Home / SUPERAR / MAU HUMOR NA SOBRIEDADE: Por que ao parar de beber surge a raiva e como reorganizar o humor

MAU HUMOR NA SOBRIEDADE: Por que ao parar de beber surge a raiva e como reorganizar o humor

Parar de beber é, muitas vezes, descrito como um alívio (e, sim, ele chega). Mas para muitos alcoolistas, o que vem depois da última dose não é paz imediata. É desconforto, e ele pode vir acompanhado de raiva. É irritação constante. É impaciência com o mundo. É um mau humor que parece não ter fim. Quem convive com alguém em abstinência costuma dizer: “era melhor quando bebia, pelo menos ficava alegre”. E quem parou de beber, em silêncio, se pergunta: “por que estou assim? Se parei, não era para melhorar?”

Essa pergunta é legítima. E precisa ser tratada com seriedade. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o uso nocivo de álcool está associado a mais de 3 milhões de mortes por ano no mundo, além de inúmeros impactos sociais, familiares e psíquicos. Mas o dado que raramente aparece nas conversas cotidianas é que o sofrimento psíquico não desaparece automaticamente com a retirada da substância. Em muitos casos, ele aparece com mais nitidez.

Este artigo é para quem parou de beber — ou está tentando — e percebeu que o humor piorou. Para quem sente raiva de tudo, intolerância, impaciência, tristeza disfarçada de agressividade. E também para quem convive com essa fase e não entende o que está acontecendo.

Não se trata de fraqueza moral. Não se trata de “falta de gratidão”. Trata-se de um processo psíquico, neurobiológico e existencial profundo.

 

O ÁLCOOL COMO REGULADOR ARTIFICIAL DO HUMOR

O álcool não é apenas uma bebida. Ele atua diretamente no sistema nervoso central, interferindo em neurotransmissores como dopamina, GABA e serotonina — substâncias ligadas à sensação de prazer, relaxamento e regulação emocional. Quando alguém bebe de forma repetida e prolongada, o cérebro se adapta à presença constante da substância. Ele passa a funcionar “com álcool”.

Ao interromper o consumo, ocorre um desarranjo temporário. O cérebro precisa reaprender a regular o humor sem o auxílio químico. Isso pode gerar irritabilidade, ansiedade, insônia, tristeza e explosões de raiva. Não é exagero dizer que o organismo entra em estado de desorganização.

Mas não é só química.

Do ponto de vista psicanalítico, o álcool muitas vezes funciona como um anestésico emocional. Ele amortece frustrações, silencia angústias, suspende conflitos internos. Quando a bebida sai de cena, o que estava amortecido reaparece. E reaparece sem filtro.

A raiva que surge na abstinência, em muitos casos, não é nova. Ela sempre esteve ali. O álcool apenas a mantinha abafada.

 

A RAIVA COMO SINTOMA E NÃO COMO DEFEITO

Na clínica psicanalítica, a raiva não é vista como um defeito moral, mas como um sinal. Ela indica que algo está em conflito. Que há dor. Que há frustração acumulada. Que há expectativas não correspondidas.

Quando o alcoolista para de beber, ele perde seu principal mecanismo de fuga. Antes, ao sentir frustração, bebia. Ao sentir tédio, bebia. Ao sentir rejeição, bebia. Ao sentir vazio, bebia. A bebida funcionava como uma solução imediata para qualquer desconforto.

Sem ela, surge o confronto direto com o real.

E o real, muitas vezes, é duro.

É comum ouvir: “parei de beber e comecei a enxergar problemas que antes não via”. Conflitos familiares, dificuldades financeiras, relações fragilizadas, culpas acumuladas. O álcool criava uma névoa. Ao dissipá-la, o mundo parece mais áspero.

O filósofo Jean-Paul Sartre dizia que estamos condenados à liberdade. Ao parar de beber, o sujeito reencontra essa liberdade — e com ela, a responsabilidade por suas escolhas, seu passado e seu futuro. Isso pode gerar angústia. E a angústia frequentemente se manifesta como irritação.

 

SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA E DESREGULAÇÃO EMOCIONAL

Do ponto de vista clínico, a interrupção do consumo pode desencadear sintomas de abstinência, que variam de leves a graves. Entre os sintomas mais comuns estão tremores, sudorese, ansiedade intensa, insônia e alterações de humor.

Mesmo após a fase aguda da abstinência, muitos experimentam o que se chama de “síndrome de abstinência prolongada”, com oscilações de humor que podem durar meses. O cérebro precisa de tempo para restabelecer seu equilíbrio químico.

É importante compreender que o mau humor nesse período não significa fracasso. Significa adaptação. No entanto, reduzir tudo à biologia seria simplificar demais. O sofrimento emocional também tem história.

 

O LUTO PELO ÁLCOOL

Pouco se fala sobre isso, mas parar de beber envolve um luto. O álcool foi companheiro. Foi refúgio. Foi mediador social. Foi anestésico. Foi, muitas vezes, a única forma conhecida de lidar com a dor.

Ao abandonar a bebida, o sujeito perde algo que ocupava lugar central em sua vida. E toda perda exige elaboração.

Na psicanálise, entende-se que o luto não é apenas tristeza. É também irritação, negação, ambivalência. O alcoolista pode sentir saudade da sensação que a bebida proporcionava, ao mesmo tempo em que reconhece os prejuízos que ela causou. Essa ambivalência gera tensão interna.

“Era ruim, mas era meu.” Essa frase resume muito do que acontece.

Reconhecer que existe um luto é fundamental. Não se trata de romantizar o álcool, mas de admitir que ele ocupava um lugar psíquico importante. Negar isso apenas intensifica a irritação.

 

A RAIVA COMO DEFESA CONTRA A TRISTEZA

Muitas vezes, o que aparece como mau humor é tristeza não reconhecida. A raiva pode funcionar como defesa contra sentimentos mais vulneráveis. É mais fácil ficar irritado do que admitir medo, culpa ou fragilidade.

O alcoolismo frequentemente mascara dores antigas: experiências de rejeição, traumas, perdas, humilhações. O álcool atua como um amortecedor. Sem ele, o contato com essas memórias pode ser intenso.

A irritação constante pode ser uma tentativa inconsciente de evitar o contato com essa dor mais profunda.

Como escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade: “No meio do caminho tinha uma pedra”. Parar de beber é encontrar a pedra. Não dá mais para contorná-la com goles.

 

POR QUE TUDO IRRITA?

Ao parar de beber, há uma hipersensibilidade emocional. Sons incomodam mais. Comentários parecem ataques. Pequenas frustrações ganham proporções enormes.

Isso ocorre porque o sistema de regulação emocional ainda está frágil. O álcool reduzia a percepção do incômodo. Sem ele, tudo é sentido com mais intensidade.

Além disso, existe uma expectativa irreal de que a abstinência trará felicidade imediata. Quando essa expectativa não se cumpre, surge frustração. E a frustração se transforma em raiva.

É importante ajustar a expectativa: parar de beber não resolve automaticamente conflitos internos. Ele abre a possibilidade de resolvê-los.

 

COMO ORGANIZAR O HUMOR NA ABSTINÊNCIA

Organizar o humor não significa nunca mais sentir raiva. Significa aprender a reconhecer, compreender e expressar emoções sem recorrer ao álcool.

Alguns pontos são fundamentais:

  1. Aceitar que o mau humor faz parte do processo. Resistir ao sentimento tende a intensificá-lo. Reconhecer: “estou irritado e isso faz parte da adaptação” já reduz a culpa.
  2. Buscar acompanhamento profissional. Escuta qualificada, como a psicanálise, ajuda a compreender a função que o álcool ocupava na vida psíquica. Em alguns casos, acompanhamento psiquiátrico pode ser necessário.
  3. Regular o corpo. Sono, alimentação e atividade física influenciam diretamente o humor. O cérebro em recuperação precisa de cuidado.
  4. Criar novos rituais. Se antes o fim do dia estava associado ao bar, é preciso construir outro marco simbólico para encerrar o dia. Caminhar, ler, ouvir música, escrever. O vazio do antigo ritual precisa ser preenchido.
  5. Falar sobre a raiva. Guardá-la aumenta a tensão. Expressá-la com responsabilidade diminui sua intensidade.

 

A CONSTRUÇÃO DE UM NOVO EU

Parar de beber é, em certo sentido, reconstruir a própria identidade. Muitos alcoolistas associaram sua personalidade ao consumo: “sou mais solto quando bebo”, “sou mais divertido”, “sou mais corajoso”.

Na abstinência, surge a pergunta: “quem sou eu sem o álcool?”

Essa pergunta pode gerar insegurança e irritação. Mas também é uma oportunidade de descoberta. A autenticidade não depende da substância.

O filósofo Søren Kierkegaard afirmava que a angústia é o preço da possibilidade. Sentir-se perdido faz parte da construção de algo novo.

 

QUANDO O MAU HUMOR NÃO PASSA

Se após meses de abstinência o humor permanece intensamente alterado, pode haver comorbidades como depressão ou transtornos de ansiedade que estavam mascarados pelo uso de álcool. Nesses casos, é importante procurar ajuda especializada.

Parar de beber é um passo. Cuidar da saúde mental é outro.

 

NÃO É SOBRE SER UMA PESSOA PIOR

Muitos alcoolistas relatam culpa por estarem “insuportáveis” após parar de beber. É preciso romper essa narrativa. O mau humor na abstinência não é prova de caráter falho. É expressão de um sistema que está se reorganizando — biologicamente e psiquicamente.

A raiva pode ser transformada em energia para mudança. Pode sinalizar limites antes ignorados. Pode indicar necessidades não atendidas.

Organizar o humor é um processo. Exige tempo. Exige paciência. Exige suporte.

Mas é possível.

E, principalmente, é humano.

Parar de beber não transforma ninguém em santo. Transforma em alguém que começa a sentir sem anestesia. E sentir, às vezes, dói. Mas é também o caminho para uma vida mais consciente e menos refém da substância.

A abstinência não é o fim do sofrimento. É o início do enfrentamento.

E enfrentar, apesar do desconforto, é um ato de coragem.


Rafa Pessato

Embriague de si

rafapessato.eu

Marcado: