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ALCOOLISMO E O DESEJO DE DEIXAR DE EXISTIR. Suicídio: será que é desejo de morrer ou desejo de que a dor cesse?

Quando alguém fala em “deixar de existir”, geralmente pensa em suicídio — uma palavra pesada, carregada de medo, culpa e tabus.

Mas antes de responder à pergunta “por que algumas pessoas que bebem demais se matam?”, é preciso escavar outra questão mais profunda:

O que a pessoa realmente deseja quando pensa em morrer? É morrer ou cessar a dor?

Essa diferença é crucial — e raramente articulada com clareza.

Pois, no campo clínico e filosófico, desejo de morrer e desejo de cessar sofrimento não são a mesma coisa.

Neste artigo, exploramos esse tema doloroso e essencial, com dados científicos atuais e perspectiva psicanalítica e existencial, focando especialmente em quem vive o alcoolismo.

 

SUICÍDIO É UM FENÔMENO MULTIFATORIAL — E O ÁLCOOL É UMA PEÇA IMPORTANTE

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo — uma em cada 100 mortes no planeta.  Mas o álcool está profundamente envolvido nesse cenário.

Várias pesquisam mostram que:

  • O uso de álcool aumenta o risco de morte por suicídio em cerca de 94 % em comparação com não-uso, dados divulgados na PubMed.
  • Estudos longitudinais apontam que pessoas com Transtorno por uso de álcool (TUA) têm chances significativamente maiores de morrer por suicídio em ambos os sexos.
  • O consumo total de álcool numa população correlaciona-se com taxas mais altas de mortalidade por suicídio: cada litro adicional de álcool consumido por pessoa está associado a cerca de 3,6 % a mais de suicídios.

Esses dados podem ser lidos no artigo Alcohol Consumption Per Capita and Suicide.

Esses números não são teóricos; são vidas, rostos, histórias.

 

DIFERENÇAS ENTRE SEXOS

Os dados epidemiológicos mostram padrões distintos por gênero:

Homens

  • Homens apresentam taxas globais de suicídio mais altas que mulheres, tanto no geral quanto relacionadas ao álcool.

Mulheres

  • Estudos mais recentes demonstram que a proporção de suicídios envolvendo álcool está crescendo mais rapidamente entre mulheres do que entre homens, especialmente em alguns grupos etários.
  • Em algumas populações, episódios de binge drinking (consumo episódico excessivo de álcool) em mulheres estão associados a maior risco de tentativas de suicídio do que nos homens.

Esses padrões refletem fatores biológicos, sociais, culturais e psicológicos.

 

O ÁLCOOL COMO MOTOR DE IMPULSIVIDADE

Parte do risco elevado observado está relacionado à ação aguda do álcool:

  • O álcool reduz inibições, potencializa impulsividade e diminui a aversão ao risco.
  • Em vítimas de suicídio, é frequente a detecção de álcool no sangue no momento do ato, indicando intoxicação como fator precipitante.

Ou seja, o álcool não é sempre a causa única, mas frequentemente atua como catalisador, mobilizando comportamentos autodestrutivos já em gestação.

 

DIFERENÇA ENTRE “DESEJO DE MORRER” E “DESEJO DE QUE A DOR CESSE”

Aqui entra uma distinção essencial que muitas análises superficiais ignoram. Psicanálise e filosofia existencial oferecem uma lente diferente:

Desejo de morrer

Pode surgir de desesperança profunda, associado a transtornos de humor ou a uma crença de que a própria existência é intolerável.

Desejo de cessar dor

Pode ser traduzido como: “Quero um fim para este sofrimento.”

Essa segunda formulação não é sobre suicídio em si, mas sobre alívio de dor massiva — emocional, existencial, corporal.

O alcoolismo intensifica essa dinâmica: o álcool inicialmente promete alívio — e, em muitos casos, entrega atenuação momentânea de sofrimento emocional. Porém, a longo prazo ele aprofundou a dor, fragmentou a vida e corroeu significados.

Na clínica, muitas pessoas relatam que, no momento de um ato suicida, não querem “morrer” no sentido literal, mas escapar de uma dor que sentem como intolerável.

UM CAMINHO CONTRÁRIO: SUBLIMAÇÃO E INTENSIDADE DE EXISTIR

Existencialistas como Viktor Frankl nos lembram que, mesmo em meio à pior dor, existe a possibilidade de encontrar sentido, não apesar da dor, mas através dela.

A psicanálise propõe que tanto o desejo suicida quanto a compulsão ao álcool são expressões deformadas de pulsões vitais — energia psíquica que não encontrou outra via de expressão.

A palavra de Freud sobre pulsão não é destruição: é energia que busca destino. E quando não encontra uma forma criativa, corre o risco de voltar como autoagressão.

Sublimação — transformar angústia em criação — não é solução mágica, mas um modo de deslocar energia pulsional de um caminho autodestrutivo para construções de sentido:

• arte, escrita, música

• cuidados com outros

• projetos significativos

• autoconhecimento profundo

Essas são manifestações de intensidade de existir, não anestesia.

 

A DOR RECONHECIDA É MENOS PERIGOSA DO QUE A DOR NEGADA

Existem estudos que mostram que o enfrentamento emocional com suporte reduz risco de suicídio mais do que estratégias que apenas evitam o problema.

O álcool mascara — ele reduz sinal de dor, mas não trata a causa.

A sobriedade, por outro lado, obriga o sujeito a entrar em contato com o próprio sofrimento, o que, embora desconfortável, abre espaço para transformação.

 

O PAPEL DOS LAÇOS SOCIAIS, SENTIDO E SUPORTE

A literatura em saúde pública aponta que a ausência de conexões significativas e suporte social é um dos maiores preditores de suicídio.

A sobriedade, quando acompanhada de redes de suporte (terapia, grupos, vínculos mesmo que com animais de estimação), cria um tipo diferente de intensidade: uma intensidade de presença, de relação, de reflexão.

Viver plenamente não é ausência de dor. É capacidade de responder à dor com consciência, expressão e sentido.

 

EXISTIR COM PLENITUDE

No cerne dessa reflexão está algo profundo: o desejo de morrer muitas vezes é o grito de uma vida que não encontrou sentido para sua dor.

E a sobriedade — tratada não como renúncia, mas como reencontro — pode oferecer:

✔ consciência de si

✔ acesso às próprias emoções

✔ criação de significado

✔ expressão pulsional sem autoagressão

✔ intensificação da vida em vez de fuga

Essa é a perspectiva existencial e psicanalítica sobre o tema — que não nega o sofrimento, mas o lê como parte da própria existência em construção.

 

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

O alcoolismo está associado ao suicídio em níveis epidemiológicos e individuais.

O álcool pode ser tanto um gatilho quanto um agravante do sofrimento.

Mas o que muitas vezes é interpretado como “desejo de morrer” pode ser, na verdade, desejo de que a dor cesse — e isso muda profundamente o tratamento clínico e a intervenção existencial.

Enquanto a ciência nos fornece dados e correlações, a filosofia existencial e a psicanálise nos oferecem uma outra pergunta:

E se o que você realmente quer não é morrer, mas finalmente existir — com intensidade, sentido e presença?

Esse deslocamento — de morrer para viver — é um dos grandes desafios humanos.

E é também um gesto radical de resposta criativa às pulsões que namoram a autodestruição.

 


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

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