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ENTRE O VAZIO E O ENCONTRO: como construir relacionamentos saudáveis na sobriedade

A solidão do alcoolismo não se mede em metros, mas em copos. O dependente pode estar rodeado de gente, cercado de gargalhadas e barulhos de brindes, e ainda assim sentir-se como um náufrago perdido em mar aberto. O álcool cria essa ilusão de proximidade: aproxima corpos, mas afasta almas; aquece o estômago, mas congela a intimidade real.

E quando finalmente se escolhe a sobriedade, o silêncio que antes era abafado pelas garrafas emerge como uma presença quase insuportável. O alcoolista descobre que, mais do que parar de beber, precisa aprender — ou reaprender — a se relacionar.

Relacionamentos são espelhos. Durante a dependência, esses espelhos se tornam opacos, rachados, distorcidos pelo vapor do álcool. Na sobriedade, limpá-los é doloroso: ver o rosto do outro sem a névoa da embriaguez é também enxergar o próprio rosto. Muitas vezes, a primeira reação é de estranhamento.

“Quem é esse outro? E, mais difícil ainda, quem sou eu diante dele?”

 

A MENTIRA DAS RELAÇÕES REGADAS A ÁLCOOL

A cultura ensina que o copo é um mediador social. O brinde sela amizades, o happy hour costura colegas, a taça de vinho esquenta romances. Mas para o alcoolista, esse mediador se torna carrasco. É no álcool que ele busca coragem para se expor, leveza para suportar a companhia, anestesia para encarar a rejeição. Só que, no fim, fica o vazio.

Quantos amores foram confundidos com paixões de bar? Quantas amizades se sustentavam apenas até o último gole? Quantas conversas que pareciam íntimas se revelaram ocas no dia seguinte, junto com a ressaca?

O álcool destrói a autenticidade. Ele cria vínculos frágeis, que dependem da garrafa para existir. É por isso que tantos alcoolistas, ao pararem de beber, sentem que não têm mais amigos, que não pertencem a lugar nenhum. A sobriedade não é apenas perder o copo — é perder o cenário inteiro que girava em torno dele.

 

O CHOQUE DA PRESENÇA

Relacionar-se sóbrio é um ato de coragem. É expor-se sem armaduras químicas. É conversar sem anestesia, amar sem muletas, encarar conflitos sem a fuga da garrafa.

O alcoolista em recuperação percebe que o silêncio não pode mais ser preenchido por goles apressados. Agora, ele precisa ser preenchido por palavras, escuta, verdade. Isso assusta. A presença pesa.

Mas é na presença que nasce o encontro verdadeiro. É nela que se constrói intimidade.

Na sobriedade, descobre-se que ser visto de verdade é muito mais arriscado — e muito mais belo — do que ser visto através da lente turva da bebida.

 

AS FERIDAS QUE PEDEM CUIDADO

Muitos chegam à sobriedade com cicatrizes abertas: traições, mentiras, promessas quebradas. O álcool não destrói apenas o corpo e a mente; ele corrói a confiança. E confiança, uma vez rompida, não volta com um pedido de desculpas ou com um “agora estou sóbrio”.

Reconstruir relacionamentos exige tempo. É preciso provar, dia após dia, que o comportamento mudou. Não para agradar o outro, mas porque a vida sóbria exige coerência.

O alcoolista aprende que desculpas não bastam. É no cotidiano — no chegar em casa no horário, no não sumir por dias, no olhar limpo — que os laços voltam a ganhar força. A sobriedade é um testemunho vivido, não um discurso pronto.

 

O OUTRO NÃO É MULETA

Na dependência, muitos relacionamentos se transformam em codependência. O outro vira cúmplice da fuga: encobre ressacas, sustenta financeiramente, aceita abusos em nome do amor. A sobriedade traz uma oportunidade rara: romper o ciclo da codependência.

Relacionar-se saudável é libertar o outro do peso de ser “salvador” ou “babá”. É assumir a responsabilidade por si mesmo. É compreender que amar não é sugar, mas compartilhar.

Nessa nova forma de viver, não se espera que o outro preencha o vazio que antes o álcool preenchia. O vazio é encarado, é cuidado, é transformado. Só então o encontro pode ser genuíno.

 

A DELICADEZA DA RECONSTRUÇÃO

Um relacionamento saudável na sobriedade nasce como uma planta frágil. Precisa de cuidado diário, atenção, rega constante. Não é à base de grandes promessas, mas de pequenos gestos: olhar nos olhos, ouvir de verdade, respeitar limites, dizer “não” sem medo de perder o outro.

A sobriedade ensina que amar não é perder-se, mas encontrar-se junto. É dividir a vida sem dissolver-se. É reconhecer a singularidade do outro sem apagar a própria.

 

A AUTENTICIDADE COMO CAMINHO

O álcool é uma máscara coletiva. A sobriedade, ao contrário, é um ato radical de autenticidade. Relacionamentos sóbrios florescem quando cada um se permite ser quem é — com suas forças e fragilidades, sem disfarces.

Autenticidade atrai autenticidade. Quando o alcoolista deixa de interpretar papéis para caber em ambientes, ele descobre companhias que realmente valem a pena. Descobre amizades que não pedem performance, amores que não pedem fuga.

 

ESPERANÇA: VÍNCULOS QUE CURAM

Construir relacionamentos saudáveis na sobriedade é, antes de tudo, construir-se. É olhar para dentro e curar feridas que o álcool só escondia. É aprender que ninguém merece carregar sozinho o fardo da culpa, mas também que ninguém pode beber a própria dor para sempre.

Na sobriedade, os encontros deixam de ser refúgios momentâneos e tornam-se caminhos de crescimento. Amizades que sustentam, amores que libertam, laços familiares que se reconstroem.

O alcoolismo destrói vínculos. A sobriedade os reinventa.

E é nesse processo que se descobre a beleza de amar sóbrio: amar de verdade. Sem máscaras, sem anestesias, sem fugas. Amar com presença, amar com autenticidade.

 


Rafa Pessato

Especialista em Autoconhecimento e Comportamento

rafapessato.eu