Existe um ponto em que a vida parece desajustada. A rotina segue, as obrigações são cumpridas, os sorrisos são distribuídos no piloto automático. Por fora, tudo parece em ordem. Mas por dentro… um aperto no peito, um vazio no estômago, uma inquietação sem nome. Uma vontade de fugir, de esquecer, de silenciar. E para isso, cada um encontra o seu alívio. Uns comem demais. Outros trabalham até a exaustão. Alguns se perdem em redes sociais. E muitos, silenciosamente, bebem.
É fácil apontar para o álcool e dizer: “o problema é a bebida”. Mas e se eu te dissesse que o buraco é mais embaixo? Ou, melhor dizendo, mais dentro?
O que vivemos, muitas vezes, não é simplesmente um vício ou um hábito ruim. É um ciclo. Um ciclo de desconexão.
Vamos caminhar por ele juntos?
O COMEÇO INVISÍVEL: O AFASTAMENTO DE SI
A desconexão raramente começa com um evento grandioso, apesar de poder ocorrer também. Contido, no geral ela começa sutil. Um pequeno abandono. Um “não” não dito. Um limite ultrapassado. Um desejo ignorado. Um silêncio engolido.
Aos poucos, você vai se afastando de quem é. Suas escolhas passam a ser baseadas no que esperam de você, e não no que você deseja. Você se molda, se adapta, se encaixa. E sem perceber, vai deixando partes suas pelo caminho.
Esse movimento interno — muitas vezes inconsciente — começa a gerar desconforto. Um desconforto sem nome, uma sensação de não pertencimento, de esvaziamento. A essa sensação damos muitos nomes: tédio, ansiedade, cansaço, estresse. Mas ela é, na verdade, um sinal: você está longe de si.
A ANGÚSTIA COMO ALERTA
Essa angústia, essa inquietação, não é defeito. É alarme. É o corpo e a alma tentando te avisar: tem algo importante que está sendo ignorado. Você.
Mas como aprendemos desde cedo a não dar ouvidos a essas vozes internas — porque precisamos ser fortes, produtivos, agradáveis —, a tendência é calar essa angústia. E, em vez de escutá-la, buscamos distrações.
Começa o ciclo.
O FALSO ALÍVIO: O REFÚGIO QUE APRISIONA
Você bebe. E a primeira taça traz alívio. Relaxamento. Uma trégua no caos. A mente e os pensamentos desaceleram. O corpo solta. Parece bom. E, de fato, naquele momento, é. Porque a bebida funciona.
Sim, funciona.
Mas funciona como um silenciador. Ela abafa a dor, mas não cura a ferida. Adormece o grito, mas não escuta o que ele tem a dizer. E é aí que mora o problema. Porque, passada a anestesia, a angústia volta. E, com ela, a culpa, a ressaca, o vazio. Então, para escapar novamente disso tudo, você bebe mais. E mais. E mais.
Até que chega um ponto em que nem o alívio existe mais. Só a repetição automática de um comportamento que já não oferece prazer, só dependência. E cada vez mais longe de si.
O ciclo da desconexão está completo:
- Você se desconecta de quem é.
- Sente angústia crescente.
- Busca um alívio imediato.
- Encontra um alívio temporário (álcool, comida, trabalho, etc.).
- Esse alívio passa.
- A angústia volta ainda mais forte.
- O comportamento se repete.
- A desconexão se aprofunda.
E o ciclo recomeça.
MAS SE É UM CICLO, ELE PODE SER INTERROMPIDO, CERTO?
Exato.
Nem sempre o problema é o que você acredita
É natural pensar que a bebida é o problema. Ela causa estragos. Ela nos expõe. Ela nos limita. Ela nos fere.
Mas, muitas vezes, ela é só o sintoma. A consequência de uma raiz mais profunda: a ausência de conexão com quem você é de verdade.
Essa desconexão não acontece de um dia para o outro. Ela é construída em camadas, com anos de autoabandono, medo, traumas, expectativas alheias, padrões herdados. Mas também pode ser desconstruída, camada por camada, com coragem, presença e escuta interna.
Por isso, tentar largar o álcool apenas pela força de vontade, sem olhar para o que ele representa na sua vida, pode ser ineficaz. Porque o que precisa ser mudado não é apenas o comportamento, mas a relação com sua própria existência.
O uso excessivo do álcool é, em muitos casos, uma estratégia de sobrevivência. Uma tentativa de não sentir o que dói. Mas viver anestesiado é viver pela metade.
Você merece mais do que isso.
A possibilidade de um novo ciclo
E se, em vez de fugir da dor, você aprendesse a escutá-la?
E se, ao invés de buscar anestesia, você buscasse presença?
E se começasse a reconstruir, aos poucos, a ponte de volta para si?
Conectar-se consigo não é um processo rápido, nem fácil. Mas é possível. E começa com pequenos movimentos: um momento de silêncio sem distração, um sim dito com firmeza, um não pronunciado com amor, um pedido de ajuda feito com coragem.
A reconexão começa quando você para de se tratar como problema e começa a se tratar como alguém que está tentando encontrar o caminho de volta para casa.
Porque é isso: você não está perdido. Só está afastado de si. E a volta é possível.
POR ONDE COMEÇAR?
Aqui vão algumas perguntas que podem te ajudar a dar os primeiros passos rumo à reconexão:
- O que estou tentando evitar sentir quando busco esse alívio?
- Em que momentos do dia me sinto mais eu?
- O que me faz sentir vivo?
- Quais comportamentos repito automaticamente que não me servem mais?
- O que estou precisando — de verdade — quando bebo, como, compro ou fujo?
Essas perguntas não têm respostas fáceis, nem rápidas. Mas elas te colocam em movimento. E movimento é vida.
Mesmo por que…
Não é sobre se livrar de algo, mas sobre se aproximar de si. Não é sobre controlar excessos, mas sobre entender o que os alimenta. Não é sobre parar de beber, comer ou fugir. É sobre começar a se ouvir.
Quando você se aproxima de quem é, naturalmente, os excessos perdem força. A necessidade de anestesia diminui. E a vida começa a fazer mais sentido — mesmo nos dias difíceis.
Você não está quebrado. Está desconectado.
E a reconexão é possível.
Com presença, gentileza e verdade.
Esse é o verdadeiro ponto de virada.
É aí que a liberdade começa.