Há um silêncio que antecede a tempestade. Nem sempre se ouvem trovões; às vezes, é um vento leve que muda de direção, uma nuvem que escurece devagar, uma sombra que se insinua no horizonte. Assim também é a recaída: raramente chega de repente. Ela se anuncia em pequenos sinais, quase imperceptíveis, como um coração que acelera diante de lembranças, ou uma mão que busca no bolso um isqueiro antigo, sem cigarro, sem motivo.
A dependência — seja do álcool, das drogas ilícitas ou de comportamentos compulsivos — é uma tecelã paciente. Mesmo quando a pessoa decide romper o fio, ela continua fiando à distância, pronta para puxar de volta. A recaída não é apenas o ato de beber ou usar outra vez; é o retorno de uma lógica antiga, um velho roteiro que insiste em ser encenado.
E, no entanto, reconhecer esses sinais é como acender uma lanterna no escuro: não impede a noite, mas ilumina o caminho para atravessá-la.
O DESLIZE: A PEDRA QUE NÃO DERRUBA
Um deslize é como tropeçar em uma pedra durante a caminhada. O pé dói, o corpo se desequilibra, mas ainda é possível se manter de pé. Um gole, uma noite de fraqueza, um retorno momentâneo ao hábito. O deslize não define quem você é, mas alerta: o terreno está instável.
A neurociência mostra que o cérebro, quando exposto de novo à substância, acende memórias adormecidas. Não é apenas um gole; é um convite para os circuitos antigos retomarem a festa. Mas se o tropeço é reconhecido logo, há como retomar o caminho.
O perigo é confundir deslize com fracasso. Muitas pessoas pensam: “Já que falhei, vou continuar bebendo”. Mas um tropeço não obriga a cair no abismo. Reconhecer o deslize como acidente, não como destino, é o segredo para seguir.
A RECAÍDA: O RETORNO DO VELHO LABIRINTO
A recaída, ao contrário, não é só tropeço. É a decisão inconsciente — ou mesmo consciente — de voltar ao labirinto antigo. É como se, depois de dias limpando a casa, alguém abrisse todas as janelas para o vento trazer de volta a poeira.
Ela se manifesta em etapas: primeiro nos pensamentos, depois nos sentimentos, por fim nos comportamentos. Voltam as justificativas: “Só hoje, só para relaxar, só para comemorar.” Voltam os gatilhos emocionais: solidão, raiva, cansaço, vazio. Voltam os velhos amigos que oferecem a bebida como se fosse abraço.
A recaída é, sobretudo, um esquecimento: o esquecimento da dor que a dependência trouxe, o apagamento da memória dos dias de ressaca, da vergonha, do desespero. É como se a mente, seletiva, só guardasse a parte doce do veneno.
COMO PERCEBER OS SINAIS ANTES QUE O COPO CHEGUE À BOCA
- Mudanças sutis no humor: irritação fácil, tristeza sem motivo, ansiedade crescente. O corpo fala antes da boca tocar o álcool.
- Isolamento: o dependente começa a evitar conversas, se fechar, sumir das redes, faltar a compromissos. O silêncio pode ser prelúdio.
- Romantização do passado: frases como “Naquela época eu era mais divertido” ou “Um copo não faria mal”. É a memória pregando peças.
- Negligência com a rotina: parar de praticar as pequenas ações que sustentam a sobriedade — o diário, a caminhada, o grupo de apoio, a medicação, a terapia.
- Aproximação de antigos cenários: voltar a frequentar lugares ligados ao uso, retomar contatos que eram gatilhos.
Esses sinais não gritam; sussurram. É preciso escutar com atenção.
COMO AGIR DIANTE DO DESLIZE
Quando o deslize acontece, a primeira reação costuma ser culpa. Mas a culpa é como areia movediça: quanto mais se debate nela, mais se afunda. É melhor trocar a culpa por responsabilidade: reconhecer o erro, pedir apoio, retomar os rituais que sustentam a sobriedade.
Um deslize pode se tornar aprendizado. É como testar uma ponte recém-construída e ver onde ela cedeu. Com essa informação, reforça-se a estrutura.
COMO AGIR DIANTE DA RECAÍDA
Na recaída, é preciso coragem de recomeçar. Recaída não é fim; é curva. O que foi aprendido não se perde. Cada tentativa deixa marcas de autoconhecimento.
É preciso reconstruir: retomar grupos, reativar terapias, buscar formas de reacender a autoconfiança. Às vezes, será necessário um afastamento mais radical — mudar de rota, cortar contatos, reorganizar a rotina inteira.
O mais importante é não se deixar paralisar pela vergonha. O silêncio alimenta a recaída; a fala compartilha o peso.
O PAPEL DO FAMILIAR: ENTRE O CUIDADO E O LIMITE
O familiar muitas vezes se sente guardião do outro, mas também vítima de sua queda. O amor não basta para impedir recaídas, mas pode servir de rede para suavizar a queda.
Ajudar não é vigiar como polícia, mas estar presente como farol. O familiar pode:
– Escutar sem julgamento, para que o dependente não se esconda.
– Incentivar a retomada do tratamento, sem dramatizar.
– Oferecer companhia em momentos de fragilidade, lembrando que a solidão é inimiga da sobriedade.
– Estabelecer limites claros, para que o cuidado não vire conivência.
O familiar é testemunha e apoio, não salvador.
ESPERANÇA: O FUTURO AINDA EM ABERTO
Recaída não é derrota. Deslize não é sentença. Cada queda pode ser transformada em degrau, se houver coragem de levantar.
A sobriedade não se mede apenas em dias limpos, mas na capacidade de recomeçar. O segredo não é nunca cair, mas aprender a se levantar quantas vezes for necessário.
E, como li em algum lugar: “A vida começa no ponto em que a coragem decide substituir o medo.”
Que cada tropeço, cada deslize, cada recaída seja apenas o prelúdio de uma nova chance de autenticidade.
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento













