Talvez não seja algo concreto. Talvez seja apenas uma sensação difusa de que alguma coisa precisa finalmente se organizar lá fora para que, então, você consiga mudar aqui dentro. Um pedido de desculpas que nunca veio. Um reconhecimento que não chegou. Um contexto mais leve. Um dia menos pesado. E enquanto isso não acontece, a vida fica em suspensão.
Existe uma forma silenciosa de aprisionamento que não aparece como crise, nem como colapso. Ela aparece como espera. Esperar que o outro entenda, que a dor diminua, que o mundo finalmente facilite. Mas, com o tempo, essa espera começa a ter um custo. Porque enquanto você espera, você não se move. E a vida, mesmo assim, continua passando.
Culpar o mundo, as circunstâncias ou as pessoas não é apenas um erro — é também uma forma de permanecer. “Foi o trabalho.” “Foi o relacionamento.” “Foi o estresse.” “Foi a vida.” E muitas vezes, de fato, foi. Mas existe uma diferença importante entre entender o que aconteceu e continuar vivendo a partir disso como se nada mais pudesse ser feito.
Existe uma frase de Viktor Frankl que atravessa esse ponto com precisão: “Quando não podemos mais mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos.” Isso não apaga o que aconteceu, mas impede que tudo termine ali.
A vida contemporânea não é leve. É excesso de estímulo, de cobrança, de velocidade. Tudo pede resposta rápida, desempenho constante, presença contínua. E, ao mesmo tempo, falta algo: tempo para sentir, para parar, para existir sem produzir. Nesse cenário, o álcool aparece como um atalho. Não apenas para o prazer, mas para o alívio.
Por algumas horas, ele desacelera o mundo interno. Facilita o contato. Diminui o peso de existir. Mas o que começa como alívio pode virar dependência, porque o cérebro aprende rápido: se algo dói, beba. Se algo pesa, beba. Se algo falta, beba.
Falar de responsabilidade, nesse contexto, pode soar como mais uma cobrança. Como se não bastasse tudo, ainda fosse preciso dar conta de si mesmo. Mas talvez responsabilidade não seja isso. Talvez não seja carregar tudo sozinho, mas reconhecer que, a partir de um certo ponto, ninguém mais pode viver por você.
James Baldwin escreveu: “Nem tudo que é enfrentado pode ser mudado, mas nada pode ser mudado até que seja enfrentado.” E talvez seja aí que algo começa. No momento em que você para de evitar e começa, ainda que minimamente, a se implicar.
No começo, isso pesa. Porque desmonta uma esperança silenciosa: a de que, em algum momento, alguém ou algo ainda vai resolver por você. Mas, aos poucos, algo muda. Se algo depende de você, então existe margem. Mesmo que pequena. E isso altera completamente a posição: de quem espera para quem age.
No alcoolismo, essa mudança é decisiva. Porque enquanto o álcool for a resposta automática para tudo — cansaço, ansiedade, solidão, vazio — você continua dependendo de algo externo para se regular. E isso mantém um ciclo: desconforto, álcool, alívio, repetição.
Assumir responsabilidade não é parar de sentir. É começar a perguntar: o que eu faço com isso que estou sentindo? Sem fugir imediatamente.
Existe uma resistência silenciosa em relação ao cuidado de si. Como se fosse pesado demais, exigente demais, ou até uma forma de punição. Mas talvez cuidar de si seja justamente o contrário. Talvez seja maturidade. Não aquela que endurece, mas aquela que sustenta. Que cria limites, reconhece necessidades e não abandona a si mesmo quando as coisas ficam difíceis.
Russell Brand escreve: “Recuperação é responsabilidade radical: parar de culpar o mundo e começar a cuidar de si.” Radical aqui não significa extremo. Significa ir à raiz. E a raiz, muitas vezes, é esse momento em que a narrativa muda. Não mais “o que fizeram comigo”, mas “o que eu faço com o que fizeram comigo”.
Isso não resolve tudo. Não elimina o passado. Mas impede que ele seja o único organizador do presente.
Talvez liberdade não seja ter uma vida perfeita. Nem resolver tudo. Talvez seja algo mais simples — e mais difícil: não depender exclusivamente do mundo para poder viver melhor. Isso não significa que tudo depende de você. Mas significa que alguma coisa depende. E é aí que algo começa a mudar.
Talvez não seja sobre grandes decisões. Talvez seja só sobre uma pergunta simples: o que, hoje, depende de mim? E começar por isso. Sem perfeição. Sem pressa. Sem promessa de resultado imediato. Só movimento.
Existe um momento em que a espera se esgota. E o que fica não é certeza. É escolha. Não uma escolha grandiosa, mas uma decisão silenciosa: parar de esperar que o mundo resolva e começar, ainda que imperfeitamente, a cuidar da própria vida.
Mesmo que devagar.
Mesmo que incompleto.
Mesmo assim.
Rafa Pessato
Embriague-se de si












