Muitas vezes, quando escrevo sobre o tema, gosto de deixar claro que o alcoolismo é multifatorial. Isso quer dizer que não é apenas a substância a responsável pela adicção. Há fatores genéticos, neurobiológicos, sociais, culturais e ambientais envolvidos no processo de aquisição da dependência.
Dentre todos esses fatores, o ambiente tem um peso muito importante. Não sou ingênua a ponto de afirmar que ele seja determinante, mas, como pesquisadora do tema — e como alcoolista — sei o peso que ocupa nessa balança.
Nossa casa, nossa vizinhança, nossa escola, nosso trabalho. Espaços nos quais nos desenvolvemos, aprendemos e adquirimos opiniões e hábitos. Ambientes de encontro, festas, cerimônias e também de conflitos. Lugares que guardamos na memória — não só da mente, mas do corpo.
Em relação à adicção, na qual se inclui o alcoolismo, há três fatores ambientais muito pertinentes na formação da dependência: a modelagem familiar, a disponibilidade da substância e o início precoce do consumo. Vamos refletir um pouco sobre isso.
A FAMÍLIA “COMERCIAL DE MARGARINA”?
Esse é um modelo familiar apontado por décadas pelos meios de comunicação como ideal para uma vida feliz e saudável. Trago esse exemplo apenas para facilitar o entendimento do conceito de modelagem familiar.
Costuma-se pensar que o alcoolismo não se instala nesse tipo de família, mas sim em famílias “desestruturadas”. No entanto, é importante compreender que desestrutura não diz respeito apenas à configuração familiar, mas à dinâmica que se estabelece.
Famílias podem ser consideradas desfuncionais quando apresentam comportamentos agressivos, emoções desreguladas e sentimentos não elaborados. E é nesse ambiente que muitas vezes se constrói uma relação disfuncional com o álcool.
Estudos mostram que filhos de pais que fazem uso abusivo de álcool têm maior risco de também desenvolver padrões problemáticos de consumo. Não apenas por fatores genéticos, mas principalmente pelo aprendizado comportamental — aquilo que se vê, se repete.
Além disso, ambientes familiares com baixa comunicação emocional, conflitos frequentes e pouca regulação afetiva tendem a aumentar a vulnerabilidade para o uso de substâncias como forma de alívio.
É necessário abordar esse aspecto porque ele não apenas favorece o desenvolvimento da dependência, mas também sua manutenção. Parar de beber sem olhar para essas dinâmicas familiares pode ser um forte gatilho para recaídas.
E não se trata de transformar a família em um modelo perfeito, mas, parafraseando Winnicott, talvez seja possível buscar uma família suficientemente boa.
PERTO DOS OLHOS…
Uma criança que cresce em um ambiente onde a bebida é consumida de forma natural tem maior probabilidade de tender ao consumo. Simples assim.
Lembra que, no início do texto, falei sobre o ambiente ser o lugar onde formamos opiniões e hábitos? Pois bem. Se a bebida está presente, acessível e associada a momentos positivos, ela passa a ser compreendida como algo bom, gostoso e, muitas vezes, necessário.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que a exposição frequente ao consumo de álcool dentro de casa está associada a um início mais precoce e a maiores níveis de consumo ao longo da vida.
Não se trata apenas de ver alguém beber, mas de como esse consumo é significado dentro daquele contexto: comemorações, alívio do estresse, recompensa, pertencimento.
E, aos poucos, essa associação vai sendo construída — muitas vezes sem que a pessoa perceba.
DEIXA A CRIANÇA EXPERIMENTAR!
Bebida alcoólica não é para criança.
Hoje há maior conscientização e controle sobre o tema, mas nem sempre foi assim. A permissão para experimentar — ou tomar apenas um “golinho” — era, e muitas vezes ainda é, dada sem muita reflexão, afinal, “o que poderia acontecer?”.
No Brasil, levantamentos nacionais como o LENAD (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas) mostram que uma parcela significativa da população inicia o consumo de álcool ainda na adolescência, muitas vezes dentro do próprio ambiente familiar.
E os dados são consistentes: quanto mais precoce é o início do consumo, maior a probabilidade de desenvolver dependência ao longo da vida.
Isso ocorre porque o cérebro ainda está em desenvolvimento, especialmente nas áreas relacionadas ao controle de impulsos, tomada de decisão e regulação emocional. O contato precoce com o álcool interfere nesse processo.
Ou seja, não é apenas um “golinho”. É o início de uma relação.
ERA UMA CASA, MUITO ENGRAÇADA…
Ao falar em ambiente, foquei principalmente no ambiente familiar. No entanto, os demais espaços em que convivemos — escola, trabalho, círculo social — seguem a mesma lógica.
Ambientes ensinam. Reforçam. Normalizam.
Ambientes onde o álcool está sempre presente — seja em happy hours, celebrações constantes ou como forma de lidar com o estresse — tendem a reforçar o consumo como algo esperado, quase automático.
Por outro lado, ambientes que oferecem alternativas, limites e outras formas de lidar com emoções podem funcionar como fator de proteção.
É por isso que, muitas vezes, ao iniciar um processo de sobriedade, não basta apenas retirar a bebida. É necessário, também, olhar para os ambientes que sustentam esse comportamento.
Isso pode significar mudar hábitos, rever relações, evitar certos contextos — ao menos por um período.
Porque, na prática, aquilo que está perto dos olhos e ao alcance das mãos… continua sendo uma tentação constante.
E, em muitos casos, continuar nos mesmos ambientes, com os mesmos estímulos e as mesmas dinâmicas, pode tornar o processo de mudança muito mais difícil — e, às vezes, insustentável.
Talvez por isso, para algumas pessoas, a sobriedade não comece apenas com a decisão de parar de beber, mas com a coragem de transformar o ambiente em que vivem.
Porque, no fim, não se trata apenas do que você consome.
Mas do que te cerca — e do que, silenciosamente, te influencia todos os dias.
Rafa Pessato
Embriague-se de si












