pessoa quero ser?

Há também um luto envolvido. Luto pela versão expansiva e desinibida que parecia mais aceita socialmente. Luto pela sensação de facilidade. O álcool oferecia uma via rápida para conexões superficiais, para risadas fáceis, para a suspensão temporária da autoconsciência. Abrir mão disso exige atravessar um vazio. Esse vazio não é apenas ausência da substância; é ausência de uma identidade sustentada artificialmente.

 

A RECONSTRUÇÃO DO EU

No entanto, é justamente nesse vazio que algo novo pode emergir. Ao permanecer nele — sem fugir, sem anestesiar — o sujeito começa a descobrir nuances mais autênticas. Talvez perceba que não é naturalmente extrovertido, mas profundamente observador. Talvez compreenda que sua alegria não precisa ser ruidosa para ser legítima. Talvez descubra talentos e interesses que eram abafados pela rotina da bebida.

A sobriedade prolongada também permite reorganização neurobiológica. Estudos indicam que, com a interrupção do consumo, há recuperação gradual de funções cognitivas e emocionais. A memória melhora, o sono se estabiliza, a capacidade de planejamento se fortalece. Essa reorganização contribui para uma percepção mais estável de si mesmo. O humor deixa de oscilar de acordo com a intoxicação e a abstinência, permitindo contato mais constante com o próprio estado interno.

No plano existencial, esse processo exige coragem. Coragem para admitir que parte da personalidade construída estava apoiada em um recurso externo. Coragem para experimentar situações sociais sem o “escudo” químico. Coragem para suportar a ansiedade inicial. Mas também coragem para descobrir que talvez você seja suficiente sem o álcool.

 

IDENTIDADE COMO PROCESSO, NÃO COMO ESSÊNCIA

A pergunta “quem sou eu sem a bebida?” não deve ser respondida rapidamente. Ela precisa ser vivida. Só após um período significativo de afastamento e entrega genuína ao processo de autocompreensão é que uma resposta começa a se delinear — não como definição rígida, mas como direção.

Não se trata de encontrar uma essência pura e intacta, como se o verdadeiro eu estivesse escondido atrás de uma cortina de etanol. A psicanálise ensina que o sujeito é construção, processo, narrativa em movimento. A sobriedade não revela um núcleo fixo; ela oferece a oportunidade de construir com mais consciência.

 

A LIBERDADE DE TORNAR-SE

Talvez você descubra que é mais sensível do que imaginava. Talvez mais responsável. Talvez menos impulsivo. Talvez mais profundo. Talvez menos expansivo, mas mais verdadeiro. O que importa não é corresponder à imagem que o álcool ajudava a projetar, mas construir uma identidade que possa se sustentar sem depender de anestesia.

A busca por quem se é sempre foi um movimento humano essencial. Mas quando atravessada pelo alcoolismo, ela se transforma em trabalho de reconstrução. Não se trata apenas de abandonar uma substância, mas de reescrever a narrativa. A sobriedade não é apenas ausência de bebida; é presença de si.

E você, quem é sem o álcool?

Permita-se não saber de imediato. Permita-se explorar. Permita-se falhar, ajustar, descobrir. A identidade não é um destino fixo; é um percurso. E talvez, ao longo desse caminho, você perceba que a versão mais sólida de si não é a mais barulhenta, mas a mais consciente.

A liberdade que emerge desse processo não é eufórica. É silenciosa, estável e responsável. É a liberdade de tornar-se, apesar da própria história.


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

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