Um copo. Depois outro. E outro.
É assim que muitas histórias começam — sem anúncio, sem alarme. Apenas o gesto simples de erguer um vidro contra a boca. No início, o álcool parece só um detalhe do cotidiano, uma distração quase inocente, um tempero para os encontros e desencontros da vida. Mas, para alguns, essa relação cresce como uma sombra que se expande devagar, até tomar tudo: corpo, mente, vínculos, identidade.
Foi assim comigo. Não aconteceu de repente. O alcoolismo não chega como raio, mas como infiltração: silencioso, úmido, persistente. Ele vai manchando as paredes internas até que o teto desaba. O pior é que a gente demora a perceber que o desabamento não é súbito: ele vinha acontecendo há anos.
Chamei durante muito tempo a mim mesma de fracasso. Era esse o rótulo que grudava na pele cada vez que acordava depois de uma recaída, cada vez que prometia nunca mais e, dias depois, estava outra vez diante de uma garrafa. A palavra alcoolista chegou mais tarde, e apesar de também doer, ela parecia menos cruel. Diferente de “alcoólatra”, não me colocava no lugar de alguém deformado pela culpa. Era uma doença, sim, mas que eu poderia enfrentar sem precisar me confundir com ela.
CULPA: talvez seja essa a primeira pedra a ser carregada pelo dependente. Culpa pelo primeiro gole, culpa por não ter conseguido parar, culpa por falhar diante da família, culpa por esconder, culpa por existir. O álcool não pesa só no fígado ou no estômago: ele pesa na alma. E a alma encharcada de culpa se afunda.
Demorei a perceber que a culpa não leva à mudança — ela paralisa. A responsabilidade, sim, abre caminho. Quando parei de dizer “sou um fracasso” e comecei a dizer “estou em dependência”, algo dentro de mim se deslocou. Deixei de ser tragédia para ser alguém em processo.
Lya Luft, em Perdas e Ganhos, recorda a lição de uma amiga: diante de qualquer situação, pergunte-se: “É tragédia ou apenas chateação?”. Tragédia é o que não tem volta, é a morte que encerra a cena. Chateação, por mais dolorida, passa. O alcoolismo, a princípio, parece tragédia: caí em coma alcoólico, perdi o movimento de um pé. Podia jurar que era o fim. Mas naquele mesmo chão duro e frio, compreendi: podia transformar aquilo em recomeço. A perda não precisava ser a lápide; podia ser sinal. Passei a chamar de chateação o que antes me esmagava como tragédia.
E foi assim que a fraqueza virou coragem.
O FUNDO DO POÇO COMO CHÃO FÉRTIL
O fundo do poço é lugar de clichê, mas quem esteve lá sabe: há algo de real nesse fundo. Não há mais como cavar. E é exatamente ali que se encontra um tipo de liberdade bruta: ou você morre, ou você se levanta. A bebida havia me tomado quase tudo — saúde, dignidade, relações, até o andar. Mas, no meio da ruína, percebi algo estranho: ainda havia vida dentro de mim. Uma pequena brasa, quase apagada, mas viva.
É desse sopro que nasce a coragem. Não é coragem heroica, nem grandiosa. É coragem cotidiana, humilde, quase ridícula. Coragem de atravessar um dia sem beber, de dizer não a um brinde, de enfrentar uma madrugada insone sem anestesia. Essa coragem não vem de fora; ela se fabrica dentro, como quem aprende a respirar de novo.
Muitos me perguntam: “Como você conseguiu parar?”. Não há fórmula. O que posso dizer é: não foi de uma vez, mas foi de verdade. Cada recaída me ensinou mais sobre os meus gatilhos emocionais, sobre como eu usava o álcool não para viver, mas para fugir. Descobri que beber era a forma de não me ouvir. Quando parei, precisei encarar o silêncio da minha própria existência — e ele gritava.
Nietzsche dizia que “é preciso ter um caos dentro de si para gerar uma estrela dançante”. O alcoolismo foi meu caos, mas também foi nele que encontrei a centelha de uma nova vida.
GATILHOS, RECAÍDAS E A ARTE DE SE LEVANTAR
A dependência não é só química, é também emocional. Quantas vezes não me peguei querendo beber não pela sede do corpo, mas pela sede da alma? Era a falta de sentido que pedia gole após gole. Cada decepção, cada vazio, cada perda me lançava de volta à garrafa.
Os gatilhos emocionais são como fantasmas: aparecem em cheiros, em músicas, em lugares. Basta passar diante de um bar para que o corpo inteiro recorde o ritual da bebida. Basta uma festa para que a mente sussurre: “só hoje, só um pouco”. Mas não existe só hoje. Para o alcoolista, um gole nunca é apenas um gole. É o início de um labirinto sem saída.
Entendi que recaída não é sinônimo de fracasso — é parte da doença. Mas também percebi: é possível aprender com cada queda. A cada vez que voltei ao álcool, voltei também mais consciente do preço. E consciência, quando aceita, se torna força.
A sobriedade não é ausência de luta, é uma presença nova. É acordar inteiro, mesmo que doído. É suportar a insônia sem se anestesiar. É reaprender a rir sem precisar do copo. É encarar os próprios fantasmas sem usar o álcool como armadura.
O QUE A FRAQUEZA ENSINA
A fraqueza ensina mais que a força. Foi no momento mais vulnerável da minha vida que descobri quem eu era. A perda do movimento do pé, resultado direto do coma alcoólico, poderia ter sido apenas ruína. Mas decidi transformá-la em metáfora: já não caminho como antes, mas ainda posso seguir. A vida não acabou com a queda — recomeçou diferente.
Viktor Frankl dizia que quem tem um “porquê” enfrenta qualquer “como”. Meu porquê passou a ser a sobriedade. Não para mostrar nada ao mundo, mas para reconquistar a mim mesma. A cada dia sem beber, eu ganhava de volta pedaços da minha própria existência: a memória, a lucidez, a presença.
SOBRIEDADE: AUTENTICIDADE REENCONTRADA
Descobri, sóbria, que o álcool não era meu problema. Eu era o meu problema. O álcool era a solução falsa, rápida, cruel. E quando tirei essa bengala, precisei aprender a caminhar com minhas próprias pernas — mesmo que mancando.
A sobriedade não é só deixar de beber. É um modo de viver. É escolher a autenticidade em vez da performance. É aceitar que dói, mas que é real. É abrir espaço para criar, sentir, existir sem anestesia.
Clarice Lispector dizia que “liberdade é pouco; o que eu desejo ainda não tem nome”. A sobriedade, para mim, é isso: um espaço sem nome, um estado de presença, uma coragem de ser o que sou, sem precisar me esconder em copos.
DA TRAGÉDIA À ESPERANÇA
O alcoolismo me ensinou que nem toda tragédia é tragédia. Que da fraqueza nasce uma força desconhecida. Que a queda pode se transformar em recomeço. Que a culpa pode aprisionar, mas a responsabilidade liberta.
Não digo que é fácil. Não é. Mas é possível. A vida não deixou de ser intensa sem o álcool; pelo contrário: ela se tornou ainda mais real, mais presente, mais dolorida — e, por isso mesmo, mais bonita.
Aos que estão nesse caminho, deixo essa lembrança: o fundo do poço pode ser chão fértil. E mesmo que você tenha perdido muito, ainda há algo que ninguém pode tomar: a possibilidade de recomeçar.
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento













