A ciência já não deixa dúvidas: o alcoolismo é uma doença crônica, multifatorial e progressiva, reconhecida pela Organização Mundial da Saúde. Isso significa que não se trata de “falta de caráter” ou de mera “força de vontade”, mas de um conjunto de fatores genéticos, biológicos, psicológicos, sociais e espirituais que interagem e moldam a relação de uma pessoa com a substância.
Estudos mostram que a dependência altera áreas centrais do cérebro, como o córtex pré-frontal (responsável por planejamento e autocontrole) e o sistema de recompensa (ligado à dopamina). Isso explica por que tantas pessoas, mesmo conscientes dos prejuízos, sentem-se presas ao ciclo de compulsão, recaída e culpa.
Isso não significa, porém, que não haja quem consiga sair sozinho. Algumas pessoas encontram em si mesmas a clareza, a disciplina e o autoconhecimento necessários para transformar sua relação com o álcool ou outras drogas. Outras, por sua vez, precisam de tratamento médico, grupos de apoio, terapia, redes de cuidado. Não há um único caminho universal, mas há um ponto em comum: a necessidade de olhar para dentro.
O QUE É PRECISO CONHECER EM SI PARA INICIAR A SOBRIEDADE?
Autoconhecimento não é ideia abstrata — é prática diária. Quem deseja VIVER (com letras maiúsculas) precisa se conhecer em dimensões que o vício anestesia:
- Gatilhos emocionais
- Ansiedade, solidão, rejeição, tédio, frustração.
- Identificar em que momentos o impulso surge é passo crucial.
- Padrões de repetição
- O que antecede a fissura? Um silêncio incômodo? Uma discussão?
- Mapear é iluminar o ciclo da recaída.
- Valores e limites
- O que você aceita viver e o que não aceita mais?
- Quem você quer ser sóbrio?
- O corpo como aliado
- Sono, alimentação, movimento físico.
- Pesquisas comprovam: práticas como meditação e respiração consciente reduzem fissura e estresse.
- A dor nomeada
- Muitas vezes, a substância é anestesia para traumas.
- Nomear essa dor, em escrita, fala ou terapia, já é um passo de cura.
- O prazer saudável
- O cérebro precisa de novas fontes de dopamina: vínculos, música, arte, espiritualidade, esporte.
DEPENDÊNCIA: QUÍMICA E COMPORTAMENTAL
A lógica da dependência é a mesma, seja com álcool, drogas ilícitas ou comportamentos compulsivos (jogo, comida, compras, sexo, internet, trabalho):
- Um vazio.
- Uma recompensa rápida.
- A escalada da dose.
- A perda da presença.
O denominador comum é sempre a fuga. O dependente deixa de viver em primeira pessoa e passa a existir em função da próxima dose ou repetição.
A PRESENÇA COMO PRÁTICA RADICAL
Se você quer realmente VIVER — e não apenas existir — precisa estar presente.
A presença é o antídoto contra a compulsão.
Na prática, isso significa:
- Observar a fissura sem se confundir com ela: “eu sinto vontade, mas eu não sou a vontade”.
- Respirar antes de agir: três minutos de respiração consciente mudam o fluxo da ansiedade.
- Registrar emoções: dar corpo ao invisível por meio da escrita.
- Trocar o automático pelo intencional: em vez de beber no impulso, escolher uma ação que honre o desejo de viver.
CIÊNCIA E POESIA DA SOBRIEDADE
Pesquisas de Harvard mostram que 40% a 60% dos dependentes em recuperação passam por recaídas. Não é fracasso, mas parte do processo de aprendizado. A recaída mostra o que ainda precisa ser olhado.
Sobriedade não é linha reta, é espiral: cada volta pode parecer repetição, mas traz um nível novo de consciência.
Como lembrou Jung: “Não se torna iluminado imaginando figuras de luz, mas sim tornando a escuridão consciente.”
VIVER EM PRIMEIRA PESSOA
O alcoolismo e outras dependências roubam autenticidade porque sequestram a presença. Mas o autoconhecimento devolve a chance de se habitar.
Iniciar a sobriedade não é prometer nunca mais beber. É escolher, hoje, olhar para dentro. É aceitar que a vida dói, mas também pulsa. É trocar anestesia por intensidade, fuga por presença, repetição por criação.
No fim, sobriedade é isso: viver em primeira pessoa.
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento













