Amanhece. Não é apenas o sol que nasce, mas uma inquietação. No silêncio da primeira luz, o corpo se move, busca algo — não é fome, não é sede, não é sono. É o chamado tímido das sombras internas, os murmúrios ondulantes de uma ausência que nunca se deixa nomear. Dependência, dizem, é prisão; mas só quem habita seus corredores entende que há também beleza na vulnerabilidade, um convite para olhar de frente o abismo e, quem sabe, encontrar ali um espelho.
AS RAÍZES INVISÍVEIS: O SOLO FÉRTIL DOS GATILHOS
O que dispara o mecanismo secreto de um desejo que se repete, dia após dia? Não é apenas a substância, o copo, o gesto automatizado — há um universo anterior, feito de memórias, angústias, alegrias partidas. Os gatilhos emocionais caminham entre nós como fantasmas educados: não batem à porta, atravessam paredes. Estão na notícia do jornal, na música do rádio, no cheiro de café, na ausência de alguém, no excesso de presença. Eles não gritam, sussurram. E, nesse sussurro, nos convencem de que o alívio mora na repetição.
Clarice Lispector, certa vez, escreveu: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” E talvez seja assim com o desejo compulsivo — uma busca por algo que escapa entre os dedos, uma tentativa de preencher o nome que não se pronuncia. Kafka, em seus corredores de burocracia e espera, sabia que há portas que nunca se abrem; mas, às vezes, basta encostar o ouvido e ouvir o que acontece do outro lado.
O RITO DA RECAÍDA: O CICLO ENTRE LUZ E SOMBRA
Por vezes, a recaída parece inevitável, um roteiro antigo encenado por atores exaustos. Mas há algo de grandioso em cada repetição, uma chance de olhar com outros olhos a cena já conhecida. O que faz com que, no instante anterior ao gesto, tudo pareça possível — e, logo depois, impossível de voltar atrás? Viktor Frankl nos lembrou que o sentido pode ser encontrado na dor, na travessia, no questionamento. Talvez o gatilho seja menos sobre o objeto do desejo e mais sobre o vazio que se deseja calar.
Sobriedade é, antes de tudo, coragem para habitar o desconforto. Não se trata de negar a tempestade, mas de aprender a dançar sob a chuva. Kierkegaard, que tanto falou do salto de fé, talvez sorrisse ao ver alguém escolher, mesmo no tremor, o caminho da autenticidade. Gatilho emocional não é sentença — é convite para escuta.
IMAGENS POÉTICAS DO COTIDIANO
Imagine um jardim abandonado, onde cresce, entre ervas daninhas, uma única flor. O impulso da dependência é a mão que deseja arrancar essa flor, esperando que, no arranco, venha o alívio. Mas a beleza está em observar, em regar, em entender que há raiz, há terra, há processo. Cada vez que o gatilho se manifesta, o convite é para olhar o jardim inteiro, perceber o ciclo, narrar o que se sente sem pressa de solução.
A dependência, com seus gestos repetidos, é também uma narrativa — feita de capítulos, de personagens, de tramas. O desafio é ler-se como quem lê Clarice: sem pressa, sem julgamento, com espanto diante da própria linguagem. O corpo fala, a mente repete, mas há uma alma que observa, silenciosa, desejando sentido.
A CARTOGRAFIA DOS GATILHOS: COMO IDENTIFICAR SEM MAPAS
Não espere mapas com legendas claras. Os gatilhos vivem em territórios de neblina, onde o nome das ruas muda ao sabor das lembranças. Identificar um gatilho é como ouvir uma música distante, reconhecer acordes antes desconhecidos. Freud falava de lapsos, de fissuras no cotidiano. Quem deseja sobriedade aprende a escutar essas fissuras, a reconhecer o momento exato em que a vontade se insinua — não para combatê-la, mas para compreendê-la.
Winnicott sugeria que é na experiência do vazio que nasce a criatividade. Talvez, então, seja preciso sentar-se com os próprios vazios, ouvi-los, dar-lhes espaço. O gatilho é também oportunidade: convite para ressignificar, para criar novos contornos de si.
DENSIDADE DO COTIDIANO: O PESO DOS PEQUENOS GESTOS
O desafio maior é distinguir entre o que é rotina saudável e o que é ritual compulsivo. O mesmo café, o mesmo trajeto, o mesmo abraço — tudo pode se tornar gatilho ou cura, dependendo de como se habita o instante. É preciso sensibilidade para perceber a diferença. Nietzsche, com seu martelo, nos lembra que é preciso desconstruir, testar, ouvir o som da autenticidade. “Torna-te quem tu és”, ecoa sua voz, e o caminho da sobriedade, então, deixa de ser fuga para se tornar busca.
Autenticidade não é ausência de desejo, mas presença plena diante dele. O dependente, ao reconhecer o gatilho, é como o poeta que vê, na mesma pedra, o obstáculo e a escultura possível. O poder está em olhar de frente, em transformar o susto em pergunta, em fazer do tropeço o primeiro passo de uma dança.
ESPERANÇA: O HORIZONTE DA TRANSFORMAÇÃO
No final do dia, quando o corpo repousa e as vozes internas se aquietam, resta o que não pode ser dito — o desejo de sentido, o anseio por autenticidade. A sobriedade, então, deixa de ser destino e se torna jornada. O dependente deixa de ser personagem secundário e assume o protagonismo de sua história. Os gatilhos, antes ameaças, se tornam sinais: faróis que indicam onde é preciso olhar, onde é possível criar, onde há espaço para ser inteiro.
Não há manual, não há checklist. Há caminhos, há práticas, há poesia. E há esperança — sempre. Porque, como sussurra Lispector, “há um mundo novo a cada instante”.
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento