Você já tentou somar quanto custou o seu último porre? E os de antes? E o que veio junto: a conta da amiga que esqueceu o cartão, os cigarros, a pizza da madrugada, o look novo pro rolê, o dia seguinte perdido, o táxi porque estava “muito mal pra dirigir”, a mensagem enviada impulsivamente, a multa, o choro? O preço da bebida raramente é só o da garrafa.
Este artigo não é uma planilha. É um espelho. É sobre dinheiro, sim — mas principalmente sobre o que ele cobre, sustenta ou esconde quando está aliado ao álcool. Porque entre as muitas desculpas para beber, o dinheiro sempre dá um jeitinho de aparecer: “Hoje eu posso.” “Comprei só duas.” “É só uma comemoração.” “Tô de férias, vou gastar comigo.” “Pior seria gastar com terapia.”
Mas quando a cortina da ressaca sobe e a lucidez volta, uma verdade incômoda emerge: o álcool pode até parecer democrático, mas sua relação com o dinheiro é tão perversa quanto silenciosa.
O VÍCIO É DEMOCRÁTICO — MAS SUA EXPRESSÃO VARIA
O álcool é uma substância socialmente aceita, amplamente consumida e legalmente vendida em quase todos os cantos do planeta. Não distingue CEP, raça ou saldo bancário. Alcoolistas existem em todas as classes sociais, embora a forma como o vício se manifesta — e é percebido — varie.
Segundo o Relatório Mundial sobre Álcool e Saúde da OMS (2018), os países com maiores rendas apresentam, em média, maior consumo per capita de álcool. Mas isso não significa que os impactos do alcoolismo sejam maiores ou menores — eles apenas assumem rostos diferentes.
Enquanto pessoas de classes mais altas podem gastar mais com bebidas sofisticadas, eventos sociais e experiências etilicamente romantizadas, em contextos de maior vulnerabilidade, o consumo tende a estar mais ligado à fuga rápida e barata — e os danos, mais visíveis: acidentes, perda de renda, violência, adoecimento precoce. Mas isso não quer dizer que a dor seja maior. Apenas menos protegida.
A verdade é que o sofrimento alcoólico não tem classe. Apenas expressões distintas — e desculpas personalizadas para se manter funcionando. O álcool, esse atravessador sorrateiro, se adapta ao orçamento e à narrativa de cada um. E coloniza consciências com a mesma maestria, em qualquer extrato social.
QUANDO O VÍCIO É “PLANEJADO”
Talvez você, como eu, ache que organizava bem a própria bebedeira. Afinal, é possível pagar boletos e ainda manter o estoque de bebida. Há quem mantenha investimentos, financiamentos e um cartão de crédito quase saudável — tudo isso enquanto bebe diariamente. Parece que está tudo sob controle. Mas aí vem a sobriedade. E com ela, um susto: quanto tempo e dinheiro a gente usou pra fugir de si mesmo?
No curso de extensão que fiz pela PUCRS, “Como alcançar objetivos profissionais e metas financeiras”, algo ficou muito claro: não existe organização financeira verdadeira quando a gente vive em piloto automático emocional. O álcool não destrói só o orçamento — ele bagunça a bússola. O que parecia controle era, na verdade, sobrevivência disfarçada de planilha.
ENTRE O BAR E O BURACO: ONDE ENTRA O DINHEIRO?
Em 2019, um estudo publicado na The Lancet apontou que o custo global do consumo de álcool ultrapassava US$ 1 trilhão por ano, incluindo despesas com saúde, produtividade perdida, acidentes e crimes relacionados. No Brasil, dados do Ipea (2015 – ok, dados defasados) mostram que o álcool custa aos cofres públicos mais de R$ 33 bilhões ao ano, considerando apenas os impactos diretos na saúde e segurança.
Agora, pense individualmente: quanto do seu dinheiro sustentou essa máquina? Mais do que as cifras, o mais perigoso é o sentido simbólico que damos a esse investimento: o álcool como recompensa, alívio, acesso, identidade, lubrificante social, comunhão.
Em termos financeiros, o álcool é um investimento emocional com retorno negativo garantido.
QUANDO O PRAZER CUSTA CARO
Se você viveu o alcoolismo mantendo as contas em dia, talvez tenha feito o que muitos de nós aprendemos a fazer: amortecer o sofrimento com consumo. Porque não é só sobre a bebida — é sobre a experiência que a envolve. E ela custa caro.
Veja este cenário realista — ainda que hipotético — para muitos adultos urbanos de classe média:
Sexta-feira: happy hour com duas ou três doses + petisco (R$ 120)
Sábado: balada ou bar com amigos, drinks e transporte (R$ 250)
Domingo: delivery + ressaca emocional (R$ 80)
- Total semanal estimado: R$ 450
- Total mensal: cerca de R$ 1.800
- Total anual: mais de R$ 21 mil
Esse cálculo não é uma média oficial, mas uma simulação baseada em padrões comuns de consumo urbano. Pode variar — e muito — de pessoa pra pessoa. Mas mesmo quando parece “pouco”, o álcool tende a entrar em várias categorias do orçamento: lazer, transporte, comida, presentes, saúde. Ele não custa só o que está no rótulo.
Alguns dados sobre o custo individual do álcool:
· IBRAC (Instituto Brasileiro da Cachaça) apontou que, em 2019, o brasileiro gastava em média R$ 55 por semana com bebidas alcoólicas — um número que pode ser muito maior em contextos urbanos de classe média.
· Uma pesquisa do Instituto Locomotiva (2022) mostrou que 37% dos brasileiros bebem ao menos uma vez por semana, e que entre os jovens adultos de classe média, o gasto com entretenimento gira entre R$ 300 a R$ 800 por mês, com o álcool frequentemente incluso nesse valor.
· OMS (2018) estimou que o custo indireto do álcool para o indivíduo, incluindo transporte, produtividade perdida, acidentes e saúde, pode superar em várias vezes o valor gasto diretamente na compra da bebida.
Algo para refletir é que esse custo não aparece como um “gasto com vício” no app de finanças. Está sob a etiqueta de vida social, lazer, autoamor. A bebida esconde-se entre eufemismos.
QUANDO A CONTA DO ÁLCOOL É SUA, MAS QUEM PAGA É O OUTRO
Tem também a dimensão relacional — e aqui, a conversa esquenta.
Quantas vezes mulheres ouviram “deixa que eu pago” e aceitaram a bebida como uma espécie de moeda de pertencimento? Quantos homens usam o dinheiro como ferramenta de sedução regada a álcool? Quem, no casal, carrega a conta emocional e financeira do vício do outro?
Muitos relacionamentos vivem a dinâmica silenciosa do “se você não bebesse tanto, a gente poderia…”:
…viajar mais.
…ter comprado a casa.
…trocar o carro.
…fazer uma terapia de casal.
…ter paz.
O dinheiro some, o ressentimento cresce, e o álcool se torna a terceira pessoa do relacionamento — quase sempre, a mais mimada.
A ILUSÃO DA LIBERDADE FINANCEIRA
A cultura da performance vende uma ideia perigosa: se você tem grana, pode tudo. Inclusive se destruir com mais conforto. Não importa se a bebida te rouba presença, saúde, potência — se você paga por ela com o próprio dinheiro, parece que tem o direito.
Mas liberdade financeira não é isso. É escolher conscientemente como e por que usar seu dinheiro. E é impossível fazer isso quando seu cérebro está sequestrado por um sistema de dopamina hackeado pelo álcool.
Aliás, estudos de neuroeconomia indicam que o consumo crônico de álcool afeta diretamente o córtex pré-frontal, responsável por decisões financeiras racionais, controle de impulsos e planejamento a longo prazo (Koob & Volkow, 2016). Em outras palavras: quem bebe muito tende a tomar decisões financeiras piores — mesmo quando acha que está tudo sob controle.
O QUE A SOBRIEDADE ENSINA SOBRE DINHEIRO?
Quando parei de beber, percebi que havia dinheiro ali que não era “só da bebida”. Era o que sustentava a fuga. Um dinheiro emocional, ansioso, fragmentado. E que, aos poucos, virou reserva de emergência, plano de carreira, viagem de reconexão. Sobriedade não é só deixar de gastar com álcool — é aprender a investir em presença.
A clareza que veio com a sobriedade e com o estudo sobre metas financeiras mudou minha relação com o dinheiro. Ele deixou de ser cúmplice das minhas fugas e começou a virar aliado dos meus desejos reais.
EI, VOCÊ AÍ… JÁ SE PERGUNTOU QUANTO VALE A SUA VIDA?
Esse artigo não é sobre condenar o álcool ou endeusar a frugalidade. É sobre olhar de frente. Porque o dinheiro que o álcool consome é só a superfície. O que está em jogo é o quanto da sua energia, tempo e sentido ele sequestra.
Talvez você nunca tenha ficado “endividado” por causa da bebida. Mas será que também nunca deixou de fazer algo importante por causa dela? Será que o seu dinheiro não estava “bem-organizado” apenas por que você aprendeu a administrar sua prisão?
Então, talvez seja hora de parar de cantar essa marchinha.
Porque no fundo, ninguém quer beber até cair se estiver inteiro por dentro.
E o que o álcool leva da sua conta bancária é só o rastro visível do que ele arranca de onde mais dói: o tempo, os planos, a potência de ser quem você é — sem precisar se anestesiar pra existir.
Rafa Pessato
Especialista em Autoconhecimento e Comportamento