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MITOS CONVENIENTES SOBRE O ÁLCOOL: O que você acredita pode não ser verdade — e pode estar mantendo o ciclo

O álcool raramente entra na vida das pessoas como um problema. Ele chega como solução.

Solução para relaxar.

Para dormir.

Para socializar.

Para silenciar a ansiedade.

Para caber.

Para aguentar.

E, ao longo do caminho, uma série de ideias vai sendo repetida — em casa, na publicidade, na medicina antiga, nos almoços de domingo, nos consultórios, nas rodas de amigos — até virar verdade absoluta.

Essas ideias têm nome: mitos convenientes.

Convenientes porque aliviam a culpa. Convenientes porque organizam a defesa. Convenientes porque sustentam o consumo sem exigir reflexão.

A ciência já desmontou muitos deles. Mas a cultura ainda os protege.

Este texto não é um manifesto antialcoolismo. É um convite à lucidez. Porque, muitas vezes, o ciclo não se mantém pela substância em si, mas pelas histórias que contamos para continuar bebendo.

 

MITO 1: “BEBER MODERADAMENTE FAZ BEM PRA SAÚDE”

Durante décadas, essa frase circulou como um mantra civilizado. Especialmente associada ao vinho tinto, à dieta mediterrânea, à longevidade elegante.

Uma taça por dia.

Um brinde à saúde.

Um hábito sofisticado.

O problema é que a ciência avançou — e essa narrativa não acompanhou.

O que dizem os dados mais recentes

A Organização Mundial da Saúde (OMS) é categórica:

não existe dose segura de álcool para a saúde.

Em 2023, a OMS publicou um posicionamento oficial afirmando que qualquer quantidade de álcool aumenta riscos à saúde, especialmente:

  • Câncer (mama, fígado, esôfago, boca, garganta e intestino)
  • Doenças cardiovasculares
  • Transtornos mentais e neurodegenerativos

Estudos, incluindo dados do Global Burden of Disease, mostram que o ponto de menor risco é zero consumo.

A antiga ideia de que pequenas doses protegeriam o coração foi revisada. Hoje se sabe que:

  • O possível efeito cardiovascular positivo é mínimo
  • Os riscos oncológicos aparecem mesmo em baixas doses
  • O saldo final é negativo

O “vinho faz bem” não foi exatamente desmentido, ele foi ultrapassado.

O risco não desaparece. Ele apenas ganhou uma embalagem mais charmosa.

 

MITO 2: “ÁLCOOL AJUDA A DORMIR”

Esse é um dos mitos mais perigosos, porque funciona no curto prazo.

Sim, o álcool seda.

Ele diminui a latência do sono.

Ele “apaga”.

Mas sedação não é sono reparador.

O que acontece no cérebro

O álcool atua como depressor do sistema nervoso central, aumentando temporariamente a ação do GABA (neurotransmissor inibitório). Isso gera relaxamento e sonolência.

O problema vem depois.

Estudos do National Institutes of Health (NIH) mostram que o álcool:

  • Reduz significativamente o sono REM
  • Fragmenta o sono profundo
  • Aumenta microdespertares ao longo da noite
  • Eleva a frequência cardíaca durante o descanso
  • Agrava quadros de insônia crônica

Ou seja: você dorme pior, mesmo achando que dormiu melhor.

No médio e longo prazo, o uso frequente de álcool para dormir está associado a:

  • Aumento da ansiedade
  • Dependência psicológica
  • Tolerância (precisar beber mais para obter o mesmo efeito)

Você apaga hoje.

Mas paga amanhã, e nos próximos anos.

 

MITO 3: “MISTURAR BEBIDAS EMBRIAGA MAIS”

Essa ideia é tão repetida que parece fisiologia básica.

Mas não é.

O fato fisiológico simples

O corpo humano não distingue cerveja, vinho, vodka ou whisky.

Ele só metaboliza uma coisa: etanol.

O que define o grau de embriaguez é:

  • A quantidade total de álcool ingerida
  • A velocidade da ingestão
  • O intervalo entre doses

Misturar bebidas não aumenta a embriaguez por si só.

O que acontece é outra coisa:

  • A mistura costuma acelerar o ritmo de consumo
  • Confunde a percepção de quantidade
  • Diminui o controle subjetivo

Resultado: você bebe mais sem perceber.

Não é a mistura.

É o volume.

 

MITO 4: “CAFÉ, BANHO FRIO OU COMIDA RESOLVEM”

Esse mito aparece sempre depois do estrago.

Um café forte.

Um banho gelado.

Algo para “forrar o estômago”.

A sensação melhora — e a ilusão se instala.

A realidade metabólica

O álcool é metabolizado quase exclusivamente pelo fígado.

A taxa média de eliminação é de cerca de 0,015% de álcool no sangue por hora.

Nada acelera esse processo.

Nem café.

Nem banho frio.

Nem comida.

Nem exercício.

Segundo a Substance Abuse and Mental Health Services Administration (SAMHSA), essas estratégias apenas aumentam o estado de alerta — não reduzem a intoxicação.

Você pode se sentir mais lúcido.

Mas continua embriagado.

Lucidez neste sentido não é sobriedade.

 

MITO 5: “BEBER SOCIALMENTE NÃO CAUSA DEPENDÊNCIA”

Talvez este seja o mito mais confortável de todos.

E o mais silenciosamente destrutivo.

Porque ele cria uma imagem específica do “dependente” e afasta todo mundo dela.

O que mostram os dados

A maioria das pessoas com Transtorno por Uso de Álcool (TUA):

  • Trabalha
  • Mantém relações
  • Cumpre obrigações
  • Não bebe todos os dias

Segundo a OMS, milhões de pessoas não se reconhecem dependentes justamente porque “funcionam”.

A dependência não começa na quantidade. Começa na função.

Quando o álcool passa a ser usado para:

  • Regular emoções
  • Dormir
  • Socializar
  • Reduzir ansiedade
  • Suportar o cotidiano

ele deixa de ser um hábito e vira um regulador psíquico. E isso pode acontecer bebendo “socialmente”.

 

POR QUE ESSES MITOS PERSISTEM?

Porque eles não meras desculpas ingênuas. São defesas psíquicas bem organizadas. E são individuais e coletivas.

Vivemos numa cultura que:

  • Legaliza
  • Incentiva
  • Publiciza
  • Normaliza

uma substância que está entre as que mais causam danos globais à saúde.

Questionar isso gera desconforto.

E o desconforto pede defesa.

O mito protege do conflito.

 

QUESTIONAR NÃO É MORALISMO

Existe uma confusão comum entre crítica e moralização.

Questionar o álcool não é dizer o que o outro deve fazer. É retirar o véu. É devolver escolha onde antes havia automatismo. É trocar repetição por consciência.

Eu mesma já acreditei em vários desses mitos. Por muito tempo. Talvez você também. E está tudo bem começar por aí.

Às vezes, o primeiro passo não é parar de beber.

É parar de se enganar.


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu

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