Talvez você nunca tenha feito essa pergunta de frente pro espelho: o que é ser sóbrio? Não só sem álcool no sangue. Mas sóbrio no sentido mais cru e profundo da coisa. Presente. Despido das anestesias que a gente inventa pra não sentir o que precisa ser sentido. Desarmado do barulho que abafa o silêncio interno. Inteiro.
A verdade é que ser humano já é por si só um trabalho intenso. Agora, ser humano sóbrio é um salto quântico. Um convite não só à abstinência de substâncias, mas à ampliação da consciência.
Não estou falando apenas de largar o copo. Mas de acordar da embriaguez existencial. Aquela que vem da pressa, da performance, do excesso de estímulos, da falta de escuta, da busca desesperada por pertencimento, prazer e alívio — mesmo que isso custe a alma.
E aí surge a pergunta que abre caminho pra tudo: O que sobra da gente quando a fuga vai embora?
A EMBRIAGUEZ COTIDIANA
Você já reparou como o mundo incentiva a gente a viver meio bêbado, mesmo que sóbrio no exame toxicológico? A velocidade, os likes, os boletos, os vícios emocionais, os barulhos mentais. Tem gente que nunca bebeu álcool, mas vive completamente intoxicada de distração.
E aqui vai a provocação: não é preciso um copo de vinho pra se embriagar da vida.
Segundo o filósofo Byung-Chul Han, vivemos na “sociedade do desempenho” — onde o sujeito se explora voluntariamente até o esgotamento, acreditando que está sendo livre. Nesse mundo, o excesso é a norma, e o cansaço é quase um status. Somos funcionalmente embriagados: hiperconectados, ansiosos, viciados em produtividade. (Han, A Sociedade do Cansaço, 2017)
Sobriedade, então, começa a parecer subversiva. Uma rebeldia radical. Uma volta pra casa.
SER SÓBRIO É…
…ver sem filtro.
Sem aquele borrão que o álcool, os traumas ou o ego colocam nas lentes internas. É como tirar o efeito de “embelezamento automático” que a mente cria pra proteger o que ainda não estamos prontos pra encarar.
…sentir tudo.
A dor que evitamos, o amor que travamos, a raiva que engolimos, a alegria que não sabemos receber. Ser humano sóbrio sente. Não nega. Não abafa. Não terceiriza. Porque sabe que cada emoção tem uma mensagem.
…lembrar.
Lembrar do que você era antes do mundo te ensinar a fugir. Lembrar da sua natureza essencial. Lembrar que você é mais do que um número no CPF, mais do que sua profissão ou o feed do Instagram.
Ser humano sóbrio é alguém que teve a coragem de se reencontrar com a própria inteireza. Mesmo quando essa inteireza dói.
A SOBRIEDADE COMO CAMINHO ESPIRITUAL
No budismo, existe um conceito chamado sati, que significa atenção plena, presença desperta. Curiosamente, essa palavra tem a mesma raiz que a palavra “sobriedade” em sânscrito. Sobriedade, então, não é ausência de algo, mas presença total.
O filósofo Alan Watts dizia que “o despertar espiritual é basicamente perceber que você está completamente alucinado”. Ou seja, viver inconsciente, automático, reativo — isso sim é um transe. E muitos de nós só saem desse transe quando algo quebra. Quando o fundo do poço vira portal.
Por isso, tanta gente relata que parar de beber foi só o começo. O álcool era só o sintoma. O real trabalho começa depois: quando você tem que olhar pra si sem véu, sem anestesia, sem personagem. E isso… isso é foda. Mas é também libertador.
A SOBRIEDADE AMPLIADA
Ser sóbrio no sentido profundo não é apenas se abster de substâncias. É ampliar a presença. É cultivar lucidez nas relações, no corpo, nos hábitos, nas escolhas.
É olhar pra um prato de comida e perguntar: isso me nutre ou me entorpece?
É perceber que aquela “amizade” gira em torno de um bar e não de um encontro real.
É notar que a música alta do carro serve pra não ouvir o vazio de dentro.
É perguntar: essa vida que eu estou levando… é mesmo minha?
Segundo Gabor Maté, médico e especialista em vícios, “o oposto de vício não é abstinência, é conexão” (In the Realm of Hungry Ghosts, 2008). Isso muda tudo. Porque ao invés de apenas parar de beber, você começa a se re-ligar a si. Ao corpo. À natureza. À verdade.
A VERDADE QUE ASSUSTA (MAS LIBERTA)
Muita gente evita a sobriedade porque teme o que vai encontrar em si. E com razão. Existe um luto em se tornar sóbrio. Luto do personagem, do estilo de vida, da sensação de pertencimento em ambientes alcoólicos. Tem uma morte simbólica ali. Mas também tem nascimento.
E o mais bonito? Quanto mais você segura o desconforto, mais você acessa a beleza. Aquela que é sutil, silenciosa, de dentro. A beleza de uma risada que não precisa ser embriagada pra existir. De um olhar que encontra o outro sem precisar seduzir. De uma conversa que atravessa.
Essa beleza, meus caros, é sóbria. É crua. É viva.
A EXPERIÊNCIA DA PRESENÇA
Você já sentiu um vento no rosto e se emocionou? Já percebeu a textura de uma fruta como se fosse a primeira vez? Já olhou pro céu e entendeu alguma coisa de você?
Pois é. A sobriedade permite esses milagres ordinários. Porque você está lá. Inteiro. Não tá acelerado, nem anestesiado, nem fugindo. Tá presente.
Sobriedade é isso: presença. A mais radical forma de amor-próprio.
SER SÓBRIO DE VERDADE
Não tem manual. Não tem fórmula. Cada um vai encontrar sua forma de habitar a vida com mais consciência. Pode ser na meditação, na terapia, na arte, na escrita, no silêncio, no mato. Mas uma coisa é certa: ser sóbrio é voltar pra si.
E nesse retorno, você percebe que a vida não precisa de filtros pra ser mágica. Que a sua história, mesmo com falhas e rachaduras, tem valor. Que a dor sentida é ponte, não prisão. Que a alegria sem fuga é mais leve. Que a lucidez, embora assustadora, é revolucionária.
A EMBRIAGUEZ COMO LINGUAGEM DE UMA AUSÊNCIA
No fim, talvez a gente beba (ou fuja, ou se entorpeça) não só pra escapar da dor… mas da falta de sentido. A sobriedade convida a gente a encarar essa falta — e criar, a partir dela, algo novo. Algo essencial. Algo nosso.
Então, da próxima vez que se perguntar “será que eu tenho um problema com bebida?”, talvez a pergunta mais honesta seja:
“Será que eu estou disposto a ser sóbrio?”
Não é fácil. Mas é o começo de uma vida real.
E vida real, mesmo que doa, vale mais do que qualquer ilusão embriagada.
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento