Você talvez já tenha notado: tem algo novo no ar — ou melhor, no copo.
Não estamos falando de caipirinhas, cervejas ou vinhos. A nova moda é não beber. E mais: brindar com bebidas sem álcool. Chamam isso de mocktails.
A sobriedade está, ao que tudo indica, “na moda”.
Só que, se você é alcoolista ou já viveu o lado mais escuro da relação com o álcool, sabe que parar de beber não tem nada de modinha.
É batalha interna. É desapego, descontrole, desintoxicação.
É uma transformação que nem sempre dá pra filtrar e postar.
A pergunta que fica é: essa nova onda de sobriedade — com drinks estilosos e festas dry — é uma ilusão? Ou um novo caminho real pra quem quer, de fato, se libertar do álcool?
O MERCADO (E O MUNDO) ESTÃO BEBENDO DIFERENTE
Antes de qualquer julgamento, vale encarar um fato: os números não mentem. A forma como o mundo consome (ou evita) álcool está mudando — e rápido.
Segundo a IWSR (International Wine & Spirits Research), autoridade global no monitoramento do setor:
- O consumo global de cerveja tradicional caiu 1% em 2024, enquanto o de cervejas sem álcool cresceu 9% no mesmo período.
- As bebidas sem e de baixo teor alcoólico cresceram 13% nos principais mercados entre 2022 e 2024, com 61 milhões de novos consumidores aderindo à categoria.
- A estimativa é que essas bebidas atinjam 4% do mercado total de bebidas alcoólicas até 2027 — isso pode parecer pouco, mas representa bilhões em faturamento.
Na prática, enquanto muita gente segue bebendo, outra parte está parando, diminuindo ou se tornando “curiosa pela sobriedade” — o tal movimento sober curious.
Só nos EUA, 40% a 55% das pessoas já disseram querer reduzir o consumo de álcool. Entre os jovens da Geração Z, esse número ultrapassa 60%.
No Reino Unido, quase metade das pessoas de 18 a 34 anos já não bebe regularmente.
Uma pesquisa do Datafolha de maio de 2025 revelou que 49% dos adultos brasileiros consomem bebidas alcoólicas (em algum nível), enquanto a fatia que bebe com consumo abusivo chega a 18%. Entre esses, 11% reconhecem que bebem “mais do que deveriam” e 7% admitem beber “muito mais do que deveriam”.
Desses que bebem, 53% relatam ter diminuído o consumo no ano anterior, o que mostra uma tendência gradual de autocontrole ou mudança consciente. Apenas 12% aumentaram a frequência; o restante manteve os mesmos hábitos
Ou seja, estamos vivendo uma virada cultural. E ela está aparecendo em bares, cardápios, redes sociais, casamentos, festivais e até em churrascos de família.
A SOBRIEDADE COOL: O QUE ELA PROMETE?
Esse novo “pacote sobriedade” vem com estética bem definida: copos bonitos, ingredientes naturais, ambientes sofisticados, pessoas bem resolvidas.
A mensagem subliminar é: você pode ser saudável, leve, social, divertido — e sóbrio.
E isso, para quem sempre associou sobriedade à privação, vergonha ou fracasso, soa como alívio.
Pela primeira vez, parar de beber não parece “perder algo”, mas ganhar: qualidade de vida, clareza mental, rotina saudável, até pertencimento.
Para o alcoolista que está tentando largar a bebida ou manter a sobriedade, isso pode ser um suspiro. Afinal, algo que dói no começo é se sentir de fora, deslocado, “estranho”.
Então, sim — a sobriedade cool pode ser porta de entrada. Um lugar seguro para começar. Um convite social que não te obriga a beber para pertencer.
O PROBLEMA? A IMAGEM ENGANA — E, ÀS VEZES, ANESTESIA
Mas aqui entra o ponto crítico: nem tudo que parece saudável é transformação verdadeira.
Esse universo instagramável da sobriedade pode esconder o mesmo mecanismo do álcool: a necessidade de disfarçar a dor, de controlar a imagem, de pertencer a qualquer custo.
Em vez de beber para parecer relaxado, você posta um mocktail para parecer evoluído.
A lógica é a mesma. Só mudou o figurino.
Se você está em processo de recuperação, sabe que a luta contra o álcool vai além do copo. Ela envolve olhar para os vazios que a bebida preenchia, encarar as emoções sem anestesia, reconstruir rotinas, identidades e relações.
Ninguém passa por isso apenas trocando uma cerveja por kombucha.
Sobriedade não é o que você segura na mão. É o que você sustenta por dentro.
O DADO QUE NÃO APARECE NO FEED
Na contramão do glamour, existe a realidade dura dos alcoolistas em recuperação:
- Estudos mostram que menos de 25% das pessoas que tentam parar de beber conseguem manter a abstinência por mais de um ano sem apoio contínuo.
- Quando há tratamento estruturado e rede de apoio, esse número pode chegar a 60%.
- Ainda assim, recaídas são comuns — e parte do processo. A média de tentativas antes da sobriedade consolidada varia de 3 a 5.
Esses dados mostram que parar de beber é um desafio estrutural, existencial e espiritual. Não se trata apenas de comportamento, mas de identidade.
Você não está apenas abrindo mão do álcool — está descobrindo quem é sem ele. E isso leva tempo. Não é uma jornada para exibição. É para viver de verdade.
MOCKTAIL OU MULETA?
Então… os mocktails ajudam ou atrapalham?
A resposta não é simples — e depende de quem está segurando o copo.
* Para quem está começando, eles podem ser aliados. Oferecem acolhimento social, quebram o gelo, aliviam a pressão em eventos.
* Para quem está vulnerável, podem virar armadilha: mantêm a ritualização da bebida, reforçam a ilusão de que basta “trocar o líquido” para tudo se resolver.
* Para quem está firme, podem ser só uma escolha de sabor — sem peso simbólico.
O problema, portanto, não é o drink sem álcool.
É o que ele representa para cada pessoa: um passo real ou um disfarce a mais?
O PERTENCIMENTO QUE O ÁLCOOL PROMETIA (E NÃO CUMPRIA)
O álcool sempre vendeu um pacote emocional: relaxamento, pertencimento, leveza. Só que, no fim, entregava ansiedade, culpa, exaustão.
Agora, o mercado da sobriedade tenta vender o mesmo pacote — só que com uma roupagem de bem-estar. E, de novo, quem está no centro desse novo discurso são pessoas com poder de consumo, corpos padrão, vidas que cabem no feed.
E quem não se encaixa nisso?
Muitas vezes, os alcoolistas em recuperação continuam à margem: não aparecem nas campanhas, não se sentem representados nos eventos dry, nem se reconhecem nos influencers de “vida plena sem álcool”.
É preciso lembrar: a sobriedade real não é um palco. É uma travessia.
O QUE É (MESMO) SOBRIEDADE?
Sobriedade não é só parar de beber. É reaprender a viver — sentir, escolher, suportar.
É construir sentido onde antes havia anestesia.
É estar presente, mesmo quando dói.
É criar uma nova relação com o tempo, com o corpo, com a verdade.
E, nesse sentido, ela não pode ser terceirizada nem comprada.
Você pode tomar o mocktail mais caro do mundo. Mas, se não olhar pra sua história, ele só vai adoçar o que precisa ser digerido.
Sobriedade é processo. E como todo processo real, é imperfeito, ambíguo, contínuo e muito singular.
ALÉM DA TENDÊNCIA, A TRANSFORMAÇÃO
A nova era da sobriedade traz avanços reais: quebra tabus, amplia opções, acolhe quem está tentando mudar.
Mas também corre o risco de criar um novo tipo de ilusão: a de que dá pra se curar só com estética, sem mergulho. Se você quer parar de beber — ou está mantendo sua sobriedade com esforço — saiba: você não precisa ser bonito, organizado ou inspirador.
Você só precisa ser honesto. Consigo. Com sua dor. Com sua história.
Brinde, sim — se quiser. Mas brinde à coragem de continuar. Brinde ao fato de que você está mudando por dentro. E isso vale mais do que qualquer drink
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento