Um mergulho existencial e neurocientífico no instante em que o ser clama por liberdade
O PESO DE UMA HISTÓRIA REAL
Nando Reis, ex-Titãs e compositor referência da música brasileira, começa a beber aos 13 anos, desenvolve uma dependência cruzada de álcool e cocaína e vive uma vida “porrada” de excessos até os 53 anos – quando, em outubro de 2016, determina sua própria virada.
O ponto-limite foi uma turnê em Seattle. Ele relata:
“Ali não havia cocaína, então mergulhei de cabeça no álcool… foi a primeira vez que acordei no meio da noite sentindo a necessidade de ingerir álcool”
Esse momento, violento e lúcido, o fez pensar que estava “ficando louco, desesperado” – percepções claras do colapso físico-emocional.
Ao voltar ao Brasil, enfrentou um ensaio com Gilberto Gil e Gal Costa, embriagado, e viveu a humilhação do “quase estrago da carreira”. Ali, o choque existencial acendeu a faísca da decisão: ele podia beber — mas não queria mais viver na barra pesada.
Logo em seguida, pediu internação, medicou-se, entrou no AA e permanece sóbrio desde aquele ano.
APÓS O “CHEGA”: RECONSTRUÇÃO E IDENTIDADE
O paradoxo da virada é que ela não chega com aplausos, mas com humilhação e percepção. Nando conta sobre o ensaio alcoolizado com Gil — situação que poderia “arruinar a carreira” — e foi o que desencadeou a mudança.
Ele declara:
“Sou alcoólatra, mas recuperei minha sobriedade… conheço as consequências do primeiro gole. É algo desesperador, porque não há nada que o sacie”
A virada dele não foi um milagre instantâneo. Vieram internação, medicação, AA, apoio familiar — elementos que deram suporte à decisão neural de tomada de controle pela região pré-frontal.
A CIÊNCIA POR TRÁS DO MOMENTO “CHEGA”
A neurociência explica essa virada como encontro entre:
- Dano físico e emocional acumulado – abuso crônico altera estruturas de recompensa e controle no cérebro.
- Momento de grande impacto emocional ou perceptivo – geralmente humilhação, medo, risco real.
- Ativação da consciência intencional – aquele breve segundo em que a parte racional supera o impulso automático.
Marc Lewis, neurocientista ex-usuário, aponta que a recuperação exige uma mudança de identidade, não mera abstinência. O indivíduo precisa se ver como “quem cuida de si”, e não como “o que bebe”.
No caso de Nando:
- O ensaio alcoolizado com Gil foi o choque identitário.
- O ponto-limite em Seattle foi o colapso existencial e físico.
- A consciência ativada se deparou com a força brutal da compulsão — e, mesmo assim, escolheu interromper o ciclo.
É PRECISO ESTAR VIVO PARA OLHAR
O mito do “fundo do poço” nem sempre é real. Muitos não chegam lá porque morrem antes. No entanto, o que ocorre com Nando é emblemático: colapso sem exclusão da razão, seguidos por clareza emocional e sensorial.
Ele poderia estar em suas casas, palco, bastidores. Mas foi num ensaio profissional, em que a humilhação pública ativou a consciência. Isso reforça que não precisa destruir tudo para construir uma grande virada: é sobre ver com fúria e ternura a própria realidade.
CONSCIÊNCIA COMO VACINA EMOCIONAL
A consciência ativa é diferente de saber que “beber faz mal”. Trata-se de uma vivência estética, visceral, como um espelho quebrado que faz ver tudo de forma nua e crua.
Nos relatos de Nando, existe o espelho humano: família que se cansou (a esposa que “não dava mais”), filhos que estavam distantes, banda que sofria com seu egoísmo.
Quando a consciência desperta, ela diz:
“Se eu continuar, perco tudo o que amo.”
E esse medo real e simbólico é a base da decisão que endurece o cérebro para o novo.
A ARTE DA RECONSTRUÇÃO: ALÉM DA ABSTINÊNCIA
Parar não basta. O desafio começa no dia 1 da sobriedade. E é aí que moram os maiores testes:
- Lidar com o vazio, a ansiedade, o tédio.
- Reconstruir vínculos sem álcool — no caso de Nando, o AA virou rede de apoio
- Criar novo propósito — Nando lançou um disco inteiramente sóbrio, “Uma Estrela Misteriosa”, construído na lucidez.
- Integrar a história do vício ao presente — reconhecendo que é “alcoolista, mas sóbrio” e que a compulsão permanece.
É um processo que envolve: cuidado mental, emocional, social, e uma nova identidade.
A VIRADA SÓ É DECISIVA SE FOR COLETIVA
Nando pontua que um dos grandes sustos foi ver que família, banda, esposa viviam sob o peso de sua dependência. Isso despertou culpa — e, ao mesmo tempo, coragem: só ele poderia decidir mudar.
A decisão consciente é, no fim, um ato coletivo: envolve quem ama, quem produz arte, quem vive ao lado. E a escolha só cresce quando ancorada em responsabilidade.
O SENTIDO PROFUNDO DA VIRADA
Viktor Frankl afirma: entre estímulo e resposta há um espaço. É nesse espaço que mora nossa liberdade e nosso crescimento. No caso do abuso de substâncias, muitas vezes esse espaço se fecha — até uma experiência intensa trazer um “respiro consciente”.
Para Nando, esse espaço foi:
- O ensaio embriagado com Gil.
- O clamor silencioso dos filhos.
- O corpo pedindo urgência em Seattle.
- A loucura que diz “morreu” — mas que sobreviveu ao buscar ajuda.
DEPOIS DO “CHEGA”: VIVER COM TOTALIDADE
Parar de beber não é restrição — é libertação existencial. O que se entende com Nando é profundo:
- Sobriedade ≠ monotonia: ele criou arte, relacionamentos, reconexões.
- Sobriedade como processo permanente: 2016 foi o ano‑divisor, mas o cotidiano exige vigilância e presença.
- Sobriedade como legado: relançar músicas, tocar de novo com Titãs e Gil, compor com lucidez.
✨ EPÍLOGO: VOCÊ NÃO PRECISA ESPERAR O COLAPSO
O grande aprendizado do caso Nando: não é preciso esperar o fim para permitir um novo começo. A grande virada pode — e deve — começar quando a consciência cutuca, quando o “espelho rompe”, quando o âmago estremece.
Se hoje você sente um desconforto que não consegue nomear — falta de pertencimento, vergonha, angústia — saiba: isso pode ser a maçaneta torta da porta da sua liberdade.
E tudo que ela pede é um segundo de decisão consciente:
- Reconhecer que houve prejuízo.
- Permitir-se buscar ajuda (terapia, grupos, cuidados médicos).
- Fazer um pequeno gesto intencional: não beber hoje.
- Habitar o vazio consciente e descobrir que nele cabem outras possibilidades.
Porque a grande virada – do fundo do poço ou da luz interna – só é grande se vier com presença, cuidado e propósito.
Por Rafa Pessato
Especialista em autoconhecimento e comportamento, e criadora do Método CER
(“da desconexão e dependência à realização e conexão consigo”)
Publica segundas, quartas e sextas-feiras.
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