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Você já se despediu do que (ou de quem) precisava para encarar a VIDA SÓBRIO?

Hoje, 20/03, seria aniversário do meu pai se ele estivesse vivo. Ele foi — e continua sendo — o homem mais bondoso que já conheci. Ele literalmente tirava a roupa do corpo se precisasse para ajudar alguém.

Mas tinha um problema: ele bebia, e foi quem me apresentou o álcool. Trabalhou a vida toda, nunca deixou faltar nada em casa e sempre ajudou todos ao seu redor. Inclusive, seu velório parecia de celebridade, de tantas pessoas que foram prestar as últimas homenagens em agradecimento.

Explico tudo isso porque, em nenhum momento, quero manchar sua imagem, até porque compreendo que o álcool ainda hoje não é visto como droga por muitas pessoas, assim como o alcoolismo não é visto como doença.

Trago minha história como ponto de partida para uma reflexão sobre luto, despedidas e desapego.

Ao longo da vida, acumulamos coisas, pessoas, animais, sentimentos. Às vezes, inclusive, colocamos tudo na mesma balança. Esse acúmulo pesa em nossa vida de diferentes maneiras.

Quando não conseguimos lidar com essas questões, jogamos tudo para debaixo do tapete. E, se o tapete já está alto demais de tanta sujeira, ainda enfeitamos: colocamos um sofá, sentamo-nos em cima. E, para finalizar — e esquecer o que está acontecendo — recorremos a comportamentos adictivos, sejam químicos (como o abuso de álcool) ou comportamentais (como comer excessivamente).

Então, um dia, após anos, você se vê ali, bebendo em meio a toda aquela confusão que você mesmo criou. Sem saber o que fazer e, muitas vezes, por achar “normal”, continua o ciclo.

A ilusão de muitos é acreditar que basta tirar o álcool, desligar o celular ou diminuir a comida para que a sujeira seja limpa automaticamente. Mas normalmente não é isso que acontece, pois a bebida funciona como um suporte para toda essa confusão que você criou — de coisas, emoções e problemas.

Se você tira esse suporte sem se preparar, tudo pode cair de uma vez sobre você. Além disso, mesmo que consiga parar de beber por um tempo, a carga de tudo o que não foi resolvido continuará pesando, podendo te levar de volta à bebida, que antes funcionava como seu único porto seguro.

Diante disso, o mais importante é:

ACEITAR a sua situação,

ASSUMIR a responsabilidade pela sua vida (pelo que já foi e pelo que virá),

e AGIR para mudar a sua realidade.

E agir, nesse caso, não é só parar de beber. É encarar tudo o que foi jogado para debaixo do tapete, como:

  • coisas que você usa, mas nem gosta;
  • relacionamentos complicados;
  • emoções represadas;
  • lutos não vividos.

Algumas dessas questões são mais simples de lidar do que outras. Objetos, por exemplo, muitas vezes só ocupam espaço e acumulam energia parada. Você pode agradecer por eles — e depois se desfazer: doar, jogar fora, deixar ir.

Relacionamentos já são mais complexos, porque não dependem só de você. Mas ainda assim, é preciso olhar com honestidade e, ao decidir, manter ou encerrar, buscar o melhor caminho.

Quanto às emoções, é necessário entrar em contato com elas e permitir que se manifestem de alguma forma, pois emoção é verbo. Aprendemos, muitas vezes, que não podemos sentir — que não podemos chorar, que não podemos demonstrar fraqueza.

No próprio filme Divertidamente, vemos o quanto menosprezamos a importância de sentir a tristeza. Mas reprimir não resolve. Só adia. E o que é reprimido, um dia, transborda — às vezes de um jeito que você não consegue sustentar.

E os lutos… os lutos precisam ser vividos. Muita gente acha que viver o luto é se jogar na cama e ficar ali para sempre. Mas não é isso. Viver o luto é um processo ativo. E existem muitos tipos de luto: pela morte de alguém, por um divórcio, por uma mudança de país, por um diagnóstico… Cada um com sua forma e seu tempo.

Quando meu pai morreu, eu estava casada há apenas quatro meses. Chorei, fiquei triste e segui em frente, como somos orientados a fazer.

Naquele momento, eu não sabia o que era viver o luto — então eu não vivi; apenas segui em frente. E a partir dali, meu consumo de álcool aumentou drasticamente.

Segui a vida com todos os meus “acúmulos”, e a bebida seguiu comigo. Parei de beber em 2018, mas só consigo me manter sóbria porque compreendi — na teoria e na prática — que o alcoolismo não é sobre a bebida, mas sobre tudo o que precisava ser resolvido e foi ignorado, porque, em algum momento, eu acreditava que precisava apenas seguir em frente.

É possível parar de beber e ignorar tudo o que foi jogado para debaixo do tapete? Sim, é.

Mas, além de exigir um esforço enorme para sustentar a sobriedade, a vida pode continuar pesada, e muito aquém do que poderia ser. E a verdade é: a gente não para de beber para continuar sobrevivendo. A gente para de beber para viver melhor.


Rafa Pessato

Embriague-se de si

rafapessato.eu