E se o problema não fosse quanto você bebe, mas como você se relaciona com o primeiro gole? E se a pergunta “estou bebendo demais?” estivesse, na verdade, encobrindo outra bem mais incômoda: por que eu preciso beber? E se esse tal “meio-termo” — tão repetido em rodas sociais, consultórios e campanhas de saúde — não passasse de um conceito elegante demais para dar conta de algo profundamente íntimo, caótico e subjetivo? Talvez o ponto não esteja no copo, mas naquilo que transborda dele.
O consumo de álcool é socialmente aceito desde que haja um certo equilíbrio. Um meio-termo. Uma medida considerada razoável. Nessa lógica, o mundo se divide em três grupos: os abstêmios, os que bebem “com moderação” e os alcoolistas. Parece simples, quase reconfortante. Mas nem tudo que parece lógico se sustenta na experiência real — sobretudo quando falamos de subjetividade, desejo e repetição. Para muitos, essa ideia de equilíbrio não apenas falha, como se torna perigosa.
A noção de meio-termo é antiga. Vem de uma tradição filosófica que associa virtude à justa medida. A coragem, por exemplo, estaria entre a imprudência e a covardia. Mas, na prática, quem define essa medida? Onde exatamente termina a coragem e começa a imprudência? E mais: será que essa régua serve igualmente para todos?
Quando trazemos essa lógica para o álcool, a coisa se complica ainda mais.
O MEIO-TERMO COMO IDEAL SOCIAL
A ideia de beber “com moderação” está profundamente enraizada na cultura. Não apenas como um hábito, mas como um valor. Beber socialmente, sem exageros, é visto como sinal de maturidade, controle e até saúde emocional.
Instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhecem que o consumo de álcool é um dos principais fatores de risco para doenças e mortes evitáveis no mundo. Segundo dados da própria OMS, cerca de 3 milhões de mortes por ano estão relacionadas ao uso de álcool. No Brasil, estudos do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) mostram que uma parcela significativa da população apresenta padrões de consumo considerados de risco.
Ainda assim, a mensagem predominante não é “não beba”, mas “beba com moderação”.
Mas o que é moderação?
Segundo parâmetros médicos, existem limites considerados de baixo risco — geralmente definidos por quantidade de doses por dia ou semana. Esses números variam entre países e instituições, como o National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (NIAAA), nos Estados Unidos, ou diretrizes da Organização Pan-Americana da Saúde (PAHO). No Brasil, órgãos como o Ministério da Saúde e instituições como a UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas) também trabalham com essas referências.
O problema é que esses números partem de uma média populacional. Eles não conseguem capturar a singularidade de cada sujeito.
A ILUSÃO DA MEDIDA: QUANDO O NÚMERO NÃO DIZ TUDO
A quantidade de álcool ingerida pode ser medida. Isso é um fato. Mas o efeito dessa quantidade — físico, psicológico e existencial — não.
Duas pessoas podem beber exatamente o mesmo volume de álcool e ter experiências completamente diferentes. Para uma, pode ser apenas um momento social. Para outra, pode ser o início de uma sequência que ela mesma não consegue interromper.
E aqui surge uma questão fundamental:
Qual é o meio-termo para alguém que perde o controle já na primeira dose?
Essa pergunta desmonta a lógica da moderação como regra universal. Porque, nesse caso, não se trata de quanto se bebe, mas do que acontece depois que se começa a beber.
O PRIMEIRO GOLE: O VERDADEIRO LIMITE
Na experiência de muitos alcoolistas, o problema não está no décimo copo — está no primeiro.
Existe algo que se desencadeia ali. Um movimento que não é apenas químico, mas psíquico. Um deslizamento. Como se, ao beber, algo fosse liberado — e ao mesmo tempo, algo fosse perdido.
A psicanálise pode ajudar a compreender esse ponto. O álcool, para muitos, não é apenas uma substância. É um recurso. Um modo de lidar com angústias, vazios, tensões internas. Um anestésico existencial.
Nesse sentido, o “meio-termo” pode funcionar como uma narrativa de controle. Uma tentativa de manter a ilusão de que a relação com a bebida é consciente, voluntária, dominada.
Mas e quando não é?
AUTOENGANO: A CAPA DO EQUILÍBRIO
“Eu paro quando quiser.”
“Hoje eu vou só beber duas.”
“Dessa vez vai ser diferente.”
Essas frases são comuns. E muitas vezes sinceras. Não são mentiras deliberadas. São formas de sustentar uma imagem de si mesmo — alguém que está no controle.
Mas há uma diferença entre controle imaginado e controle real.
A dificuldade em medir o próprio comportamento pode gerar um tipo específico de autoengano. Assim como alguém pode se considerar corajoso enquanto age com imprudência, alguém pode se considerar moderado enquanto já está em um padrão de risco.
O meio-termo, nesse contexto, vira uma espécie de máscara.
UM ESPECTRO, NÃO UMA LINHA
Do ponto de vista médico, o uso de álcool é compreendido como um espectro. Não há apenas “normal” e “dependente”. Existem níveis intermediários, padrões de risco, uso nocivo e transtorno por uso de álcool.
A progressão do uso de álcool pode ser gradual, muitas vezes imperceptível para o próprio sujeito. O que começa como um hábito social pode evoluir para um padrão mais rígido, repetitivo e difícil de interromper.
Critérios clínicos incluem fatores como:
- dificuldade em controlar o consumo
- aumento da tolerância
- sintomas de abstinência
- prejuízo em áreas da vida (trabalho, relações, saúde)
Mas mesmo esses critérios têm limites. Eles identificam padrões, mas não capturam a experiência subjetiva.
A QUESTÃO NÃO É QUANTO, É COMO
Se saímos do campo médico e entramos na filosofia, a pergunta muda radicalmente.
Não se trata mais de “quanto é demais?”, mas de:
o que o álcool representa na sua existência?
Aqui, o foco não é o comportamento, mas a relação.
O álcool pode ser um mediador — entre o sujeito e o mundo, entre o sujeito e ele mesmo. Pode facilitar encontros, mas também evitar confrontos. Pode aproximar, mas também alienar.
A ideia de meio-termo, nesse contexto, pode ser insuficiente. Porque ela não dá conta da dimensão existencial da questão.
LIBERDADE OU REPETIÇÃO?
Uma das questões centrais aqui é a liberdade.
Você escolhe beber — ou você se vê bebendo?
Essa diferença pode parecer sutil, mas é fundamental.
A repetição é um dos sinais mais importantes. Não apenas repetir o ato de beber, mas repetir o padrão: as promessas, as justificativas, as consequências.
Quando o comportamento se repete apesar das intenções contrárias, algo está em jogo além da vontade consciente.
O PERIGO DA NORMALIZAÇÃO
Vivemos em uma cultura que normaliza o álcool. Ele está presente em celebrações, encontros, rituais de passagem. É difícil questionar algo tão integrado ao cotidiano.
E justamente por isso, o discurso do meio-termo ganha força. Ele permite que o consumo continue, desde que dentro de certos limites.
Mas para quem já percebeu que o álcool está se tornando um problema, essa lógica pode ser uma armadilha.
Porque ela sugere que o objetivo é voltar ao equilíbrio — quando, na prática, esse equilíbrio pode nunca ter existido.
QUANDO O MEIO-TERMO NÃO FUNCIONA
Para algumas pessoas, o meio-termo pode até ser possível. Para outras, não.
E isso não é uma falha moral. É uma condição.
Há sujeitos para quem o álcool não é neutro. Ele ativa algo. Desorganiza. Intensifica. Captura.
Nesses casos, tentar se encaixar na lógica da moderação pode gerar frustração, culpa e repetição do ciclo.
UMA PERGUNTA INCÔMODA, MAS NECESSÁRIA
Talvez a pergunta mais honesta não seja:
“Qual é o meu meio-termo?”
Mas:
Existe meio-termo para mim?
E essa não é uma pergunta que se responde com números. Nem com regras gerais. Ela exige uma escuta — de si mesmo.
ENTRE O COPO E O ESPELHO
O meio-termo pode ser um bom conceito. Pode funcionar em muitas áreas da vida. Mas, quando se trata de adicções, como o álcool, ele precisa ser questionado.
Porque o que está em jogo não é apenas uma substância, mas uma relação. Uma forma de lidar com o mundo, com os outros e consigo mesmo.
E talvez o maior risco não esteja no excesso evidente, mas na zona confortável onde tudo parece sob controle — até deixar de estar.
No fim, a questão não é moral, nem apenas médica. É existencial.
E ela começa quando você para de perguntar “quanto é demais?” e passa a perguntar:
o que isso está fazendo comigo?
Rafa Pessato
Embriague de si













