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QUANDO O ALÍVIO VIRA PRISÃO: superando o álcool como fuga emocional

Tem dias em que tudo aperta. O peito pesa, a cabeça gira em círculos e a alma parece querer sair do corpo só pra respirar um pouco. E aí, sem alarde, entra ele: o gole silencioso. Aquele copo que promete descanso, anestesia, um tipo de paz líquida que embriaga e embala como colo falso. O álcool entra pela porta da frente como se fosse abrigo — e é mesmo, por alguns minutos. Mas depois, sem pedir licença, tranca as janelas por dentro e cobra em prestações silenciosas tudo aquilo que prometeu entregar de graça.

A maioria das pessoas não começa a beber porque ama o gosto. Começa porque, de algum jeito, o álcool facilita ser. Facilita suportar. Facilita ignorar o grito abafado das emoções não vividas. A bebida vira um botão de volume que abaixa o som da ansiedade, da solidão, do medo, da frustração. Bebe-se para silenciar. Para não surtar. Para não lembrar. Para suportar o que, sóbrio, parece insuportável.

O álcool, nesse contexto, é mais que uma substância — é um sintoma. Uma tentativa de cuidado desajeitada. Um pedido de socorro que ninguém vê, porque a sociedade aplaude quem “aguenta no copo”, quem “segura a onda”, quem “bebe socialmente” como se fosse natural transformar alívio em hábito.

Mas o que começa como alívio vira dependência. A bebida, antes escolha, vira necessidade. O copo não é mais companhia: é coleira. E, muitas vezes, é só quando a coleira aperta o pescoço — quando o corpo adoece, quando a vergonha escorre pelos cantos, quando os vínculos se desgastam — que a ficha começa a cair.

Só que parar de beber, ao contrário do que muita gente pensa, não é apenas parar de pôr álcool no corpo. É começar a escutar tudo aquilo que o álcool vinha abafando. É abrir a porta do porão emocional e encarar os fantasmas. É descobrir que não se tratava só da bebida — mas do que ela estava tentando calar.

 

E ISSO ASSUSTA.

Assusta perceber que nunca aprendemos a lidar com as emoções nuas. Que o desconforto é parte da vida, mas ninguém nos ensinou a habitá-lo. Que a tristeza não precisa ser silenciada, que a raiva não é o fim do mundo, que o medo pode ser bússola e não sentença. Assusta, mas também liberta.

Liberta porque, no lugar do álcool, começa a nascer um novo tipo de presença. Uma presença crua, imperfeita, mas real. A coragem de estar com o que é. De olhar no espelho sem desviar o olhar. De aprender a regular o caos sem se entorpecer. E, aos poucos, a vida vai se reorganizando em torno de outros centros.

No início, é estranho. Parece que tudo perdeu a graça. As festas, os encontros, até os silêncios. Mas, aos poucos, você redescobre o riso espontâneo. A dança sem vergonha. O prazer de acordar com a mente clara. O valor de estar inteiro. E aí você entende: o álcool não era alegria. Era distração.

É claro que o processo não é reto. Às vezes você vai tropeçar. Vai sentir falta. Vai querer voltar. Porque a fuga vicia. A anestesia vicia. Mas toda vez que você escolhe ficar, sentir, permanecer com você mesmo sem atalhos… algo se fortalece. Algo renasce.

E um dia, quase sem perceber, você está celebrando um pôr do sol sem precisar brindar. Está vivendo um luto sem querer se apagar. Está abrindo o coração em uma conversa sem precisar de coragem líquida. Está dormindo com leveza. Está rindo com vontade. Está amando com presença.

E aí você percebe: aquele alívio que o álcool prometia nunca foi verdadeiro. Era só um desvio. Um desvio que te afastava de si mesmo. Hoje, você não precisa mais fugir. Porque você aprendeu o caminho de volta pra casa. E essa casa é você.

Não é sobre virar santo, nem sobre nunca mais tropeçar. É sobre escolher, todos os dias, com pequenos gestos, que tipo de liberdade você quer construir. Porque existe uma liberdade que vem do copo, mas dura minutos. E existe outra — mais profunda, mais honesta — que vem quando você decide permanecer inteiro, mesmo quando tudo dentro de você quer fugir.

Essa é a verdadeira sobriedade: não a ausência de álcool, mas a presença de si. A coragem de sentir, a ousadia de transformar dor em sentido, o poder de viver sem filtros. Uma vida sóbria, sim, mas cheia. Cheia de escolhas conscientes. Cheia de vínculos verdadeiros. Cheia de você.

E, no fim das contas, talvez essa seja a maior liberdade de todas: a de não precisar mais fugir da sua própria presença.


Da desconexão e dependência à realização e conexão consigo.

Para mais sobre acesse: www.rafapessato.eu

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