Meu pai faleceu em 2008. Ele era alcoolista. Cresci entre conflitos. Há algum tempo, conversando com minha mãe sobre a relação deles, ela me disse de forma simples e direta: “O problema entre nós era o álcool. Ele saía do serviço e passava no bar beber, e quando voltava para casa ainda levava mais bebida.”
A frase ficou reverberando. O problema não era apenas ele. Não era apenas ela. Não era apenas o casamento, os filhos ou a escassez financeira. Era o álcool. Como se houvesse alguém a mais naquela casa. Um terceiro silencioso, mas constante. Um terceiro que se sentava à mesa mesmo quando não havia cadeira para ele. Um terceiro que organizava o humor do ambiente antes mesmo de qualquer palavra ser dita. Um terceiro que decidia o tom dos dias.
Essa ideia — o álcool como terceira pessoa da relação — não é apenas uma metáfora. Ela descreve algo estrutural. Quando o consumo deixa de ser eventual e passa a ser central, ele ocupa um lugar relacional. Ele disputa atenção, tempo, energia, dinheiro, afeto e prioridade. Ele se torna presença organizadora.
Este texto parte de uma experiência pessoal, mas não é confissão. É reflexão. É tentativa de compreender como uma substância pode ocupar o lugar de um terceiro estruturante — e, ao mesmo tempo, desestruturante — dentro de um vínculo amoroso e familiar.
O ÁLCOOL COMO DOENÇA E COMO PRESENÇA RELACIONAL
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o Transtorno por Uso de Álcool (TUA) como uma condição crônica caracterizada por perda de controle sobre o consumo, prioridade crescente dada ao álcool em detrimento de outras atividades e persistência do uso apesar das consequências negativas (OMS, CID-11). Essa definição é fundamental porque desloca o debate do campo moral para o campo da saúde pública.
Mas a definição clínica, por mais necessária que seja, não captura completamente o que acontece dentro de uma casa.
O alcoolismo não se limita ao corpo de quem bebe. Ele atravessa as paredes. Ele infiltra as conversas. Ele altera o clima emocional do ambiente. Segundo a própria OMS, o consumo nocivo de álcool está associado ao aumento de conflitos conjugais, violência doméstica, negligência parental, rupturas familiares e instabilidade financeira. Esses dados não são abstrações estatísticas. Eles descrevem efeitos reais, cotidianos e repetitivos.
Na prática, isso significa que o parceiro ou parceira do alcoolista não “disputa” apenas com o trabalho ou com o cansaço do outro. Disputa com a bebida. E a bebida, quando se torna prioridade neurobiológica e emocional, raramente perde essa disputa.
A TERCEIRA PESSOA INVISÍVEL
Na psicanálise, o conceito de “terceiro” costuma aparecer como algo estruturante da relação. O terceiro pode ser a lei, a linguagem, a cultura — aquilo que impede a fusão absoluta e permite que duas pessoas existam como sujeitos distintos. O terceiro saudável cria limites, organiza, simboliza.
Mas no alcoolismo, o terceiro que se instala não organiza — ele invade. Ele ocupa. Ele desloca.
O álcool passa a ser o primeiro endereço das emoções. Antes de conversar, bebe-se. Antes de descansar, bebe-se. Antes de enfrentar um conflito, bebe-se. Antes de admitir tristeza, bebe-se. A bebida se torna mediadora entre o sujeito e sua própria experiência emocional.
Isso produz um deslocamento profundo: o parceiro deixa de ser interlocutor primário. A relação deixa de ser o espaço de elaboração afetiva. O álcool assume essa função.
Não se trata apenas de ausência física. Trata-se de ausência psíquica. O corpo pode estar presente na sala, mas o investimento emocional está direcionado à substância. E o outro sente isso, mesmo que não saiba nomear.
O BAR COMO ESPAÇO SIMBÓLICO
“Ele saía do serviço e passava no bar.” Essa frase carrega mais do que um hábito. Ela descreve um ritual estruturado. O bar não é apenas lugar de consumo. É território simbólico. É extensão do trabalho. É lugar de pertencimento “masculino”. É espaço onde vulnerabilidades podem ser disfarçadas sob a camada do álcool.
Historicamente, especialmente entre homens de determinadas gerações, o bar funcionou como espaço legítimo de convivência. Ali, a masculinidade não era questionada. Ali, beber fazia parte da identidade social. Segundo dados globais da OMS, homens apresentam taxas significativamente mais altas de consumo nocivo e mortalidade associada ao álcool. Essa diferença não é apenas biológica; ela é cultural.
O bar oferece pertencimento. E o pertencimento é uma necessidade humana básica.
O problema não é o bar em si. O problema é quando ele se torna mais confortável do que a própria casa. Quando o diálogo que poderia acontecer no sofá acontece no balcão. Quando o afeto que poderia ser construído na intimidade é substituído pelo ritual repetitivo da bebida.
A EXPERIÊNCIA DE QUEM FICA
Se o álcool é a terceira pessoa, quem permanece em casa vive a experiência da espera constante. Espera pelo horário de chegada. Espera pelo humor com que a porta será aberta. Espera para saber se haverá conversa, silêncio ou conflito. Espera para descobrir se o dinheiro do mês será suficiente.
Essa espera prolongada produz desgaste psíquico profundo. Estudos em saúde mental indicam que familiares de pessoas com transtorno por uso de álcool apresentam maior prevalência de ansiedade, depressão e sintomas de estresse crônico. Não porque sejam frágeis, mas porque vivem sob imprevisibilidade contínua.
A imprevisibilidade corrói a sensação de segurança. O sistema nervoso permanece em estado de alerta. Pequenos sinais — o som da chave, o cheiro de álcool, o tom de voz — tornam-se gatilhos. Viver assim é viver com tensão basal permanente.
O álcool, portanto, não é consumido apenas por quem bebe. Ele é experienciado por todos que convivem.
CULPA, SALVAÇÃO E CODEPENDÊNCIA
Dentro dessa dinâmica, muitos parceiros entram em um ciclo entre culpa e tentativa de salvação. Perguntam-se se falharam, se poderiam ter feito mais, se poderiam controlar melhor a situação. Escondem garrafas. Negociam limites. Acreditam em promessas repetidas.
Esse movimento cria uma relação centrada no controle do consumo. A vida passa a girar em torno da bebida — mesmo para quem não bebe. O álcool, assim, fortalece ainda mais seu lugar como terceiro central.
Na psicanálise, fala-se da ilusão de onipotência — a crença de que é possível salvar o outro de sua própria compulsão. Mas dependência química não se resolve por amor ou vigilância. Exige reconhecimento interno do problema por parte de quem bebe.
A dor de assistir à autodestruição de alguém amado é profunda. E, muitas vezes, essa dor leva à tentativa desesperada de controle. Mas controle externo não substitui decisão interna.
O DUPLO VÍNCULO DO ALCOOLISTA
Para quem bebe, a situação também é atravessada por ambivalência. O alcoolista frequentemente ama sua família. Sofre com o sofrimento que causa. Até pode prometer parar. E, simultaneamente, sente que não consegue existir sem a substância.
Segundo o National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA), o consumo crônico altera circuitos cerebrais relacionados à recompensa, ao estresse e à tomada de decisão. O cérebro passa a priorizar o álcool como fonte de alívio, mesmo diante de consequências negativas.
Isso explica parte do comportamento compulsivo. Mas não elimina o conflito ético.
O alcoolista vive um duplo vínculo: culpa por beber e angústia por parar. O álcool surge como solução temporária para a culpa que ele próprio produz. Forma-se um circuito fechado: beber → culpa → angústia → beber.
Enquanto esse circuito não é interrompido, o terceiro permanece no centro.
QUANDO A RELAÇÃO SE DESFAZ, MAS O TERCEIRO PERMANECE
Em muitos casos, o vínculo conjugal não resiste. Separações acontecem. Distâncias se impõem. Mas o álcool pode continuar ocupando o lugar central na vida de quem bebe. Isso mostra que o problema não estava apenas na relação conjugal, mas na função psíquica que o álcool desempenhava.
Parar de beber, nesses contextos, não é apenas salvar uma relação. É reorganizar a própria estrutura emocional. É aprender a lidar com solidão, frustração e desejo sem recorrer à anestesia.
Esse é um processo complexo, que envolve reconhecimento da perda, elaboração do luto e reconstrução de identidade.
MEMÓRIA, LUTO E COMPREENSÃO
Quando meu pai morreu, não morreu apenas um homem. Morreu também a possibilidade de certas conversas. Ficou a memória do bar, das garrafas, das brigas, das ausências. Mas ficaram também momentos de afeto, de cuidado, de humanidade.
Falar do álcool como terceira pessoa não é acusação tardia. É tentativa de compreender como algo externo pode se tornar interno à dinâmica de uma família.
O filósofo Martin Buber descreveu a diferença entre relações “Eu-Tu” — marcadas pela presença genuína — e “Eu-Isso” — onde o outro se torna objeto. Quando o álcool ocupa o centro, o encontro “Eu-Tu” se fragiliza. O outro passa a ser obstáculo ao consumo ou testemunha da culpa.
Recuperar a dimensão “Eu-Tu” exige retirar o terceiro invasivo do centro da cena.
A POSSIBILIDADE DE DESLOCAR O TERCEIRO
Nem toda relação sobrevive ao alcoolismo. Nem todo casamento pode ser restaurado. Mas enquanto há vida, há possibilidade de deslocamento.
Retirar o álcool do centro não é garantia de harmonia. É abertura de possibilidade. Possibilidade de conflito real sem anestesia. Possibilidade de presença inteira. Possibilidade de intimidade não mediada por substância.
A OMS estima que milhões de mortes anuais estejam associadas ao consumo nocivo de álcool. Cada número representa uma história interrompida, um vínculo afetado, uma família reorganizada em torno de uma ausência.
Nomear o álcool como terceira pessoa é um gesto simbólico potente. Porque aquilo que é nomeado pode ser enfrentado. O que permanece invisível tende a continuar governando.
O QUE RESTA QUANDO O TERCEIRO É NOMEADO
Hoje, ao recordar a frase da minha mãe, escuto menos lamento e mais clareza. O problema entre eles, em sua opinião, era o álcool. Não como desculpa, mas como reconhecimento de uma presença que ocupou espaço demais.
Para quem lê e se reconhece — seja como quem bebe, seja como quem convive — talvez a pergunta não seja apenas “como parar?”, mas “que lugar o álcool ocupa na minha vida e nas minhas relações?”.
Enquanto ele for o terceiro privilegiado, o encontro humano ficará comprometido.
Nenhuma relação sobrevive quando o principal vínculo é com uma substância.
E nenhuma transformação começa enquanto o terceiro não é identificado.
Rafa Pessato
Embriague de si












