Durante anos, o álcool foi mais do que uma bebida. Foi um passaporte. Um destravador. Um empurrãozinho. Um lubrificante social e emocional. Para muitos de nós, foi no meio de taças e tragos que a sexualidade se revelou — ou, ao menos, se soltou das amarras do medo, da vergonha e da rigidez.
Com o álcool, a roupa caía com mais facilidade. O corpo se entregava com mais coragem. O desejo parecia mais livre, mais leve, mais permissível. A sexualidade, que às vezes era um campo minado de inseguranças, traumas ou tabus, virava um parque de diversões regado a vinho, cerveja, cachaça. E, por algum tempo, funcionava. Ou parecia funcionar.
Mas aí a gente para de beber. Ou tenta parar. E uma pergunta bate com força, como ressaca moral depois de uma noite mal dormida:
Como viver minha sexualidade agora, sem o álcool?
Essa pergunta não é pequena. Ela carrega histórias. Carrega corpo. Carrega experiências que, mesmo doloridas, foram também portas de entrada para o prazer, o afeto, a descoberta. O álcool, com todas as suas consequências, foi cúmplice em momentos de liberdade que talvez não teriam acontecido de outro modo. E agora, sóbrio, vem o medo.
Não é só o medo de dizer “não” a um drink. É o medo de dizer “sim” ao próprio corpo sem anestesia. De sentir desejo sem a coragem líquida. De transar sem estar meio fora de si. É o medo de que, na sobriedade, o sexo perca o brilho, a espontaneidade, o tesão.
E, vamos ser sinceros, às vezes, perde mesmo.
O CORPO NU E O SILÊNCIO DESCONFORTÁVEL
Fazer sexo sóbrio, depois de anos fazendo sexo bêbado, pode ser um choque. O corpo parece estranho. A respiração descompassada. O toque, técnico. O orgasmo, distante. A cabeça cheia de pensamentos. Uma ansiedade silenciosa — ou escandalosa — perguntando: isso ainda é pra mim?
Tem gente que simplesmente evita. Se afasta. Finge que não sente. Arruma desculpas. Porque enfrentar o sexo sem álcool é, muitas vezes, enfrentar a si mesmo. E nem todo mundo está pronto.
Sexo sem álcool exige presença. E presença exige coragem. Coragem de se ver. De se mostrar. De dizer “não sei”, “não quero”, “tenho medo”. Coisas que o álcool sempre abafou. Coisas que a sobriedade escancara.
Os jovens e os outros
Pode ser que para algumas pessoas — especialmente os mais jovens, com menos marcas, menos repetições, menos repressão — o sexo sem álcool venha com naturalidade. Para eles, talvez o corpo ainda tenha memória fresca de desejo espontâneo. Talvez a vergonha não tenha cavado buracos tão profundos.
Mas para quem viveu décadas usando o álcool como trampolim, o salto sem ele parece uma queda. Especialmente na maturidade, quando o corpo já não responde da mesma forma, a libido oscila, e os medos — que antes pareciam resolvidos — voltam à superfície.
Sexo, na maturidade, já não é simples. E sem o álcool, vira um território ainda mais delicado, quase desconhecido. Não tem manual. Não tem garantias. E não tem pressa.
Foi liberdade… ou fuga?
Aqui entra uma pergunta desconfortável, mas necessária:
Será que a sexualidade vivida com álcool era mesmo liberdade… ou era só fuga disfarçada?
O álcool muitas vezes servia como armadura. Um disfarce de coragem. Mas será que a gente estava realmente presente? Ou só reagindo? Ou repetindo? Ou fingindo que estava tudo bem porque o corpo respondia?
Sem o álcool, não dá mais para fingir. O corpo sente. A alma sente. E se não sente, se retrai.
Tem gente que, ao parar de beber, percebe que nunca gostou tanto assim de sexo. Ou que nunca transou com presença. Ou que usava o sexo como moeda de aceitação, como anestesia emocional, como rotina de sobrevivência. E isso pode ser brutal. A sobriedade pode ser a pá que desenterra feridas antigas, desejos reprimidos, confusões de identidade, desconexões profundas.
E tudo isso aparece… na cama.
O corpo pede mais (ou menos)
Na sobriedade, o corpo muda de linguagem. Ele quer outra coisa. Às vezes quer silêncio. Às vezes quer colo. Às vezes quer toque lento. Às vezes quer dormir. Às vezes não quer nada.
E aí você se pergunta:
Será que perdi minha sexualidade? Ou será que estou começando, enfim, a descobri-la?
Redescobrir o sexo sem álcool é como reaprender a tocar um instrumento que você sempre tocou desafinado. No começo é estranho. O som sai torto. O ritmo não encaixa. Você duvida de si. Mas se tiver paciência, o prazer aparece. De outro jeito. Menos intenso, talvez. Menos cinematográfico. Mas mais sincero.
A maturidade do desejo
Sexo na maturidade sem álcool é um mergulho sem máscara. É olho no olho. É corpo a corpo com tudo o que se é: com a flacidez, com a lentidão, com os limites. Mas também com a ternura, com a escuta, com o cuidado que nunca houve antes.
Não é sobre retomar a performance da juventude. É sobre reinventar o prazer. E isso não acontece em uma noite. Nem em um mês. Às vezes leva anos. Às vezes vem aos poucos, em forma de abraço, de masturbação consciente, de uma conversa aberta com quem se ama.
E às vezes… não vem. E tá tudo bem também. Porque nem todo mundo vai se reconectar com a sexualidade no mesmo tempo, com a mesma intensidade ou da mesma forma. O essencial é não se forçar a repetir o que já não serve — nem se punir por não sentir o que “deveria” sentir.
A honestidade afrodisíaca
Sexo sem álcool exige honestidade. Com o outro, sim. Mas principalmente consigo. É preciso aceitar que a excitação mudou. Que a relação com o corpo mudou. Que o que antes era simples, agora é complexo. Que o que era automático, agora precisa de intenção.
Não é um recomeço romântico. É um recomeço real. Dolorido, por vezes. Sem roteiro. Mas que pode, com o tempo, abrir espaço para um tipo de intimidade que antes parecia inalcançável.
Não é sobre gozar como antes. É sobre se permitir estar ali, mesmo quando o gozo não vem. É sobre tocar e ser tocado com verdade. É sobre falar o que se sente — ou o que não se sente. É sobre abrir espaço para o desconhecido sem precisar fingir segurança.
E quando o desejo some?
Sim, o desejo pode sumir. Por um tempo. Por muito tempo. Isso não significa que você está quebrado. Significa que o corpo está recalibrando. Que talvez você esteja em luto. Que talvez precise de tempo. Que talvez precise aprender a querer sem se dopar antes.
E isso dá medo. Porque a gente vive numa cultura que exige desejo o tempo todo, sobretudo do homem. Que associa prazer à juventude, à potência, à rapidez. E a sobriedade desacelera tudo.
Mas essa desaceleração, mesmo forçada, pode ser um novo caminho. Pode abrir perguntas novas. Pode revelar outras formas de estar com o outro — e consigo — que não passam pelo sexo como obrigação.
Nem sempre melhora — mas muda
Seria irresponsável dizer que a sexualidade na sobriedade sempre melhora. Nem sempre melhora. Mas sempre muda. E, às vezes, mudar já é uma forma de cura. Mesmo que doa. Mesmo que pareça menos intenso.
O álcool fazia o corpo parecer mais disponível. Mas também o tornava mais vulnerável, mais inconsciente, mais ausente. A sobriedade, por mais que doa, é o território onde o corpo pode, enfim, ser habitado de verdade.
E esse “habitar” nem sempre é erótico. Às vezes é espiritual. Às vezes é terapêutico. Às vezes é só… vivo.
E agora?
Agora, talvez, você precise deixar o silêncio falar. Precisar escutar o corpo com mais carinho. Permitir que a sexualidade reapareça — ou não — com o tempo. Sem forçar. Sem se comparar. Sem tentar encaixar num modelo antigo.
Talvez você descubra um novo tipo de prazer. Ou talvez perceba que o sexo, para você, não é mais prioridade. E tudo bem. Você está mudando. Você está sóbrio. E isso, por si só, já é um renascimento.
Entre o gole e o gozo, talvez exista algo ainda mais profundo: a chance de se encontrar. Nu, inteiro, real. Pela primeira vez.
Da dependência e desconexão à realização e conexão consigo.