A luz de um pôr-do-sol mancha de âmbar o copo que já não se chama taça, que já não se enche apenas de líquido, mas de sustos, de gestos ensaiados, de promessas quebradas. Para quem viveu – e muitas vezes ainda vive – sob o signo da dependência, o copo foi palco, escada, muralha e, ao mesmo tempo, mão rachada que segurava o brinde para si mesmo. E, de repente, ele silencia. A sobriedade se anuncia quase sem festa, quase sem trombetas; e no silêncio da manhã seguinte talvez seja, pela primeira vez, a própria vida que pede atenção.
O CORPO QUE BEBE E O CORPO QUE RESISTE
Quando falamos de alcoolismo, ou mais especificamente Transtorno Por Uso de Álcool (TUA), falamos de algo que ultrapassa o copo: é o organismo, o sistema nervoso, o mapa emocional que se desconfigura. Segundo a Organização Mundial de Saúde, o uso nocivo de álcool leva a cerca de 2,6 milhões de mortes por ano e está presente em mais de 230 doenças.
A perda de controle, a tolerância, o desejo que se impõe apesar do dano: isto não é fraqueza moral, é um padrão neurofisiológico e psicológico — o cérebro reserva-se para sobreviver e, no entanto, se deixa aprisionar.
Para você que leu até aqui, que sente esse puxão dentro: saiba que não está sozinho. A dependência não é escolha consciente de ceder à taça; muitas vezes é um longo caminho de autoproteção mal orientada, um abrigo que se fez tempestade.
A ROTINA DA BEBIDA E O VAZIO DISFARÇADO DE COR
Vivemos na cultura do “um brinde ao dia” — e esse brinde, aos poucos, torna-se anatomia de fuga, ceia de ilusão, música de fundo sem letra. A rotina da bebida cria uma espécie de zona segura: ao menos o efeito era previsível, o levantar do copo era o gesto-âncora. Mas essa rotina nos leva a um paradoxo: a repetição que dá segurança também adensa o estranhamento — o estranhamento consigo mesmo. É como se o corpo repousasse, mas não dormisse; como se a mente estivesse num salão de espelhos onde todos refletem o eu mutilado.
E então aparece o termo “gatilhos emocionais”: o telefonema, a reunião, o silêncio, o abraço que faltou, a culpa inexplicada. São esses gatilhos que acionam o consumo antes mesmo que o corpo perceba. E quando o copo sobe, o vazio dentro já revirou a cadeira.
O MOMENTO “JÁ NÃO SOU EU” E A RECAÍDA ANUNCIADA
Há um instante — muitas vezes sutil — em que o usuário percebe: “não sou mais eu” ou “sou outro”. A voz interna que dizia “só um” já não responde. Ou pior: responde alto demais. Os valores mudaram? Ou apenas o espelho caiu?
A recaída — palavra temida — surge não como falha absoluta, mas como sinal de que algo está vivo ainda, algo que busca sentido. Como eco da visão de Viktor Frankl sobre o homem que procura sentido mesmo sob as ruínas: pode haver queda, mas ainda há caminho.
Segundo dados dos Estados Unidos, cerca de 10,2% das pessoas de 12 anos ou mais tiveram TUS em 2020. A recaída, portanto, não é anomalia moral — ela é parte da história. E negar isso é elevar o silêncio ao lugar do juiz.
A SOBRIEDADE NÃO É AUSÊNCIA — É PRESENÇA
Quando a rotina do álcool se arredonda, sobra-se o tempo, sobra-se o silêncio, sobra-se o olhar que volta para dentro. A palavra “sobriedade” sugere severidade, mas viva-a como leveza: menos sobre o peso que se deixa de carregar, mais sobre o corpo que se descobre leve para sentir.
É aqui que a “taça vazia” se faz metáfora: aquela que não se enche mais de bebida agora pode encher-se de céu, de chuva que cai devagar, de conversa que não exige brinde, de domingo de manhã com luz dentro. A sobriedade é aquela rotina que não seduz pela excitação, mas pela clareza. Como se o relógio interno — antes atravessado por brumas — despertasse em velocidade normal.
E essa claridade permite que apareça o “eu autêntico”, termo caro a quem busca não o aplauso, mas a consistência. A rotina sem álcool não precisa ser monótona: ela pode ser ritual, desenho, escritório, mapa, silêncio criativo. E se Nietzsche dizia que devemos nos tornar quem somos, imagine-se agora reconstruindo-se — sem o fundo da taça, mas com o fundo do próprio olhar.
O CORPO, O CÉREBRO E A NOVA ARQUITETURA DO DIA A DIA
A dependência alterou o circuito: a bebida virou neurotransmissor, o hábito virou automatismo. Romper esse ciclo exige mais que força de vontade — exige gentileza com o corpo, atenção ao vazio, compaixão pela criança interior que foi anestesiada.
Aqui entra a noção de que o cérebro com TUA muda: “Alterações duradouras no cérebro causadas pelo uso indevido de álcool perpetuam o transtorno por uso de álcool (TUA) e tornam os indivíduos vulneráveis à recaída.” Ou seja: o corpo guarda mapa, o corpo guarda rota. Sobriedade não é virar a página de uma vez; é reescrever o rascunho com a mão trêmula, depois escolher a tinta.
No cotidiano isso significa: levantar no horário, olhar o espelho, perceber a pulsação, respirar sem ruído. É vê-se passar a colher no café sem pressa, devolvendo ao dia sua gravidade leve. É fazer um “check-in” consigo antes das reuniões, dos alertas, dos impulsos. É permitir que a autenticidade – essa palavra que parece abstrata – penetre na rotina e a transforme.
GATILHOS, ARMADILHAS E PEQUENAS VITÓRIAS INVISÍVEIS
Um barulho no coração, um sorriso que dói, a sugestão de “só um” — são os gatilhos que nos colocam novamente na frente da taça. Para quem caminha para a sobriedade, identificá-los é importante, mas talvez mais importante seja: não tornar a identificação um ponto de vergonha.
A lógica não é “evitar todos os gatilhos”, mas construir-se um core-forte: o lugar onde, quando o gatilho tocar, você já tem outro som, outro gesto, outro copo — talvez de água —, antes que o impulso mande. São vitórias pequenas: o primeiro aperto forte da mão no fim do dia, o primeiro “não” silencioso que você disse para si mesmo, o primeiro sono sem ressaca.
E essas vitórias não precisam de troféu. Como diria Simone de Beauvoir em suas reflexões: a liberdade surge no momento em que a responsabilidade sobre si mesma se torna visível. Não é heroísmo, é presença. Cada manhã em que você acorda e escolhe pela vida — essa é a vitória.
A ROTINA QUE FLORESCE E A ALEGRIA INESPERADA
Quando o álcool sai do centro, o dia a ganhar-se. A rotina deixa de ser cárcere e passa a ser palco de sutilezas: o sabor novo do suco, o vento na janela, o som do silêncio que não pede anestesia. Aí a sobriedade revela seu paradoxo: é no banal que se encontra o sublime.
O filósofo que não nomeamos dizia que a angústia é condição da liberdade; aqui, o caminho é perceber que a sobriedade não elimina o vazio — só muda a forma de lidar com ele. E no vazio, no lugar onde antes se vertia álcool, pode surgir uma artéria de sentido. Todos os dias — uma pincelada na tela em branco.
Recupere o ritual da manhã: arrumar a cama, tocar a planta, olhar-se no espelho e dizer: “estou presente”. Cultive o hábito de agradecer: não por ser “ex-bebedor”, mas por estar vivo para testemunhar o respirar. E perceba: cada dia leve torna-se acumulação de credibilidade pessoal. Autenticidade — termo que aqui não é modismo — é seu espelho sem filtro.
SOBRIEDADE, IDENTIDADE E NOVO PACTO
Quem bebeu para calar o ruído interno, quem bebeu para preencher o vácuo, quem bebeu para pertencer — esse alguém agora enfrenta uma pergunta: “quem eu sou quando o copo está vazio?” E não há resposta vestida nem fácil. Há escavação. Há reconstrução.
A matriz da dependência se instala no ser fragmentado; a jornada da sobriedade então é recompor o roteiro — não para ser perfeito, mas para ser verdadeiro. A autenticidade não é licença poética, é escolha prática.
Você construirá, no silêncio que antes fugia, um novo pacto consigo: não mais o pacto da negação (“não beberei”), mas da presença (“eu estarei”). O pacto não vira código moral — vira mapa de estrada. Os tropeços podem ocorrer, talvez ocorram: com menos culpa, com mais clareza. A recaída deixa de ser falha mortal e passa a ser alarme que nos avisa: voltar ao centro, relembrar o pacto, retomar o copo de água.
O SABOR DA VIDA E A “EMBRIAGUEZ” QUE NÃO SAI DA GARRAFA
Existe um termo que o alcoolista teme: “prazer”. Mas é um prazer que se perdeu no átomo da bebida. Agora, imagine outro tipo: o prazer discreto da clareza visual, o prazer do abraço que não exige confirmação, o prazer da tarefa simples feita bem. Esse prazer não é menor — talvez seja mais intenso porque não anestesia, ele revela.
Até Kierkegaard sugeriu que a angústia é uma possibilidade de liberdade: aqui, a rotina sem álcool confronta essa angústia e convida à escolha. Se antes se bebia para esquecer o próprio rosto, agora se escolhe ver-lo. A beleza do dia a dia se faz taça transbordando — não de bebida, mas de atenção.
Faça do café da manhã uma celebração silenciosa. Do pôr-do-sol, um aplauso modesto. Da caminhada no bairro, um rito de pertencimento ao mundo real, pulsante, impreciso, autêntico. A sobriedade permite que a vida volte a despedir-se de sua própria urgência e retorne ao ritmo que lhe é próprio.
O BRINDE ESTÁ EM LEVANTAR-SE
Agora, o levantar da taça — a si mesmo, à vida — já é brinde suficiente. A rotina sem álcool não é ausência de evento, é reencontro com o que passou despercebido: o som do coração, a respiração, o nome pronunciado com clareza.
Você que leu até aqui — talvez sem que ninguém jamais lhe dissesse em palavra-clara: “não é só sobre parar de beber”. É sobre começar a viver de novo. E viver não como quem permanece à margem, mas como quem entra no palco. A sobriedade exige presença, exige coragem, exige que você aceite tanto a luz quanto a sombra.
Em última análise, a rotina sem álcool pode não parecer festiva — e talvez seja justamente isso que a torna potente: não há espetáculo, há autenticidade. E a autenticidade foi condição de todos os grandes pensadores que nos precederam — não para que fossem santos, mas para que fossem claros. Você está nessa linha — não como sobrevivente passivo, mas como autor de si mesmo.
Erga a taça: não para derramar. Para brindar à vida que você escolheu presenciar.
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento













