“Beber era como colocar fone de ouvido no meu próprio grito. Parar foi aprender a escutar”
Sabe aquela sensação de que tem um mundo inteiro dentro de você que você ainda não visitou? Pois é. A sobriedade não é o fim da festa — é o começo da viagem.
Quando a gente larga o álcool (seja por 21 dias, 1 ano ou pra sempre), a cabeça dá um nó. Mas, ao invés de surtar, que tal encarar isso como o momento em que o mapa interno começa a aparecer? Porque é exatamente isso que acontece: a neblina baixa, e as paisagens esquecidas da nossa psique começam a se revelar. A sobriedade é GPS novo em território antigo.
O ÁLCOOL COMO FILTRO INSTAGRAM DA REALIDADE
Bebida é tipo aquele filtro que melhora a cara na selfie, mas borra os detalhes. No começo parece leve, divertido, libertador. Mas depois de um tempo, não tem mais brilho que esconda a bagunça.
Neuroquimicamente falando, o álcool sequestra nosso sistema de recompensa. A tal da dopamina (o hormônio da recompensa) fica girando em falso. A gente bebe pra se animar, pra relaxar, pra dormir, pra transar, pra esquecer. Resultado? O cérebro entende que tudo o que importa tem que vir com um gole. E tudo o que não vem, parece sem graça.
Segundo a psiquiatra Anna Lembke, autora de Dopamine Nation (2021), “quanto mais buscamos prazer imediato, mais nossa balança interna pende pro lado da dor”. Ou seja: quanto mais você foge de você, mais dói estar consigo mesmo.
A ABSTINÊNCIA É UM DESERTO — MAS NÃO É O FIM
Parar de beber é como sair de uma casa em chamas. A gente sente o alívio, mas também a perda. Fica um vazio, um silêncio, um desconforto esquisito.
No início, tudo parece seco. A cabeça fica meio oca. O corpo estranho. As emoções, intensas. Mas respira. Porque esse “deserto” não é castigo. É terreno fértil. É o lugar onde você vai construir uma nova morada.
“Deixar de beber é como varrer o chão e descobrir que ali embaixo tinha um chão de madeira lindo, só que coberto de pó.”
QUANDO A IMAGINAÇÃO VOLTA A ACORDAR
Com o tempo, a mente começa a respirar de novo. As conexões cerebrais, antes ocupadas em sobreviver à próxima ressaca ou em achar desculpa pra beber, começam a se reconectar. E aí vem ela: a imaginação.
Segundo o neurocientista e ex-viciado Marc Lewis, em The Biology of Desire (2015), a recuperação acontece quando o cérebro aprende novos caminhos. É a tal da neuroplasticidade — a capacidade de mudar o mapa mental com novas rotas. Ou seja: você não volta a ser quem era. Você se transforma em algo que nunca teve chance de ser.
Sobriedade é um mapa em branco, mas um reciclado. E, com uma decisão firme, a gente começa a desenhar com lápis de cor.
A FILOSOFIA POR TRÁS DO COPO VAZIO
Lá atrás, Sócrates já dizia: “conhece-te a ti mesmo”. Mas cá entre nós: como é que alguém vai se conhecer se vive anestesiando tudo?
Beber, muitas vezes, é só o jeitinho socialmente aceito de não lidar. A bebida vira silêncio forçado, fuga elegante, “só hoje”. E assim, sem perceber, a gente vai se apagando.
Simone Weil, filósofa francesa, escreveu que “a atenção é a forma mais rara e pura de generosidade”. Estar sóbrio é estar atento. A si mesmo, ao outro, à vida. Mesmo quando ela tá feia, cansada ou sem roteiro.
DESCOBRIR NOVOS PRAZERES (DE VERDADE!)
“Mas a vida sem álcool fica sem graça!” — mentira que a mente conta pra manter o velho script. O álcool pode dar aquele pico de “alegria” e derruba logo depois. A graça da vida tá nos detalhes que a bebida embotava: o riso solto, a pele arrepiada de uma música, o gosto do café, a conversa que toca, o corpo que sente.
Judson Brewer, neurocientista e autor de Unwinding Anxiety (2021), fala que a atenção plena reconfigura o sistema de recompensas. Em vez de dopamina por impulso, a gente aprende a se recompensar pela presença.
Sobriedade é a arte de desacelerar o prazer — e saboreá-lo. Com tempo, com consciência, com o corpo todo envolvido. É tipo redescobrir que beijo bom é aquele que começa no olhar sincero.
O EU COMO PAISAGEM EM MOVIMENTO
Sabe o que você encontra quando para de fugir de si?
Você encontra você.
Com suas luzes e sombras.
Com os traumas que ainda doem e os sonhos que ainda vivem.
Com a criança que queria colo, o adulto que quer pertencimento e a alma que só quer paz.
“E no meio do inverno, descobri que dentro de mim existia um verão invencível.” Albert Camus
Esse é o milagre da sobriedade: descobrir que você não era vazio. Você é vasto. Só que tava coberto de entulho emocional. Agora, aos poucos, você limpa, planta, reconstrói. E percebe que seu corpo é casa. Sua mente é mapa. E sua presença, território sagrado.
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento