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CUIDAR SEM SE APAGAR. Maternidade, Paternidade E Alcoolismo

Cuidar de alguém exige presença.

E o alcoolismo, em qualquer grau, opera justamente na direção contrária: ele retira presença, mesmo quando o corpo permanece ali. Não é raro que mães e pais alcoolistas relatem uma sensação paradoxal — estão fisicamente disponíveis, cumprem tarefas, mantêm a rotina, mas sentem que algo essencial escapa. Um tipo de ausência silenciosa que não se mede em faltas objetivas, mas em desconexão afetiva.

Este texto não parte da ideia simplista de que “pais alcoolistas não cuidam”. Muitos cuidam. Cuidam exaustos, fragmentados, anestesiados. O ponto central é outro: o alcoolismo frequentemente transforma o cuidado em um gesto que consome o sujeito por dentro, até que, aos poucos, ele próprio desaparece da própria vida.

Na seção Fluir, o convite não é apenas interromper o excesso. É reorganizar a energia psíquica, deslocar o que antes era usado para sobreviver para uma forma mais autêntica de existir — inclusive no exercício da parentalidade.

 

O ALCOOLISMO COMO DOENÇA RELACIONAL

O alcoolismo é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como um transtorno mental e comportamental relacionado ao uso de substâncias psicoativas (CID-11). Mas, do ponto de vista clínico e social, ele raramente afeta apenas o indivíduo. Trata-se de uma doença profundamente relacional.

Segundo estudos da American Academy of Pediatrics e do National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA), crianças que crescem em contextos de uso problemático de álcool não sofrem apenas com eventos agudos — brigas, esquecimentos, ausências pontuais. Sofrem, sobretudo, com inconsistência emocional, imprevisibilidade e dificuldade de leitura afetiva dos cuidadores.

Isso não ocorre porque mães e pais alcoolistas não amam seus filhos. Ocorre porque o álcool interfere diretamente nos sistemas neurobiológicos ligados à regulação emocional, empatia e responsividade — como o eixo dopamina-serotonina-cortisol. O resultado é um adulto que ama, mas não consegue sustentar presença emocional contínua sem se esgotar ou se desligar.

 

CUIDAR COMO SOBREVIVÊNCIA

Na clínica, é comum ouvir mães e pais alcoolistas dizendo:

“Eu aguento tudo pelos meus filhos.”

“Não posso cair, porque eles precisam de mim.”

“Se eu parar, tudo desmorona.”

Essas frases revelam algo fundamental: para muitos, cuidar virou uma estratégia de sobrevivência psíquica, não um espaço de troca viva. O sujeito se sustenta no papel de cuidador para não entrar em contato com a própria fragilidade, vazio ou sofrimento.

A psicanálise descreve esse movimento como uma forma de hiperfunção do eu: o indivíduo se organiza em torno do fazer constante para não sentir. Nesse contexto, o álcool aparece como regulador silencioso — uma substância que permite continuar funcionando quando o corpo e a mente já sinalizam exaustão.

O problema é que esse tipo de cuidado cobra um preço alto. Ele mantém a estrutura de pé, mas apaga o sujeito que cuida.

 

QUANDO O CUIDADO SE CONFUNDE COM AUTOANIQUILAMENTO

Do ponto de vista existencial, cuidar sem se reconhecer como sujeito é uma forma sutil de não existir plenamente. Jean-Paul Sartre descrevia esse estado como má-fé: quando a pessoa se reduz a um papel para fugir da angústia da escolha.

Maternidade e paternidade, quando atravessadas pelo alcoolismo, podem se transformar exatamente nisso: um papel absoluto que ocupa todo o espaço psíquico, deixando pouco ou nenhum lugar para o desejo, o prazer, a criatividade e a identidade pessoal.

Segundo pesquisas em parentalidade, cuidadores cronicamente exaustos apresentam maior risco de uso de álcool como estratégia de regulação emocional, especialmente quando não possuem rede de apoio ou espaço simbólico para existir além da função parental.

Nesse cenário, o álcool não aparece simplesmente como irresponsabilidade. Ele aparece como tentativa de sobreviver ao próprio apagamento.

 

O IMPACTO SOBRE FILHOS: PRESENÇA SEM CONTATO

Crianças não precisam de pais perfeitos. Precisam de pais emocionalmente disponíveis. Estudos clássicos sobre apego (Bowlby, Ainsworth) mostram que a previsibilidade afetiva é mais importante do que a ausência total de falhas. Como diria Winnicott, a “mãe suficientemente boa”.

O uso problemático de álcool compromete essa previsibilidade. Não porque o cuidador sempre falha, mas porque a criança nunca sabe quem estará disponível naquele dia: o adulto presente, o irritável, o distante, o silencioso.

Esse tipo de ambiente favorece o desenvolvimento de crianças hiperadaptadas — aquelas que aprendem cedo a não dar trabalho, a ler o clima emocional do outro, a se responsabilizar excessivamente. Muitos adultos alcoolistas de hoje foram essas crianças ontem.

O ciclo se repete não por destino, mas por transmissão de modos de existir.

 

SOBRIEDADE COMO REORGANIZAÇÃO DO CUIDADO

Falar de sobriedade não é falar apenas de abstinência. É falar de redistribuição da energia vital. O álcool consome recursos psíquicos imensos: atenção, memória, autorregulação, criatividade. Quando ele sai, algo precisa ocupar esse lugar.

Para mães e pais, esse algo frequentemente começa pelo cuidado — mas de uma forma diferente. Um cuidado que inclui limites, falhas assumidas, pedidos de ajuda e, sobretudo, autorização para existir como sujeito separado dos filhos.

Segundo estudos em tratamento do alcoolismo, a melhora na qualidade da parentalidade após a redução ou interrupção do uso não está ligada à perfeição, mas ao aumento da presença consciente e da capacidade de reparar falhas emocionais.

Cuidar melhor não é fazer mais. É estar mais inteiro.

 

SUBLIMAÇÃO: DO EXCESSO À INTENSIDADE

A psicanálise chama de sublimação o processo pelo qual a energia pulsional é deslocada para formas criativas e socialmente estruturantes. No alcoolismo, essa energia costuma ficar aprisionada entre culpa, fuga e repetição.

Na sobriedade, especialmente para quem cuida, essa energia pode se transformar em:

• criação de novos vínculos

• reorganização do tempo

• escuta real

• presença afetiva possível

• construção de sentido

Isso não significa romantizar a parentalidade. Significa retirá-la do lugar de sacrifício absoluto e devolvê-la ao campo da vida vivida.

 

CUIDAR SEM SE APAGAR É UM ATO ÉTICO

Cuidar sem se apagar não é egoísmo.

É responsabilidade ética.

Do ponto de vista clínico, pais que se autorizam a existir — com limites, desejo e imperfeição — oferecem aos filhos algo fundamental: a permissão de também existirem como sujeitos, não como extensões do outro.

O alcoolismo, enquanto doença, não define a capacidade de amar. Mas exige que se reconheça um ponto central: não é possível sustentar cuidado vivo a partir da própria anulação.

A sobriedade, aqui, não é heroísmo.

É um gesto silencioso de permanência.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Maternidade e paternidade atravessadas pelo alcoolismo não são histórias de fracasso. São histórias de tentativas intensas de dar conta da vida com os recursos disponíveis naquele momento.

Fluir, neste contexto, não é desaparecer no papel de cuidador nem romper com ele. É encontrar um ritmo onde o cuidado não exige a morte simbólica de quem cuida.

Quando o álcool deixa de ocupar o centro, algo se desloca: o cuidado deixa de ser sobrevivência e passa, pouco a pouco, a ser encontro.

 


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

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