A abstinência não é apenas a ausência da substância: é a presença nua da tempestade. O corpo treme como galhos frágeis, a mente gira como folhas arrastadas pelo vento, e a alma se vê exposta ao que sempre tentou calar. Quem já enfrentou essa ventania sabe que não há calmaria nos primeiros dias — há apenas um redemoinho de vontades, memórias e desejos que gritam dentro do peito.
Mas assim como o bambu na tempestade, a sobrevivência não vem da dureza, e sim da flexibilidade. Ferro quebra. Pedra racha. O bambu se curva, mas permanece. Assim também é a resiliência emocional diante da abstinência: não se trata de vencer a fissura pela força bruta, mas de atravessá-la sem se partir por dentro.
A TEMPESTADE INTERIOR
A abstinência é um terremoto e um vendaval ao mesmo tempo. O corpo pede a anestesia antiga: um copo, uma dose, uma fuga. O coração dispara, o suor frio escorre, o pensamento implora por atalhos. Cada minuto parece uma eternidade.
É nesse ponto que muitos confundem a dor de estar vivo com a falta da substância. Mas o que dói, na verdade, é a ausência da ilusão de controle. A tempestade é a verdade crua: estamos expostos, frágeis, humanos.
Nietzsche dizia que é preciso “ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante”. A abstinência é esse caos — e só quem atravessa a ventania sem se quebrar descobre a estrela que nasce depois da noite.
CURVAR-SE SEM CEDER
Resiliência não é ser impenetrável. Quem tenta resistir como ferro, endurece tanto que acaba quebrando na primeira fissura. O bambu, ao contrário, dobra-se ao vento, acompanha o movimento da tormenta, mas não se rende.
Na abstinência, curvar-se significa aceitar o incômodo sem transformá-lo em sentença. É respirar fundo quando o corpo pede fuga. É chorar quando a mente pede anestesia. É escrever em um caderno em vez de abrir uma garrafa. O bambu não nega a ventania: ele dança com ela.
GATILHOS: AS RAJADAS DE VENTO
Cada gatilho emocional é como um vento súbito que ameaça arrancar o bambu pela raiz. Uma propaganda de cerveja, um bar cheio de risos, a solidão de um domingo, o silêncio de uma madrugada.
Esses ventos não desaparecem. Mas, quando o corpo aprende a se curvar sem quebrar, eles perdem poder. Resistir não é lutar contra o vento, mas saber que ele sopra, passa, e não é eterno.
O CORPO EM REEDUCAÇÃO
A tempestade também se desenrola dentro da química do cérebro. Durante anos, o álcool ou a droga foram atalhos de prazer imediato. Sem eles, há uma seca de dopamina, um vazio químico.
É aqui que o corpo precisa de novos alimentos: uma caminhada que libera endorfina, um banho quente que relaxa músculos, uma música que desperta memória não etílica. Parece pouco diante da fissura, mas são esses pequenos gestos que ensinam o corpo a criar raízes mais profundas.
O RECOMEÇO COMO DIGNIDADE
Resiliência não nasce pronta: é treino. É acordar e decidir não beber hoje, só hoje. É resistir à primeira fissura da manhã. É atravessar a primeira noite em claro. Cada decisão é como o bambu que resiste a mais uma rajada.
Viktor Frankl lembrava que “quem tem um porquê enfrenta qualquer como”. O bambu só se mantém firme porque suas raízes estão enterradas fundo. Assim também o dependente em abstinência: só atravessa a tempestade quando encontra raízes de sentido — um filho, um amor, a própria dignidade, a simples vontade de viver mais um dia.
A ESPERANÇA DEPOIS DA CHUVA
Resiliência não é promessa de ausência de dor. É confiança de que a tempestade passa. Que o vento não sopra para sempre. Que a fissura não é eterna.
Kierkegaard dizia que “a angústia é a vertigem da liberdade”. A abstinência é essa vertigem: o espaço aberto depois que a droga se vai. Assusta, mas também liberta. O bambu, ao fim da tormenta, não é o mesmo que antes. Ele está mais forte, mais enraizado, mais vivo.
E assim também é quem enfrenta a abstinência. Não se trata apenas de parar de beber ou usar. Trata-se de aprender a se curvar sem se quebrar, de dançar com a ventania até que venha a calmaria.
No silêncio depois da chuva, o bambu continua de pé. E você também pode.
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento













